“Devemos ser tolerantes”. Mas até que ponto?

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Muito tem sido dito, there hoje em dia, medical sobre a tolerância. Muitas acusações estão sendo feitas, assim como muitos fatos têm sido observados. Atos absurdos de intolerância têm sido cometidos e noticiados pelo mundo. Um bom (e infeliz) exemplo disto é o caso da menina que morreu em Bangladesh após receber 80 chibatadas simplesmente por ter feito sexo fora (ou antes, no caso) do casamento (mesmo sendo possível que ela tenha sido vítima de um estupro, como parece ser o caso).

Mas islâmicos não são os únicos intolerantes: devemos nos lembrar também das religiões cristãs que, com raras exceções, não aceitam a homossexualidade (na realidade nenhuma das sexualidades incluídas na sigla LGBT), além de negarem o acesso a direitos humanos (como o aborto e o casamento gay, até mesmo lutando contra estes direitos).

Exatamente devido a coisas como estas, que vêm sendo mais noticiadas, temos visto muito mais a exigência, digamos assim, por tolerância. Esta exigência tem sido feita por ateus, humanistas em geral, minorias (como negros, LGBTs) e mesmo por pessoas que professam religiões minoritárias. Ao ponto que até mesmo pessoas que professam as maiores religiões começam a exigir isto.

Assim, quanto mais o tempo passa, mais pessoas concordam que devemos ser tolerantes a aqueles diferentes de nós, seja em relação à cor da pele, à sexualidade, à cultura, etc. Em outras palavras, devemos sempre ser tolerantes com as pessoas, por mais diferentes que sejam. Mas até que ponto devemos ser tolerantes? E quanto às ideias (opiniões, dogmas, conceitos, etc.)? Devemos ser tolerantes com elas também? Até que ponto?

Tudo deve ter algum limite. Caso contrário, torna-se mais um dogma, que pode ser tão maléfico à sociedade quanto qualquer outro. Afinal, dogmas nada mais são do que ideias às quais não se tolera o debate – e, no caso de sermos tolerantes, como poderíamos não tolerar algo, quanto mais o próprio debate?

Apenas para exemplificar, será que seria correto tolerarmos práticas como a mutilação de meninas em países islâmicos, onde seus clitóris são removidos? O pior de tudo é que muitas vezes isto é feito a sangue frio, sem qualquer anestesia mesmo, e em péssimas condições de higiene.

E isto não feito apenas com meninas, mas também com meninos… De formas ainda piores, com piores condições de higiene.

Não tolerar coisas assim é mais do que mera intolerância, é mesmo condição imposta pela ética, é condição mínima da humanidade, que é o que nos torna quem somos, a qual deve sempre prevalecer. E mais: isto deve se estender a toda e qualquer prática religiosa nociva.

Sobre os islâmicos, é bom que se diga que, ao contrário do que muitos imaginam, existe um imenso número de islâmicos tão moderados quanto existem cristãos moderados. Assim, a intolerância não seria direcionada às pessoas que seguem o islamismo, mas a práticas como estas, que são completamente condenáveis.

Tudo bem, os exemplos que dei acima são extremos e, por usá-los, poderiam acusar-me de “ter apelado”. E com razão. Mas peguemos exemplos mais simples então: pessoas que entram no ônibus ouvindo música no último volume, sem fones de ouvido. Não importa o tipo de música, seja boa, seja ruim. Será que seríamos obrigados a tolerar isto, quer dizer, algo que nos incomoda profundamente (sem falar às demais pessoas no ônibus)? É óbvio que não.

Nada, nem mesmo a pregação da tolerância, poderia nos impedir de chegar a uma pessoa que entra no ônibus ouvindo música alta sem fones de ouvido e pedir, educadamente, que abaixe o volume ou use um fone de ouvidos. Afinal, não ser incomodado é direito que temos. A tolerância, aqui, não faria qualquer sentido – seria apenas comodismo.

Da mesma forma, muitas outras coisas não podem ser toleradas. Racismo, homofobia, xenofobia, sexismo… Escravidão, segregação racial, genocídios, linchamentos, perseguição religiosa, ideias malucas de limpeza étnica (como a de Hitler, por exemplo)… E daí por diante. Nada disso pode ser tolerado, sob o risco de perdermos nossa própria humanidade.

Sobre as religiões, devemos ser tolerantes quanto a uma pessoa escolher uma religião qualquer ou mesmo nenhuma. Isto simplesmente porque devemos tolerar as pessoas e suas escolhas pessoais, não por ser “politicamente correto” ou o que seja. Isto é o que é chamado de Liberdade Religiosa e está em nossa própria constituição. Segundo o artigo “Liberdade religiosa e escusa de consciência” do site Jus Navigandi:

Finalmente, de importância crucial é o art. 5º da Constituição Federal que traz em seus incisos VI, VII e VIII, dispositivos sobre liberdade religiosa, como segue:

“Artigo 5º.

(….)

VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença;

(….)

VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei.”.

Isto sem falar da própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU (da mesma fonte):

“ARTIGO 18. Todo homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância isolada ou coletivamente, em público ou em particular”.

Declaração esta que o Brasil é signatário e, por força do disposto no parágrafo 2.º, do artigo 5.º, da Constituição Federal, integra o direito pátrio tal como se tivesse sido aprovado aqui.

Contudo, tolerar religiões em si, isto é, a organização da fé na forma de entidades nacionais ou globais, já é outra história. Não há motivo, a priori, para que sejamos tolerantes com instituições. Instituições não são pessoas, portanto não gozam de qualquer direito a tolerância. Instituições devem ter sua liberdade de ação, mas também devem ser fiscalizadas, denunciadas e podem até mesmo deixar de existir (até mesmo por falência, por exemplo).

Religiões não podem ser toleradas, ainda mais quando estas religiões impõem dogmas totalmente antinaturais (pra não dizer desumanos), como a imposição do sexo apenas após o casamento, da castidade e, em alguns casos, do sexo apenas com motivação de procriação. Isto é extremamente absurdo porque, assim como para a maioria dos outros animais, o sexo é uma necessidade fisiológica para o ser humano. Não saímos por aí procurando parceiros sexuais só por ser “convenção social”, ou por “dar prazer”, mas sim por termos necessidade disto. O sexo nada mais é do que simples necessidade fisiológica. Se será feito apenas com amor ou não deve ser escolha pessoal de cada um, jamais ser uma imposição.

Isto sem falar da luta de determinadas religiões contra os direitos reprodutivos (contra o uso de camisinhas ou de qualquer método contraceptivo), o que tem causado uma epidemia de AIDS (principalmente na África).

Mesmo ideias não devem ser toleradas, até mesmo porque não faria o menor sentido “tolerar ideias”. Ideias existem para serem debatidas livremente para que, assim, possamos chegar a conclusões de quais ideias são realmente válidas. O que, como resultado, pode melhorar a vida de todos.

“Idéias não foram feitas para serem ‘respeitadas’. Idéias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos.”

— Idelber Avelar

Portanto, dizer que “intolerância é sempre errada, condenável” não passa de uma falácia: a generalização apressada (ou falsa indução), que é basicamente uma conclusão precipitada, feita sem considerar todas as variáveis, com evidências insuficientes. É basicamente aquele tipo de conclusão à qual alguém chega, não debate com seus pares e passa a impô-la como dogma que, este sim, pode ser (e normalmente é) extremamente maléfico. Isto sem falar que afirmar isto é uma tremenda hipocrisia.

“O cume da tolerância é mais rapidamente alcançado por aqueles que não andam carregados de convicções.”

— Alexander Chase

Finalmente, para limitar a tolerância não há nada melhor do que a ética aliada ao próprio bom senso. A ética é o melhor mecanismo que temos para nos dizer quando algo, seja o que for, passa dos limites do aceitável. Em casos em que isto aconteça, a intolerância passa a ser não uma atitude, mas um mecanismo de autodefesa de tudo aquilo que mais damos valor.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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6 Comments

  1. parabens pelo artigo, concordo com cada virgula dele, o dialago e o bom senso devem sempre prevalecer, eu creio que a maioria das religiões deveriam rever seus dogmas, o papel delas deve orientar o individuo para direção certa e não impor sua vontade aos seus fieis por achar conveniente. aprecio o seu trabalho, sou teista e nada tenho contra os ateus e sonho que um dia ambos os lados cheguem a um acordo e lutem por causas em comum.

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    • E. Nigma, você diz que “maioria das religiões deveriam rever seus dogmas”, mas dogma não se revê. Por definição, os dogmas não podem ser discutidos, só aceito por quem adota a crença ou ideologia neles fundamentadas. Penso que independentemente de ser teísta você pode lutar por um mundo melhor e com menos influências de dogmas claramente prejudiciais e intoleráveis.

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      • Assino em baixo, Luiz. 😉

        E, independente de discordâncias (que são normais), é bom ver que, no mais importante, a maioria concorda. 😉

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        • Acho que vcs deveriam dar uma olhada nesse livro daqui:”TEOLOGIA SISTEMÁTICA
          Charles Finney

          PREFÁCIO

          1. Boa parte das verdades do evangelho bendito está escondida sob uma falsa filosofia. Em minhas primeiras indagações no campo • da religião, vi-me totalmente incapaz de compreender as instru-ções tanto orais como escritas de mestres religiosos não inspirados. Parecia-me que eles resolviam toda religião dividindo-a em estados, ou do intelecto, ou da sensibilidade, coisa que a consciência me garantia serem totalmente passiva ou involuntária. Quando buscava definições e explicações, ficava cer-to de que eles não compreendiam bem a si próprios. Fiquei alarmado com o fato de que raramente definiam, mesmo para si, as próprias posições. Entre as palavras empregadas com maior freqüência, era-me difícil encontrar algum termo definido de maneira inteligível. Eu perguntava em que sentido os ter-mos “regeneração”, “fé”, “arrependimento”, “amor”, etc, eram empregados, mas não conseguia obter resposta, e não me parecia que a razão ou a revela-ção revoltassem-se contra isso…”

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          • O que ele quer dizer é que as coisas têm uma explicação inteligente. Elas são lógicas, não são regras arbitrárias.

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  2. Mário, seu artigo é um bom exemplo de bom senso ao qual você se referiu.

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