“E se você estiver errado e deus existir?” – Aposta de Pascal

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Nós, nurse ateus, com frequência somos interpelados por teístas com a possibilidade de deus existir. “E se você estiver errado?”, perguntam eles. Em casos assim, normalmente dou uma resposta curta, de apenas uma frase, mas quero divagar um pouco mais sobre o tema aqui.

Essa pergunta vem, na verdade, da famosa “Aposta de Pascal”:

“Consideremos este ponto e digamos o seguinte: ‘Ou Deus existe ou não existe.’ Mas qual das alternativas devemos escolher? A razão não pode determinar nada: existe um infinito caos a nos dividir. No ponto extremo desta distância infinita, uma moeda está sendo girada e terminará por cair como cara ou coroa. Em que você aposta?”

– Blaise Pascal, Pensamentos (edição póstuma, 1844)

A lógica por trás dela é a seguinte:

  • Se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;
  • Se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;
  • Se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;
  • Se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.

Existem, pela web, diversas formas de refutar este argumento, uma delas no texto “A Aposta de Pascal”, do blog Ceticismo.net. Contudo, não vou me focar nas “refutações clássicas”. Me focarei no meu próprio raciocínio.

Antes de responder a pergunta, a primeira coisa que vem à minha mente quando ouço/leio tal pergunta é: “tá, mas que deus seria esse?”. Afinal, existem cerca de 10 mil deuses, aos quais pessoas seguem ainda hoje no mundo. Só no hinduísmo existem cerca de 330 milhões de divindades (que não são necessariamente deuses, claro). Em outras palavras, é uma falsa dicotomia.

Em outras palavras, acertar o deus “correto” (caso existisse, é claro) seria quase o mesmo que ganhar numa loteria. E o teísta, seja ele cristão, hindu, islâmico, judeu, etc., também não tem como ter qualquer garantia nisso. A única coisa que lhe dá alguma segurança é a mera fé – a qual é absolutamente cega, sem falar de toda a manipulação envolvida.

Mas, tudo bem, entremos no jogo proposto na pergunta e na aposta. Digamos que exista, de fato, o deus cristão. Aqui teríamos duas novas opções: a visão de que deus é onibenevolente (todo bondade), portanto a pessoa sendo boa, independente de fé, estará salva; e a visão de que a fé é necessária. Esta segunda posição, aliás, é aquela apresentada pela bíblia. Sendo a primeira, nem precisaria continuar, então considerarei a segunda opção daqui por diante.

Se formos pela bíblia precisamos, antes de mais nada, analisar o deus apresentado nela. E esse deus, principalmente o do velho testamento, não é nada bonito. Ele é genocida, pestilento, infanticida, homófobo, misógino, etc. Só no que diz relação às mortes no velho testamento já é um absurdo. Veja a comparação abaixo.

mortes biblia

Assim, se existir um deus e ele, por um mero acaso, for o deus cristão… Eu serei, democraticamente, de oposição. Pura e simplesmente. Porque não vejo esse deus como “justo” ou mesmo algo próximo de onibenevolente. Afinal, se o cara matou mais que o próprio diabo em “sua própria versão da história” (bíblia), imagine numa versão mais imparcial. Parece mais que a questão está invertida: o diabo seria o bom, não deus.

“Para vocês eu sou ateu. Para Deus, uma fiel oposição.”

— Woody Allen

E ficarei contente em ir para o inferno, até porque estarei em ótima companhia: Galileu Galilei, Charles Darwin, Albert Einstein, Carl Sagan, entre muitos outros, mais bandas como AC/DC, Iron Maiden, Led Zeppelin e tantas outras.

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Outra questão é sobre a própria natureza do paraíso. Não existe consenso nesse ponto, claro, mas o que se pode tirar da versão mais “popular”, digamos, o paraíso seria um tremendo tédio. Senão, vejamos:

  • Nele não se come. Afinal, os humanos conviveriam com animais de todo tipo, incluindo leões.
  • Nele o sexo simplesmente não existe.
  • Nele não há TV, computadores, internet ou o que quer que seja.

Então, se o paraíso realmente existe, as pessoas passam a eternidade fazendo… Nada. No tédio absoluto. Eu, pessoalmente, realmente prefiro o inferno a isso. Mas minha melhor opção é realmente que, ao morrer, acabe essa palhaçada toda. (Ter de conviver com tudo isso durante uma vida toda já é mais do que o suficiente.)

Mas há um outro ponto, que Pascal parece não ter pensado muito bem. Se deus não existe (e em minha visão é o caso) e você vive como se ele existisse… Você perderá toda sua vida, a única que você terá, se “resguardando”. Isto é, não aproveitando dos prazeres da vida. E aqui falo de todos aqueles “pecados capitais” tão deliciosos:

  • Gula, que pode ser visto como comer bem, com prazer
  • Luxuria, que é o sexo pelo prazer
  • Preguiça, afinal, nada melhor do que passar uma tarde deitado em frente à TV assistindo um bom filme, ou mesmo lendo
  • Vaidade, que é, acima de tudo, a autovalorização

E isso tudo por uma mera suposição, um chute extremamente longo, sobre o qual ninguém pode ter certeza, que é a de uma continuidade pós-morte. Pior: algo sobre o qual não existe qualquer evidência, ou mesmo o menor indício que seja.

Assim, a aposta de Pascal não é mais do que uma mera curiosidade, dentro da mitologia cristã. Algo sem a menor importância real para a vida de qualquer um – até porque fala apenas do pós-morte. É uma aposta que ninguém vencerá, até porque, para se saber o resultado, é preciso morrer primeiro. Portanto, é algo que nós, como espécie e sociedade, já poderíamos ter superado há muito tempo.

“Se, numa discussão, um dos muitos que gostariam de saber tudo, mas se recusam a aprender qualquer coisa, nos perguntar a respeito da continuação da vida após a morte, a resposta mais adequada e mais correta é: “Após a morte você será o que era antes de nascer.”

— Arthur Schopenhauer

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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2 Comments

  1. Otimo texto! Eh a mesma opiniao que tenho quando me questionam isso 😀

    E olha que cheguei a essa conclusao sem precisar ler nenhum livro de autor ateu ou coisa do tipo. Acho que qualquer um que saiba usar a razao e logica consegue chegar nessa conclusao.

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  2. Olá,
    Texto muito bem escrito, com argumentos louváveis.
    Uma, entre tantas, questão apenas: O Deus do antigo testamento da Bíblia não tinha sido revelado plenamente, ou melhor, quem escreveu o texto antigo do Deus “matador” não tinha a plenitude do conhecimento de Deus. Se você dar uma olhada no novo testamento, aí sim terá a Revelação Plena de quem é Deus, e que ele existe, pois o próprio Deus (na pessoa de filho) veio ao mundo e participou da nossa vida. Esse Deus retratado no novo testamento tem uma imagem diferente da retratada no Antigo testamento. Veja, o povo do Antigo Testamento (judeus) não tinham a revelação plena de Deus, o viam como através de uma cortina de fumaça (Arthur Schopenhauer trabalho como o nome de véu de Maia, confira depois). Então, a prova que Deus existe foi dada por Jesus, Ele revelou como Deus realmente O é. Basta ver os relatos de quem conviveu com Ele (novo testamento). Nós que não convivemos com Jesus, cremos nas palavras e testemunhos de quem viveu.

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