Crença na Ciência?

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Sempre que crentes tentam dar respostas “à altura” para ateus acaba saindo uma pérola. Já repararam nisto? E, claro, quanto mais ingênuo e/ou ignorante o crente, maior é esta pérola. Pois bem, hoje quero falar sobre a maior de todas: a da “crença na ciência”.

Esta pérola costuma aparecer quando um ateu diz que “não crê em coisa alguma”, ou quando usa argumentos baseados na ciência para refutar algo da religião. Aliás, não só da religião, mas de muitas pseudociências também, afinal a crença nelas é tão forte para as pessoas que a tem, quanto para quem acredita em cobras e mulas falantes.

“Você crê na ciência, que é algo que já errou várias vezes! Eu creio em DEUS, que é perfeito e nunca erra!”
– Crente Desconhecido

A questão que estas pessoas não entendem é que não cremos na ciência – nós confiamos nela, o que é bem diferente. Afinal, já está mais do que comprovado que a ciência funciona. Seguem alguns exemplos de coisas criadas pela ciência:

  • A geração eletricidade
  • A lâmpada
  • O cinema
  • O rádio
  • A televisão
  • Os computadores e tudo que vem junto
  • Os carros
  • A medicina
  • E praticamente tudo que nos rodeia atualmente (desde eletrônicos, eletrodomésticos, a determinados tipos de materiais)

Por isto não é necessário “crer” ou ter fé na ciência. Basta ter um pensamento minimamente crítico, passar a observar o que está à sua volta e a questionar.

Sobre a ciência errar, isto é e não é verdade ao mesmo tempo. O ponto é que não é exatamente a ciência quem erra, mas sim cientistas – ou seja, seres humanos. A ciência não é o resultado de alguma divindade mágica e os cientistas não passam seus dias ajoelhados rezando para tal divindade lhes trazer revelações. Ao contrário, a ciência é o resultado do trabalho duro e diário, tanto intelectual quanto muitas vezes braçal.

Apenas como exemplo do trabalho braçal necessário na ciência eu poderia citar as pesquisas de campo. Várias ciências fazem isto, contudo de forma diferente. Na biologia, por exemplo, os cientistas vão a regiões de interesse (como matas, pântanos, etc) para coletar espécimes (seja de plantas, de insetos, ou o que for), para depois estudá-las em laboratório.

Já na astronomia, por outro lado, a pesquisa de campo consiste na observação dos céus, através do uso de telescópios e câmeras, durante longas noites. Noites e mais noites, diga-se de passagem. E num frio tremendo, pois quanto mais frios estiverem os equipamentos, melhores serão os resultados. E assim por diante.

Por tudo isto é perfeitamente normal que aconteçam erros: tanto hipóteses erradas podem ser formuladas (e elas sempre são, até mesmo para provar que elas são erradas), quanto resultados errados podem ser coletados, por um motivo ou por outro. Por exemplo, no caso da notícia de que a velocidade de neutrinos seria maior que a da luz, o que fez com que resultados errados fossem obtidos foi um simples cabo mal conectado.

“Existem muitas hipóteses na ciência que são erradas. Isso é perfeitamente correto; elas são a abertura para descobrir o que é certo. A ciência é um processo auto-corretivo. Para serem aceitas, novas idéias devem sobreviver aos mais rigorosos padrões de evidência e escrutínio.”
— Carl Sagan

Assim, uma das ferramentas mais importantes na ciência é, sem dúvida alguma, o ceticismo, pois é exatamente ele que faz com que as pessoas questionem possíveis novas descobertas e exijam mais evidências. É verdade, muitas vezes estas novas descobertas acabam se confirmando, mas é exatamente este escrutínio cético que faz com que a própria ciência descubra quando algo está errado.

“A ciência está aberta à crítica, que é o oposto da religião. A ciência implora para que você prove que ela está errada — que é todo o conceito — enquanto a religião o condena se você tentar provar que ela está errada. Ela te diz aceite com fé e cale a boca.”
— Jason Stock

Isto tudo é o exato oposto de fé. A fé é algo puramente emocional, não racional. As pessoas não têm fé devido às evidências, mas apesar delas. Quer dizer, mesmo que fosse possível provar a não existência de algo pelo qual determinada pessoa tenha fé, ela continuaria tendo esta fé.

“Se Deus existisse, a fé se tornaria desnecessária e todas as religiões entrariam em colapso.”
— Ron Barrier

É por isso mesmo que, por mais que a ciência seja usada como arma de guerra (vide bombas nucleares e até mesmo os jatos de guerra mais modernos), nunca é ela que causa a guerra, mas sim a fé. Seja a fé em deidades (religião), seja a fé na nação (nacionalismo/patriotismo).

“A fé não é racional, é emocional. Crentes reagem emocionalmente quando sua fé é contestada. No fundo de suas mentes, sabem que acreditam num mito e têm medo de que sua crença desabe na presença da lógica. É por isso que diferenças religiosas levam à guerra, mas não à Aritmética. Quanto menos evidência existe em favor de uma ideia, maior a paixão, maior a violência.”
— Bertrand Russell

Pode parecer estranho eu colocar o nacionalismo/patriotismo no mesmo patamar de crença de religiões. Contudo, ele é assim mesmo, é levado como algo sagrado, quase religioso. E torna as pessoas tão cegas quanto a religião, afinal as divisões de Estados são meramente políticas, não naturais. Isto sem falar que a espécie humana é uma só: sem raças ou o que quer que seja. As únicas diferenças são as crenças, os locais onde vivem e as diferentes adaptações para cada clima.

“O nacionalismo é uma doença infantil: é o sarampo da humanidade.”
— Albert Einstein

Voltando ao tema, o que está por trás deste “argumento” sobre crer na ciência, na realidade, é um desejo de igualar a ciência e a religião, de forma que a ciência não possa mais refutar qualquer coisa da religião (como já o fez, por diversas vezes, no passado). É apenas um desejo infantil, de continuar na ilusão e de tentar eliminar qualquer coisa que possa abrir-lhe os olhos.

Por tanto, é algo tão falso que talvez devesse se encaixar como uma falácia, porém desconheço tal falácia (caso exista). E a melhor forma de refutá-la é simplesmente colocando a seguinte citação no debate onde ela couber:

“A verdade não tem que ser aceita com fé. Os cientistas não seguram suas mãos todo Domingo, cantando, ‘Sim a gravidade é real! Eu vou ter fé! Eu vou ser forte! Amém.'”
— Dan Baker

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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9 Comments

  1. Excelente texto!

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  2. Parabens, brilhante texto!
    A ciência definitivamente não precisa de Deus, mas os homens podem precisar de Deus e precisam.
    A maneira como nós vemos o mundo, de uma forma racional, científica, é limitada, nosso olhar só enxerga o espaço euclidiano, mesmo com o uso das máquinas, de modo que a nossa percepção da realidade é única, peculiar. Só entendemos o universo da forma como ele é por nós o compreendemos assim. Mas ele é muito diferente, estamos numa sopa de energias imperceptíveis.
    Ao contrário, a maneira como vemos o mundo é apaixonante, emocional sim! Profundamente significativa, com traços muito profundos de teologia, filosofia, pois buscamos responder e dar sentido as grandes questões, que são inquietações do homem, muito mais antigas que a própria ciência.
    Porque a religião não busca a ciência para responder essas questões? Porque a ciência não procura Deus? As pessoas precisam evoluir e compreender que uma é complementar a outra?
    Mário Cesar, quando você fala de religião está falando do Cristianismo, Judáismo e de protestantes, estas profundamente beligerantes, não é? Mas sabemos que existem outras religiões, principalmente as orientais, Taoismo, budismo, por exemplo, são mais casadas com a ciência, pois acreditam que a inteligência do homem é obra divina, logo a ciência é obra divina para o crescimento espiritual.

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    • Obrigado, Henrique!

      Mas quando falo de “religiões”, incluo todas elas. Porque a própria ideia da metafísica, que está por trás de todas elas, é algo irreal, ilusório.

      Se você quer entender o universo, só existe uma forma: usando a ciência, pois nada além da ciência dá explicações sobre o universo. Religiões só servem para inventar historinhas reconfortantes, mas ainda assim mentirosas. 😉

      Abraços!

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  3. O ser humano na aurora da humanidade, (quase um pleonasmo)precisou da fé em deidades, para racionalisar o pensamento crítico do mundo à sua volta.
    Quando cada vêz precisava sobreviver, terrível era o embate com os elementos
    e o meio hostil à sua volta…Sua adaptação, sua criatividade,o uso de sua mente previligiada (fruto de uma evolução), o fizeram chegar a um estágio frente a natureza circundante, de conhecimento tal, que por mais que se ache a bolachinha especial do pacote, continuara precisando de fé no seu futuro, e precisando de artimanhas para passar conhecimento aos seus descendentes, e o atavismo de sua espécie, sempre questionará…questionará sempre…Tanto que até sua idéia de Criador tambem evoluirá…
    Mário César, a PUC,a Ritter dos Reis, e outras mais universidades, faculdades de orientações religiosas, formaram muitos bons pensadores e cientistas, que continuam questionando sem perderem a fé…E mesmo àqueles que passaram pelo tempo da inquisição católica (e protestantes tambem) não deixaram a peteca da Ciência cair…

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    • Isso é normal, Alberto. Muitos cientistas históricos, e mesmo atuais, são religiosos. Mas isso não significa absolutamente nada, não dá mais “valor” para a crença. Significa APENAS que eles não levaram seu ceticismo às últimas consequência.

      Além disso, para mim não há qualquer problema que eles continuem crendo. Desde que, claro, não queiram meter a crença absurda deles no meio da ciência. 😉

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  4. Sinto-me bastante empolgado quando entro neste blog. Os artigos nos fazem crescer com alto nível de debate!
    Obrigado mais uma vez a todos os pensadores que o mantêm.

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  5. É justamente o meu pensamento o desse texto. Deus, para mim, é apenas um conceito e nada mais (assim como qualquer outra divindade ou entidade sobrenatural: anjos, fadas, duendes, etc). Comparo Religião, Mitologia e Superstição como algo unificado. Deixo a pergunta: Ser um ateu cético-racional me impede de estudar esse sistema trino? Minha tentativa é descobrir se há algum fundo de verdade nisso tudo – dizem que há.

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    • Claro que não, Jonathan! Aliás, acho até mesmo que nós, ateus, somos aqueles que mais estudam essas coisas.

      Tanto que foi feita uma pesquisa nos EUA e o resultado foi que nós somos justamente aqueles que têm mais conhecimento sobre a bíblia. 😉

      Além disso, a antropologia (se não me engano) estuda justamente a mitologia dos povos. Mas eles não dão valor de veracidade ou não – para eles isto é indiferente. 😉

      Abraços!

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  6. O autor do texto é ignorante em relação aos termos que utiliza e desconhece as próprias religiões e ciência que julga ter conhecimento. Mais um plebeu que se acha inteligente. Trágico. Ignorou totalmente a relação da religião, em especial a Santa Igreja Católica, com a ciência. Além de ignorar totalmente o estudo dos religiosos em relação a fé. Texto infantil e bobo. Acusa a metafísica de ” algo irreal, ilusório”, mas não compreende que os pressupostos e a própria análise do empirismo e positivismo em sua relação com as coisas–seja uma análise certa ou incorreta– é metafísica.

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