Lei de Talião

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Autor: Marcelo Esteves

Quando um assassino de crianças é condenado à pena de morte, eu duvido que o sentimento de compaixão em relação a ele seja o mesmo manifestado em relação às vítimas que fez. Creio ser humanamente impossível, no calor da emoção, vivenciarmos a mesmo compaixão por um criminoso cruel e por inocentes assassinados de forma brutal. Naturalmente tendemos a odiar o criminoso, a maldizê-lo, a nos sentirmos satisfeitos com seu destino; enquanto lamentamos profundamente a perda de vidas que mal deixaram seus primeiros passos.

Esta introdução serve como exercício para refletirmos sobre a lei do carma, defendida pelos espíritas. Quando ocorre uma tragédia qualquer, a explicação do Espiritismo para o sofrimento das vítimas recorre a “dívidas” contraídas em outras “encarnações”. Ou seja, ninguém é inocente. Se uma grávida é destroçada em um acidente automobilístico, isto significa que está “resgatando” uma “dívida”. Em uma vida passada, ela foi responsável por infligir sofrimento semelhante. Provavelmente, assassinou cruelmente outra grávida, ceifando duas vidas.

Se você acredita piamente nesta versão espírita e, mais, se ela está incorporada em sua forma de sentir e perceber o mundo, eu lhe pergunto: a compaixão que sente pela vítima transformada em algoz é a mesma que sentiria, caso você a visse apenas como vítima?

Embora a reencarnação tenha sido utilizada, nos primórdios do Espiritismo, para explicar as desigualdades sociais, com o tempo transformou-se em um baú de contradições. Outros espíritas contemporâneos de Kardec zombavam da explicação dos franceses. No espiritismo anglo-saxão a reencarnação não existia. E foram os próprios “espíritos” que se comunicavam por lá, que trouxeram esta “informação”. Este imbróglio foi resolvido mais tarde, graças à habilidade de Kardec. Mas esta é outra história.

Voltando ao ponto, questiono sinceramente se a crença na lei do carma não influencia o sentimento dos espíritas em relação ao sofrimento humano. Se você foi um estuprador cruel na vida passada, como sentir a devida compaixão se, nesta, você for estuprado em nome da justiça divina? Será possível perceber com o mesmo olhar aquele homem moribundo, sofrendo a agonia de uma morte dolorosa, se lhe passa pela cabeça que, de outra feita, ele foi responsável por mal semelhante?

Eu não sei o que é pior, existir um deus que adota a lei de talião; ou existir pessoas que acreditam em um deus que adota a lei de talião. E, pior, há aqueles que se empenham em extensos exercícios de retórica para justificar o injustificável.

Eu não quero tirar o mérito dos espíritas, que se destacam pelo empenho na caridade. De alguma forma, conseguem superar esta hostilidade natural contra o algoz. Talvez não reflitam sobre isto; talvez atuem com um nível mínimo de empatia ou talvez realmente sintam um amor que sobrepuja a repulsa instintiva. Eu não sei.

Fato é que aquele assassino do primeiro parágrafo irá reencarnar um dia, para sentir na própria pele o sofrimento que provocou. E isto demandará um algoz para realizá-lo como vítima, alimentando ad infinitum a indústria do crime e castigo. Muitos dirão, eu sei, de “resgates” que não envolvem sofrimento. Todavia, basta abrir um jornal ou assistir o noticiário da TV para vermos qual é o “procedimento padrão”. E se há exceções, elas só confirmam a regra. Uma regra capaz de demonizar uma condição herdada de nossos ancestrais primatas, a empatia; e relativizar o sentimento mais duramente conquistado pela vida em sociedade, a compaixão.

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Autor(es):

Marcelo Esteves

Mineiro de Belo Horizonte, é formado em jornalismo pela UNI/BH. Com o nickname Marcelo Druyan, foi colaborador do site Ceticismo Aberto, editor do Blog da UNA, fundador e editor do blog Bule Voador. Com o nome Marcelo Esteves, foi co-fundador do Projeto Livres Pensadores e colaborador do blog Livres Pensadores. Uma frase: “Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim, dividir um planeta e uma época com você” (Carl Sagan).

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4 Comments

  1. Eu tenho que comentar sobre o pensamento espirita. O que eu entendo, sobre a minha mãe. A visão do espirita sobre o Carma, está certa quando diz que ele mais cedo ou mais tarde será responsabilizado pelos seus atos insanos que prejudicam os outros. O caso é que sente-se a compaixão pelo antes algoz, agora punido, porque foi lhe oferecida uma chance de passar pela mesma provação que ele deve superar pelo grau de entendimento que ela passou a ter sobre respeitar a diferença alheia. Se ele tivesse esse entendimento, talvez pudesse obter uma sublimação do seu Carma.
    Ou seja, o carma se faz necessário aquele que ainda não compreendeu profundamente as consequências de seus atos dentro da lei divina, ou até mesmo física: pra toda ação existe uma reação. Desculpem se disse bobagem grande. Tentei ser claro. Abraços!

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  2. Se olharmos para o carma através do Budismo – que é muito mais antigo que o Espiritismo, já eliminamos o componente D-us da discussão.
    E a lei de Talião é atribuída à D-us, já a Lei do Carma, ou lei da causa e efeito, não.

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  3. Sempre houve e haverá nas religiões justificativas para sofrimentos pessoais, e em todas elas a causa natural dos mesmos é atos (ou pecados) cometidos, no espiritismo a conceituação chega a meu ver até mais cruel, pois o sujeito se vê obrigado a passar reencarnação a reencarnação para atingir uma suposta “perfeição”.
    Muito maquiavélico esse conceito.

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  4. Penso tbém que existem espíritos que escolhem passar por esta provação (vítima) – Ver classificação dos espíritos. Talvez para servir a compreensão dos humanos e sua sociedade. Se para tudo existe uma causa, esta causa está no homem compreender o verdadeiro sentido da vida: “Amai-vos uns aos outros”. Quando um caso de violência ganha na mídia uma grande repercussão, ele está servindo para a sociedade “olhar, ver o seu comportamento” e muitas pessoas “acordam” para seus próprios atos, gestos e refletem muito sobre isso. O segredo está em não sermos futuramente o “monstro”, este que habita as cavernas do nosso cérebro… E que sai livremente todos os dias, todos os momentos com autorização das nossas próprias características ou talvez escondido sob o nome de stress.
    A vítima morre violentamente, mas deixa a sociedade que a sua morte foi estúpida, desnecessária, triste sorte… Mostra o algoz violento, sem humanidade, sem amor e ninguém deseja copiar este modelo de humano

    Bem, é o que me faz pensar num caso desses…

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