Dízimo: promessa enganosa

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Dízimo é basicamente aquele valor deixado em igrejas, sejam de dominações religiosas, sejam de seitas religiosas. No Brasil o dízimo é obrigatoriamente voluntário (ao menos teoricamente), mas ele já foi exigido por reis na antiguidade e alguns países ainda permitem, através de leis, que instituições religiosas tornem dízimo obrigatório.

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Existem, basicamente, duas formas de pagamento de dízimo: a realmente voluntária e aquela feita sob chantagem emocional. A voluntária nem preciso explicar muito, o padre ou pastor pede e aquele que pode ou quer o dá. Em certas denominações religiosas, eles simplesmente passam uma cesta ou chapéu e quem quer dá algo, quem não quer, não dá.

Sobre o pagamento voluntário do dízimo, não tenho muito o que falar ou criticar. É burrice, mas não há muito o que se fazer. Afinal, o dinheiro é da pessoa e ela o usa da forma que bem entender. Pode, inclusive, rasgar ou botar fogo, caso queira. Ou, dar a igrejas. Paciência, afinal, vai se fazer o que? Amarrar a pessoa no pé da mesa até que ela mude de ideia? Sem condições.

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Aquela feita sob chantagem emocional é feita quando determinada pessoa está desesperada, em busca de um milagre. Seja por motivo de saúde (por ter alguém muito doente na família, por exemplo), seja por motivo financeiro (ter dívidas às quais não se consegue pagar ou por ter perdido o emprego), etc. O fator importante, aqui, é o desespero e o que ele causa às pessoas.

Pouco importa a desculpa teológica para a cobrança de dízimo de fiéis de determinada igreja. O que importa é o pagamento do dízimo em si e o que é oferecido em troca. E, basicamente, o que é prometido é o impossível ou o extremamente difícil. Algo que todos os envolvidos sabem que não vai acontecer e que a promessa não tem como ser cumprida.

Pessoas desesperadas são presas fáceis: elas farão praticamente qualquer coisa que lhes peçam, em troca de ter seu problema resolvido. Por isso mesmo são os alvos preferenciais de charlatões em geral e de clérigos, principalmente cristãos. Esses são capazes de prometer até mesmo a ressurreição de mortos, caso seja necessário, em troca de uma boa quantia de dinheiro. E não têm qualquer pudor em exigir o que a pessoa tem e o que não tem.

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Isso é uma promessa enganosa, o que não só é antiético, como também pode ser perfeitamente encaixado no artigo 66 do Código de Defesa do Consumidor, o qual tipifica a propaganda enganosa.

Art. 66. Fazer afirmação falsa ou enganosa, ou omitir informação relevante sobre a natureza, característica, qualidade, quantidade, segurança, desempenho, durabilidade, preço ou garantia de produtos ou serviços:

Pena – Detenção de três meses a um ano e multa.

§ 1º Incorrerá nas mesmas penas quem patrocinar a oferta.

§ 2º Se o crime é culposo;

Pena Detenção de um a seis meses ou multa.

Quer dizer, qualquer pessoa que se sinta lesada por um padre, pastor ou outro clérigo, devido a uma promessa que ele fez, a qual se cumpriria em troca de um valor em dinheiro, poderia denunciá-lo com base nessa lei. E, de fato, isso já aconteceu antes. Veja essa notícia: “Casal processa pastor por promessa enganosa de cura”.

O problema é que é raríssimo que uma pessoa se sinta lesada por um padre, pastor, clérigo qualquer ou mesmo por uma religião, mesmo que tenha sido, de fato, lesionada. O que garante isso é parte dos próprios dogmas da dominação ou seita religiosa em si, que serve como “garantia contra imprevistos”. Segundo esses dogmas, não se pode questionar:

  1. O padre, pastor ou clérigo, seja qual for o caso;
  2. A igreja;
  3. Os dogmas da dominação ou seita religiosa;
  4. As vontades de deus.

Caso contrário, quer dizer, caso a pessoa questione um desses itens, isso será um pecado fortíssimo. Por quê? Oras, porque é o que um outro mandamento (dogma) diz. Simples assim.

Mas o mais importante é o que está na própria lista acima: um dos mandamentos dogmáticos é que não se pode questionar os próprios mandamentos. E ainda tem uma garantia a mais para o caso da pessoa questionar todo o resto: a vontade de deus. Afinal, que crente questiona a vontade do próprio deus?

“É difícil libertar os tolos de correntes que eles veneram.”

— Voltaire

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É verdade que algumas vezes tais promessas de milagres parecem funcionar. Mas lhes garanto: apenas parecem. Diversos estudos já foram feitos sobre a oração, por exemplo, e todos eles mostraram que a oração não tem efeito algum. Pior: um deles mostrou que aqueles que receberam a oração e sabiam que a receberiam tiveram um resultado pior do que aqueles que não receberam qualquer oração. Para mais informações, leia aqui (em inglês).

Assim, é sempre melhor procurar pessoas especializadas quando temos problemas. No caso de saúde, procure um médico. No caso de problemas financeiros, um consultor financeiro. Garanto que você terá muito menos problemas com isso. E o melhor: sem desculpas do tipo “foi a vontade de deus”.

“Se você quiser salvar seu filho da pólio, você pode rezar ou você pode vacinar… Tente a ciência.”

— Carl Sagan

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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3 Comments

  1. Mário, parece que o enquadramento no código de defesa do consumidor pode não ser adequado, pois ele trata de relações de consumo. Ainda que por relações de consumo o código seja bastante abrangente, penso que não seja por aí. Talvez o Código penal, no seu conhecido artigo 171 seja mais adequado: “Art. 171 – Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento…”
    Parece que nossa cultura tem como instituída uma norma tácita sobre o dízimo e as ofertas para seitas e religiões. “É para (D)deus!” Então, não tem erro. E mais, “eu dou para (D)deus, se o sacerdote pega para si, está roubando do altíssimo e terá que responder para (E)ele.” Além disso, no livro “Jesus Lava mais Branco” o autor, Bruno Ballardini, esclarece que não há nenhum produto melhor do que a palavra e seus derivados. O subtítulo do livro pode elucidar a ideia: “Como a igreja inventou o marketing”. Um produto cheio de virtudes e vantagens, que dura para sempre e que é perfeito e com garantia de satisfação, não tem nada parecido no mercado. E ninguém voltou do além reclamando, não é verdade! rsrsrsr

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  2. Relacionar código de defesa do consumidor com o relato acima é falta de coerência.

    171 que se enquadra.

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  3. A INDUSTRIA DA EXPLORAÇÃO RELIGIOSA

    Evangélicos Pentecostais

    Surgiram nos EUA, no final do século XIX e início do XX, e chegaram ao Brasil por meio de missionários americanos e europeus. A Igreja protestante prega a atuação do Espírito Santo e acreditam que Deus, por meio do “Espírito Santo” e em nome de Jesus, continua a agir da mesma forma que no Cristianismo primitivo. Isto é, “curando enfermos”, “expulsando demônios” e realizando “milagres”. A vertente evangélica mais bem sucedida no sub-continente é a pentecostal, que une a ortodoxia bíblica à ênfase na crença em curas divinas e na salvação por meio de milagres. Nos últimos quarenta anos, a população evangélica na América Latina pulou de 15 milhões para mais de 60 milhões de fiéis. Para os pentecostais, a pobreza é resultado do fracasso pessoal, não de um sistema econômico injusto. A todos a igreja oferece consolo e, muitas vezes, também uma porta de saída para escapar do crime, do vício e da solidão.

    Mas cobra caro por isso. Baseada numa particular Teologia da Prosperidade, a Universal e outras, fundada, chefiada e liderada pelo bispo Edir Macedo, prega que a maior expressão da fé são as oferendas de dinheiro, 10% de seus ganhos mensais: dízimo, o bízimo, trízimo, além de cheques pré-datados. A idéia de que, “toma-lá, dá cá” e “quanto mais se doa, mais Deus dá de volta”.

    Tem igrejas que oferecem óleo ungido, pãozinho ungido, sal grosso ungido, pedrinha de Israel ungida, etç… Levada ao paroxismo pela eloqüência dos bens treinados pastores da Universal, já fez com que almas crédulas arruinassem suas finanças, seu casamento, sua vida. Quando a graça divina não é concedida, a culpa nunca é do bispo, de Deus ou Jesus, mas do próprio cristão, que teve pouca fé e não se empenhou como deveria.
    O “milagre” encomendado terá atraso de acordo com o pagamento do cliente! Quanto maior a doação, maior a força da oração e pro pastor, maior a mansão.

    Como se redimir? Aumentando o ritmo das doações financeiras (o trizímo) a igreja, 10% para o Pai, 10% para o Filho e 10% para o Espírito Santo, como prova a Deus, é claro.
    Duas vezes por ano, é organizada a Fogueira Santa de Israel. Trata-se de uma campanha, para estimular as pessoas a fazerem doações altíssimas, em bens materiais como, jóias, carros e até imóveis, para mostrar a Deus que aceitam se sacrificar pela igreja. Suas ramificações no Brasil: Assembléia de Deus, Evangelho Quadrangular, o Brasil para Cristo e Congregação Cristã no Brasil entre outras.

    Produtos milagrosos legitimados e vendidos pela Organização Brasileira de Lavagem Cerebral:

    Sal que tira vício – Só não tira o vício de ir à IURD

    Rosa Milagrosa – Milagre é uma flor ser vendida a R$50

    Lenços Molhados no Vinho Curativo – Também conhecido como KiSuco

    Oléo Ungido de Jerusalém – Além de ser um pleonasmo e o nome divino concedido ao Óleo composto Maria® (85% soja + 15% azeite de 3ª).

    Água Benta do Rio Jordão – Também conhecida como água da Embasa®

    iBíblia – (Slogan: agora você pode ouvir Edir em qualquer lugar e a qualquer hora, não só na madrugada da Record!) Uma invenção entre Jobs e Macedo, para os dois conquistarem o mundo juntos!

    Pedras da Tumba de Jesus – Abundantes nas mineradoras da Votorantim.

    Trombeta para derrubar a muralha de Jericó – Corneta de plástico comum em torcidas de futebol nos estádios. Tambem conhecida como “vuvuzelas” Só que custa R$300.

    Leite da Teta de Maria – O original, disponível nas versões Integral, Desnatado e Light.

    Cajado de Moisés que tira água de pedra – Ideal para habitantes do Sertão Nordestino, mas também serve de apoio para os idosos da 5ª idade

    Maná: Pão sagrado enviado a Moisés – Pode ser encontrado em qualquer supermercado com embalagem “Seven Boys” ou “Pullman”
    Bola de Cristal do Profeta Isaías – Também comumente conhecida como bolinha de gude

    Terrenos no céu – Apenas com eles você pode garantir sua salvação nos céus aqui na Terra.

    Carnê Indulgências – Você pode pagar seus pecados em prestações R$1000 a vista ou em 10x de R$250 sem juros.

    Batismo —A criança é ungida com a Água do Rio Jordão tirada de um poço cavado nos fundos da casa do pastor. Com ela se tiram todos os encostos com os quais a pessoa vem carregada (encosto de cadeira, de sofá, de poltrona, etc.).

    Comunhão — É o mais importante de todos, consiste em o fiel fazer a comunhão de bens com a Igreja. Para realizar, o fiel não paga nada. Basta ir até o primeiro cartório que encontrar e passar todos os seus bens para o nome da Igreja.

    Unção dos Enfermos — Conhecida como “morre desgraçado!”, o fiel com o pé na cova, deve declarar no seu testamento que todos os seus bens serão doados para a Igreja Universal. Aí sim, ele é salvo.

    Exorcismo ou Purificação da alma:
    Nesta surra Neste ritual, o infeliz fiel se submete a uma Tortura física, social e psicológica série de procedimentos que se destinam a livrá-lo de tudo o que lembra o diabo, especialmente sua carteira e sua conta bancária, menos a sua sogra. Em geral, para convencer os outros da eficácia do exorcismo, os pais e familiares da vítima infeliz do endemoniado assistem a uma demonstração em que um falso possuído pelo capeta se comporta de maneira irracional como personagem de novela ou do Big Brother.

    Colaborou,
    Oiced Mocam
    “O inimigo público nº 1 do cristianismo no Brasil” Rsrsrsr….

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