Sociedade VS. Indivíduo e a Liberdade

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A sociedade humana, desde seus primórdios, tenta controlar cada um de seus indivíduos. O que, aliás, não tem dado muito certo: até mesmo reformas religiosas, como a de Lutero, já foram realizadas. Essa tentativa de controle continua ainda hoje, por meio de mecanismos como o governo, a moral, as leis e costumes, como escreveu Bertrand Russell.

“Pode-se dizer, em tese, que a essência da ética provém da pressão da comunidade sobre o indivíduo. O homem pouco tem de gregário, e nem sempre sente, instintivamente, os desejos comuns a sua grei. Esta, ansiosa para que o indivíduo aja no seu interesse, tem inventado vários artifícios com o fim de harmonizar os interesses individuais com os seus próprios. Um desses é o governo, outro é a lei e o costume e o outro é a moral. A moral torna-se uma força eficiente de duas maneiras: primeiro, através do louvor e da censura dos que o cercam e das autoridades; e segundo, através do autolouvor e da autocensura, os quais são chamados de “consciência”. Por meio dessas várias forças – governo, lei, moral – o interesse da comunidade se faz sentir sobre o indivíduo.”

– Bertrand Russell, A sociedade humana na ética e na política. (Título original: Human society in Ethics and Politics. Tradução de Oswaldo de Araujo Souza. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1965.)

Bertrand Russell

Mas seria correto, ético, controlar as pessoas dessa forma, praticamente eliminando liberdades individuais? E, no fim, seria isso benéfico ou maléfico à sociedade?

Segundo Bertrand Russell, uma parte essencial da busca do bem geral é permitir aos indivíduos liberdades, desde que, óbvio, tais liberdades não sejam maléficas a outros. Assim, boa parte dessa tentativa de controle seria antiética, podendo ser até mesmo maléficas. É exatamente devido a isso, aliás, que minorias precisam lutar tanto para ter seus direitos reconhecidos.

“O homem tem seu valor intrínseco, e os melhores indivíduos fazem contribuições para o bem geral que não são solicitadas e que, muitas vezes, chegam a sofrer reação por parte do resto da comunidade. É, pois, uma parte essencial da busca do bem geral, o permitir aos indivíduos liberdades que não sejam, evidentemente, maléficas aos outros. É isto que dá origem ao permanente conflito entre a liberdade e a autoridade, e estabelece limites ao princípio de que a autoridade é a fonte da virtude.”

– Bertrand Russell, A sociedade humana na ética e na política. (Título original: Human society in Ethics and Politics. Tradução de Oswaldo de Araujo Souza. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1965.)

O melhor indicativo de todo esse problema é que, para se revolucionar, acaba sendo inevitável quebrar as regras, exatamente como fez Galileu Galilei. E, por pouco, ele não foi morto devido a isto. Como escreveu Paulo Freire, os silenciados não mudaram o mundo.

Galileu Galilei

“A liberdade que não faz uma coisa porque teme o castigo não está ‘eticizando-se’. É preciso que eu aceite a necessidade ética, aí o limite é compromisso e não mais imposição, é assunção. O castigo não faz isso. O castigo pode criar docilidade, silêncio. Mas os silenciados não mudam o mundo.”

– Paulo Freire, Pedagogia dos sonhos possíveis. (Org. Ana M. A. Freire. Editora Unesp.)

Para piorar as coisas, toda essa pressão é ainda mais pesada sobre os jovens, pois está dentro das escolas. Professores, com a mentalidade de que “é de pequeno que se corrige”, criam, não indivíduos plenos e livres, nas dóceis rebanhos.

Paulo Freire

Assim, evidentemente todo esse controle social sobre indivíduos não só é antiético, como também é extremamente maléfico, tanto para o indivíduo, quanto para a própria sociedade. E, aparentemente, não será muito fácil superar tudo isso.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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One Comment

  1. bem articulado o artigo e concordo com a maior parte de suas alegações, e eu creio que o que dificulta o conceito de liberdade é a pessoa separar as coisas, o individuo basicamente deve saber que toda ação tem uma reação, a minha vontade deve prevalecer quando convem, pois tudo tem hora e lugar, não existe liberdade “2.0″, os limites devem ser respeitados, isso por vontade do individuo e não pela força externa e sim pelo bom senso. parabens pelo trabalho.

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