A Traição do Sistema Educacional e dos Meios de Comunicação

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No primeiro capítulo do livro O Mundo Assombrado pelos Demônios – A ciência vista como uma vela no escuro, viagra sale Sagan faz uma crítica muito interessante crítica tanto ao sistema educacional, remedy quanto aos meios de comunicação, americanos. Mas esta crítica é perfeitamente aplicada ao Brasil e é extremamente atual.

Leiam o texto e, após seu término, farei alguns comentários.


Quando desembarquei do avião, ele esperava por mim, erguendo um pedaço de papelão em que se achava rabiscado o meu nome. Eu estava a caminho de uma conferência de cientistas e profissionais de televisão cujo objetivo, aparentemente inútil, era melhorar a apresentação da ciência na televisão. Os organizadores tinham gentilmente enviado um motorista.

– Você se importa se eu lhe perguntar uma coisa? – disse ele enquanto esperávamos pela minha mala.

Não, eu não me importava.

– Não é confuso ter o mesmo nome daquele cientista?

Levei um momento para compreender. Ele estava caçoando de mim? Finalmente, comecei a entender.

– Eu sou aquele cientista – respondi.

Ele fez uma pausa e depois sorriu.

– Desculpe. Eu tenho esse tipo de problema. Pensei que também fosse o seu. – Estendeu a mão. – Meu nome é William F. Buckley. (Bem, ele não era exatamente William F. Buckley, mas tinha o mesmo nome do famoso e polêmico entrevistador de TV, o que devia lhe render uma boa dose de zombarias bem-humoradas.)

Quando nos acomodamos no carro para a longa viagem, os limpadores de pára-brisa batendo ritmicamente, ele me disse que estava contente por eu ser “aquele cientista” – tinha perguntas a fazer sobre ciência. Eu me importaria?

Não, eu não me importaria.

E assim começamos a falar. Mas, como logo ficou claro, não foi sobre ciência que conversamos. Ele queria falar sobre extraterrestres congelados que definhavam na base da Força Aérea perto de San Antonio, sobre “canalização” (um modo de escutar o que se passa nas mentes dos mortos – pouca coisa, pelo visto), sobre cristais, as profecias de Nostradamus, astrologia, o sudário de Turim… Ele introduzia cada um desses assuntos portentosos com um entusiasmo eufórico. E tive de desapontá-lo todas as vezes.

– As evidências são precárias – eu repetia. – Existe uma explicação muito mais simples.

De certa maneira, ele era bem informado. Conhecia as várias nuanças especulativas sobre, digamos, os “continentes afundados” de Atlântida e Lemuria. Sabia na ponta da língua as expedições submarinas que deviam estar partindo para descobrir as colunas derrubadas e os minaretes quebrados de uma outrora grande civilização, cujas ruínas só eram visitadas atualmente por peixes luminescentes do fundo do mar e por gigantescos monstros marinhos. Só que… embora o oceano contenha muitos segredos, eu sabia que não existe nenhum sinal de confirmação oceanográfica ou geofísica para Atlântida e Lemuria. Pelo que a ciência pode afirmar, esses continentes jamais existiram. Já um pouco relutante a essa altura, eu lhe passei a informação.

Enquanto rodávamos pela chuva, podia vê-lo se tornar cada vez mais soturno. Eu não estava apenas negando alguma doutrina falsa, mas uma faceta preciosa de sua vida interior.

Porém, tanta coisa na ciência verdadeira é igualmente emocionante, mais misteriosa, um estímulo intelectual muito maior – além de estar bem mais perto da verdade. Ele sabia dos tijolos moleculares da vida que existem lá fora, no gás frio e rarefeito entre as estrelas? Tinha ouvido falar sobre as pegadas de nossos antepassados que foram encontradas em cinza vulcânica de 4 milhões de anos? E que dizer do Himalaia se erguendo quando a Índia se espatifou contra a Ásia? Ou da maneira pela qual os vírus, construídos como seringas hipodérmicas, introduzem furtivamente o seu DNA pelas defesas do organismo hospedeiro e subvertem o mecanismo reprodutivo das células?; ou da procura de inteligência extraterrestre pelo rádio?; ou da recém-descoberta antiga civilização de Ebla que alardeava as virtudes da cerveja Ebla? Não, ele não tinha ouvido falar. Como também não conhecia, nem mesmo vagamente, a indeterminação quântica, e reconhecia DNA apenas como três letras maiúsculas que freqüentemente aparecem juntas.

O sr. “Buckley” – bom papo, inteligente, curioso – não tinha ouvido virtualmente nada sobre a ciência moderna. Ele tinha um apetite natural pelas maravilhas do Universo. Queria conhecer a ciência. O problema é que toda a ciência se perdera pelos filtros antes de chegar até ele. Os nossos temas culturais, o nosso sistema educacional, os nossos meios de comunicação haviam traído esse homem. O que a sociedade permitia que se escoasse pelos seus canais era principalmente simulacro e confusão. Nunca lhe ensinara como distinguir a ciência verdadeira da imitação barata. Ele não tinha idéia de como a ciência funciona.


Esta é, basicamente, a situação brasileira. Nossos meios de comunicação são extremamente pobres em programas com qualidade científica. Temos canais ótimos como TV Escola e Futura, mas que não chegam a todos. Temos também programas educacionais/científicos na Globo, por exemplo, mas em horários impraticáveis.

Isto sem falar na péssima qualidade do sistema educacional. E não é de hoje: quando pequeno, o que era ensinado nas escolas era a decorar e cuspir o que era decorado, como verdadeiros papagaios. Hoje, conseguiram piorar ainda mais, ao não permitir mais a repetência.

O resultado de tudo isto é que nossas crianças não são ensinadas a pensar, raciocinar – a usar a razão, sempre. Por isto nossa sociedade é tão pouco cética e é este o motivo pelo qual o fundamentalismo evangélico tem crescido tanto no Brasil.

A coisa se modifica muito quando se fala de TV por assinatura, pois aí temos vários canais (Discovery, NatGeo, History) e diversos programas de conteúdo científico (Caçadores de Mitos, O Universo de Stephen Hawking, Curiosidade, Teste seu Cérebro, Insetomania, O Universo, Como Nasceu Nosso Planeta, Caçador de Múmias, etc). Mas, claro, são poucos que têm acesso a isto, devido ao preço das TVs por assinatura.

A única coisa que tem ajudado um pouco nos últimos tempos é o crescimento da internet, onde as crianças podem, enfim, ter acesso a todo tipo de conhecimento.

Como resolver esta situação? Não sei. É uma ótima pergunta. Quem puder (e quiser), deixe ideias de soluções nos comentários.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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8 Comments

  1. Terminei esse livro do Sagan recentemente. Existem tantas e tantas críticas que ele faz a vários pontos do sistema sócio-político-educacional americano que se aplicam direitinho por aqui. A ponto de se poder copiar, substituir alguns nomes e siglas, e colar em uma coluna de jornal.

    Tal qual Sagan, concordo plenamente que a ciência – quando utilizada de maneira benéfica, avaliando e reavaliando seus métodos, respeitando diferenças, a ética e bom senso, é o caminho para desenvolvimento de qualquer nação. O Brasil sempre foi visto como o país do futuro, mas fomos forjados com base no jeitinho, no improviso que, sim, ajudou muito em algumas ocasiões, mas atrapalhou (e muito, na minha opinião) e desenvolvimento da população. Especialmente quando nos referimos a pensamento crítico, valorização da educação como força essencial para a criação de novos cidadãos, etc.

    Ainda precisamos matar muitos dragões nas garagens do povo. Nada que não possa ser feito com muito trabalho, força de vontade e, principalmente, conscientização coletiva de que podemos ir muito além do futebol, carnaval e emissoras de tv em geral.

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    • “Ainda precisamos matar muitos dragões nas garagens do povo. Nada que não possa ser feito com muito trabalho, força de vontade e, principalmente, conscientização coletiva de que podemos ir muito além do futebol, carnaval e emissoras de tv em geral.”

      Bruno, concordo em gênero, número e grau. E é exatamente o papel do Livres Pensadores, foi pra isto que o criei pra começo de conversa.

      Agora estou tentando tornar a Organização Livres Pensadores em algo auto-sustentável. Se der certo, será fantástico! Poderemos fazer MUITA coisa! 😀

      Abraços!

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  2. Rapaz, eu fico preocupado mesmo com os canais a cabo. Quase todas as vezes que ligo a tv, ta passando algum programa sobre pseudociencia, com uma visão credula demais. Coisas como as profecias de nostradamus, extraterrestres por ai, busca por seres imaginários, ou até casos religiosos…

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    • Com certeza, Leon. Isto acontece principalmente no History, o que é uma pena… Mais que isto, estão tentando transformá-lo num “canal pro povão”, com programas como Caminhoneiros do Gelo e coisas do tipo.

      Enfim, tudo isto mostrado nos novos programas é interessante, concordo. Mas muitos deles poderiam ser colocados em apenas um documentário de 2hs. :/

      Abraços!

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  3. Podiamos fazer material de fácil compreensão com o objetivo de popularizar a ciência. Talvez entrar em contato com a TV Cultura? =D

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    • Seria ÓTIMO, Alexandre!

      Mas, tipo, a Revista Livre Pensamento já é isso. 😀

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  4. O que quero muito e finalmente ter um emprego mediano para que eu possa passar omaximo possivel de tempo com meus filhos, assistir uns discoveries juntos e conversar com ele muito, a fim de tentar passar pra ele uma visao critica da realidade. Nao ha outro jeito no Brasil.

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  5. Audio livro:
    https://www.youtube.com/watch?v=dfsESCld1wc

    Baixe em MP3, e ouça o livro:
    http://www.clipconverter.cc/pt/

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