César Lattes e o Nobel perdido

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Cesare Mansueto Giulio Lattes, ou simplesmente César Lattes (Curitiba, 11 de julho de 1924 — Campinas, 8 de março de 2005), foi o maior físico e o brasileiro a chegar mais perto de ganhar um Prêmio Nobel: o Nobel de Física. Polêmico, principalmente no que dizia respeito a Einstein e suas teorias da relatividade (tanto a restrita, quanto a geral), foi um de tantos gênios da física no último século.

César Lattes e José Leite Lopes.

Formado em matemática e física pela USP (Universidade de São Paulo) em 1943, foi, juntamente com outros brasileiros, trabalhar na Europa com professores como Gleb Wataghin e Giuseppe Occhialini e foi considerado o mais brilhante deles. Com apenas 23 anos de idade foi um dos fundadores do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), no Rio de Janeiro.

De 1947 a 1948, Lattes iniciou sua principal linha de pesquisa, o estudo dos raios cósmicos, os quais foram descobertos em 1932, pelo físico norte-americano Carl David Anderson. Montou um laboratório a mais de 5.000 metros de altitude em Chacaltaya (uma montanha dos Andes, Bolívia), empregando chapas fotográficas para registrar tais raios.

Durante uma viagem para a Inglaterra com seu professor Occhialini, onde foi trabalhar no H. H. Wills Laboratory da Universidade de Bristol, melhorou uma nova emulsão nuclear, pediu à Kodak Co. para adicionar mais boro a ela e, em 1947, realizou com essa emulsão uma grande descoberta experimental: de uma nova partícula atômica, o méson PI (pion), a qual desintegra em um novo tipo de partícula, o méson MU (muon).

Esta descoberta gerou uma revolução na ciência, pois até então era aceito que os átomos eram formados por somente 3 tipos de subpartículas atômicas (os prótons, nêutrons e os elétrons). Alguns cientistas chegaram a contestar os resultados, mas o apoio do dinamarquês Niels Bohr (guardem este nome), um dos maiores físicos da época, pesou na aceitação da descoberta, que daria início a uma nova área de pesquisa: a física de partículas.

Lattes, em conjunto com Muirhead, Occhialini e Cecil Powell, escreveu e publicou, então, o trabalho intitulado “Processes involving charged mesons” na revista Nature. Ainda no mesmo ano foi responsável pelo cálculo da massa da nova partícula. Um ano depois, trabalhando com Eugene Gardner na Universidade da Califórnia, em Berkeley, EUA, Lattes detectou a produção artificial de partículas píon no ciclotron do laboratório… E tinha apenas 24 anos de idade. Finalmente, ainda neste ano (1948), recebeu da USP o título de Doutor Honoris Causa.

Em 1949, Lattes retornou ao Brasil como professor e pesquisador na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e no CBPF. Depois passou outra breve temporada nos Estados Unidos (de 1955 a 1957) e voltou para o Brasil, aceitando uma posição na sua alma mater, o Departamento de Física da USP. Também nesse ano, Lattes ingressou na ABC (Academia Brasileira de Ciências).

Em 1963, ajudou a fundar o Instituto de Física em Campinas. Em 1967, aceitou a posição de professor titular no novo Instituto Gleb Wataghin de Física na UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas). Em 1969, juntamente com seu grupo, descobriu a massa das co-denominadas bolas de fogo, que são um fenômeno espontâneo, o qual ocorre durante colisões de altas-energias. Esse fenômeno foi detectado pela utilização de chapas de emulsão fotográfica nuclear, aquelas mesmas criadas por ele.

Finalmente aposentou-se em 1986, quando recebeu o título de Doutor Honoris Causa e Professor Emérito pela UNICAMP. Mesmo aposentado, continuou a viver em uma casa no distrito próximo ao campus da universidade. Morreu de ataque cardíaco em março de 2005.

Em 2008 foi anunciado que cientistas brasileiros que trabalham no LHC (Grande Colisor de Hádrons) tentariam confirmar uma previsão de Lattes. O que eles procuram é o chamado “centauro”: nome dado por Lattes a estranhos jatos de partículas que ele detectou nas montanhas da Bolívia em 1975, usando placas de um filme especial. Neste caso, as partículas incomuns não vinham de um acelerador, mas da colisão de raios cósmicos, a radiação de alta energia que chove do espaço sobre a atmosfera terrestre. Contudo, até o momento não houve novas notícias sobre o tema.

Ilustração de raios cósmicos.

Lattes ainda figura como um dos poucos brasileiros na Enciclopédia Biográfica de Isaac Asimov de Ciência e Tecnologia, bem como na Enciclopédia Britânica.

Lattes e Einstein

Quanto à controvérsia com Albert Einstein, veja os trechos abaixo, retirados desta entrevista de 05 de agosto de 1996, publicada no jornal Diário do Povo, de Campinas:

Repórter: O senhor é tido como um crítico de Einstein, não é mesmo?

César Lattes: Einstein é uma fraude, uma besta!  Ele não sabia a diferença entre uma grandeza física e uma medida de grandeza, uma falha elementar.

Repórter: E onde exatamente ele cometeu a falha a qual o senhor está falando?

César Lattes: Quando ele plagiou a Teoria da Relatividade do físico e matemático francês Henri Poincaré, em 1905. A Teoria da Relatividade não é invenção dele. Já existe há séculos. Vem da Renascença, de Leonardo Da Vinci, Galileu e Giordano Bruno. Ele não inventou a relatividade. Quem realizou os cálculos corretos para a relatividade foi Poincaré. A fama de Einstein é mais fruto do lobby  dele na física do que de seus méritos como cientista. Ele plagiou a Teoria da Relatividade. Se você pegar o livro de história da física de Whittaker, você verá que a Teoria da Relatividade é atribuída a Henri Poincaré e Hawdrik Lawrence. Na primeira edição da Teoria da Relatividade de Einstein, que ele chamou de Teoria da Relatividade Restrita, Ele confundiu medida com grandeza. Na segunda edição, a Teoria da Relatividade Geral, ele confundiu o número com a medida. Uma grande bobagem. Einstein sempre foi uma pessoa dúbia. Ele foi o pacifista que influenciou Roosevelt a fazer a bomba atômica. Além disso, ele não gostava de tomar banho…

O Prêmio Nobel de 1950

Embora fosse o principal pesquisador e primeiro autor do artigo publicado na revista Nature, descrevendo o méson pi, Powell foi o único que recebeu o Nobel de Física em 1950 por ele. O que foi uma surpresa para todos, porque Powell apenas figurava como autor, pois ele sequer participou realmente do trabalho. A explicação normalmente dada para esta questão é que “a política do Comitê do Nobel, que até 1960 era de premiar somente o líder do grupo de pesquisa”.

Contudo, sempre houve o rumor de que Niels Bohr (lembram que era para guardar este nome?) teria deixado uma carta intitulada “Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel – Abrir 50 anos depois da minha morte”, mas este rumor sempre foi tido como lenda. Isto devido ao fato de que todo pedido de informações a respeito de tal carta no Arquivo Niels Bohr, que fica em Copenhague, na Dinamarca, obteve retorno negativo: o Arquivo sempre deu respostas negando a existência de tal carta.

Niels Bohr

Apesar disto, há uma página do site do Arquivo Niels Bohr que fala de uma carta com esta exata condição, isto é, de apenas ser aberta 50 anos depois de sua morte. A página não diz nada a respeito de César Lattes ou a respeito do que seja esta carta, mas… Nunca se sabe. O link desta página foi colocado numa postagem da página Physics Act no Facebook e é o seguinte: http://www.nba.nbi.dk/icos/bnobel.html

Deste link se extrai:

DESCRIPTION OF COLLECTION:
Bohr’s correspondence with the Nobel Foundation. Removed from Bohr General Correspondence on account of the 50-year access restriction. To be incorporated in the Supplement to the Bohr Scientific Correspondence when the restriction no longer applies.

1 folder. Chronological. Swedish, Danish and English
Closed until 50 years after creation of the individual document

Em uma tradução livre para o português:

DESCRIÇÃO DA COLEÇÃO:
Correspondência de Bohr com a Fundação Nobel. Removido Correspondência Geral de Bohr por conta da restrição de acesso de 50 anos. Será incorporado no Anexo do Correio Científico de Bohr quando a restrição não mais se aplicar.

1 pasta. Cronológica. Sueco, Dinamarquês e Inglês
Fechado até 50 anos após a criação do documento individual

E é bom que se diga que Niels Bohr (Niels Henrick David Bohr), que nasceu em 7 de outubro de 1885 em Copenhaguem, faleceu em 18 de novembro de 1962. Ou seja: o aniversário de 50 anos de sua morte é este ano, em pouco mais de um mês. Então… Quem sabe? Ainda poderemos ter uma resposta a esta dúvida neste ano.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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9 Comments

  1. Nobel póstumo já.

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    • Sim, verdade!

      Mas, mesmo com a carta, duvido que o comitê do Nobel faça alguma coisa. Infelizmente.

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  2. Será que abrem hoje?

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    • Ótima pergunta, Henrique. Mas espero que sim.

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  3. Então, como podemos cobrar a abertura e publicação dessa carta?!?!?!?!?

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    • Acho que o ideal seria mandar e-mails para essa fundação. Seja cobrando pela abertura da carta, seja cobrando por quando eles a abrirão, etc…

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  4. Abriram a carta, mas não está microfilmado:
    http://archon.nbi.dk/index.php?p=collections/controlcard&id=6&q=nobel+committee

    O que será que está escrito?

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