Entrevista: Douglas Adams

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Postado originalmente no blog Metropolis.


Fonte: Sociedade da Terra Redonda

Entrevista por: David Silverman

Tradução: Gabriel de Castro Fonseca


Para os raros leitores que ainda não sabem tudo sobre ele, find Douglas Adams é o criador de várias manifestações do The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy [O Guia do Mochileiro das Galáxias], here que inclui uma série de rádio, ambulance de TV, uma peça de teatro, álbum de figuras, um jogo de computador, uma série de best-sellers em muitos países, um conjunto de romances ilustrados e uma toalha de banho.

Em uma carreira longa e variada, Adams também escreveu os romances Dirk Gently [Apunhale com Gentileza]; um livro de não-ficção, Last Chance to See [A Última Chance de Ver], sobre espécies ameaçadas; trabalhou como limpador de galinhas, guarda costas de uma família real árabe e tocou guitarra para o Pink Floyd. Ele é brilhante, ele é sarcástico, ele é ateísta e ele tem muito do que falar sobre Ateísmo, Agnosticismo e religião.

A vida, o universo e tudo mais

AMERICAN ATHEISTS: Sr. Adams, você tem sido descrito como um “ateu radical”. Essa definição é precisa?

DNA: Sim. Eu acho que uso o termo radical mais livremente, mas só para enfatizar. Se você se descreve como um “ateu”, algumas pessoas falam, “Você não quer dizer agnóstico?”, e tenho que responder que quero dizer ateu mesmo. Eu realmente não acredito que exista um deus – na verdade eu estou convencido de que não existe um deus (uma diferença sutil). Eu não vejo nenhum traço de evidência que sugira que exista algum. É mais fácil falar que sou um ateu radical, apenas para destacar que é isso mesmo que quero dizer; já pensei muito, e essa é uma opinião que eu mantenho seriamente. É engraçado o quanto as pessoas ficam genuinamente surpresas ao ouvir uma opinião expressada com tanta força. Na Inglaterra nós parecemos ter sido arrastados de um tolo e vago Anglicanismo para um vago e tolo Agnosticismo – acho que ambos revelam um desejo de não se querer pensar muito sobre o assunto.

As pessoas geralmente vão dizer “Mas certamente não é melhor permanecer agnóstico para se garantir?” Para mim isto sugere um grau de tolice tão alto e tanta confusão que eu prefiro me afastar da discussão antes de ser sugado por ela. (Se revelarem que eu estive errado por todo esse tempo, e existe mesmo um deus, e depois ele mostrar que esse tipo de legitimidade cruze-os-dedos-por-trás-das-costas, sutilmente clintoniana, o impressiona, então eu acho que eu optaria por não louvá-lo mesmo assim).

Outras pessoas vão perguntar como eu posso alegar ter certeza. Acreditar-que-não-existe-um-deus não é tão irracional, arrogante, etc., quanto acreditar-que-existe-um-deus? Ao que eu digo não por algumas razões. Primeiro que eu não acredito-que-não-existe-um-deus. Eu não vejo o que acreditar tem a ver com isso. Eu acredito ou não acredito em minha filha de quatro anos quando ela me diz que não fez aquela bagunça no chão. Eu acredito em justiça e em honestidade (embora eu não saiba exatamente como nós as alcançamos, a não ser por tentativa e erro contra todas as dificuldades de sucesso). Eu também acredito que a Inglaterra deveria entrar na Zona do Euro. Eu não entendo o bastante de economia para discutir esse assunto vigorosamente contra alguém que entenda, mas o pouco que sei, reforçado com alguma convicção corajosa, me sugere fortemente que esse é o caminho certo. Eu poderia estar errado facilmente, sei disso. Estes me parecem ser os usos corretos para a palavra acreditar. Como uma carapaça para proteger idéias irracionais de questionamentos legítimos, entretanto, acho que essa palavra tem causado muitos problemas. Então eu não acredito-que-deus-não-existe. No entanto, estou convencido de que deus não existe, o que é uma coisa totalmente diferente e que me leva à segunda razão.

Eu não concordo com esta afirmação atualmente em moda de que todo ponto de vista é automaticamente tão merecedor de respeito quanto o ponto de vista oposto. Minha visão é de que a Lua é feita de rochas. Se alguém me diz “Bem, você nunca esteve lá, esteve? Você nunca esteve lá para ver, então minha opinião de que ela é feita de queijo norueguês é igualmente válida” – nesses casos eu nem me incomodo em discutir. Existe uma coisa chamada ônus da prova, e no caso de Deus, assim como no caso da composição da Lua, uma coisa mudou radicalmente. Deus costumava ser a melhor explicação que tínhamos, mas agora arranjamos outras muito melhores. Deus não é explicação de mais nada, em vez disso se tornou algo que precisaria de uma incalculável quantidade de explicações para se sustentar. Então eu não acho que estar convencido que Deus não existe é um ponto de vista tão irracional e arrogante quanto acreditar que Ele existe. Eu não acho que o assunto requeira qualquer imparcialidade.

AMERICAN ATHEISTS: Há quanto tempo você é descrente, e o que te levou a sê-lo?

DNA: Bem, é uma história bastante banal. Quando eu era adolescente eu era um cristão leal. Aquilo estava dentro de mim. Na verdade eu costumava trabalhar para a escola da igreja. Então, um dia, quando tinha uns dezoito anos, eu estava andando quando vi um evangélico pregando na rua e, respeitosamente, parei para ouvir. Á medida que eu ouvia, começou a se espalhar em mim a idéia de que o que ele dizia não fazia nenhum sentido, e que eu deveria refletir um pouco um pouco sobre aquilo.

Eu coloquei as coisas meio superficialmente. Quando eu falo que o que ele dizia não fazia sentido, o que eu quero dizer é o seguinte: Nos anos que eu passei estudando História, Física, Latim e Matemática, eu aprendi (do jeito mais difícil) algumas coisas sobre regras de debate, ônus da prova, regras de lógica, etc. De fato estivemos aprendendo como perceber os diferentes tipos de falácias lógicas, e de repente ficou claro para mim que essas regras simplesmente não pareciam se aplicar à religião. Na educação religiosa nos pedem para ouvir respeitosamente a argumentos que, se fossem usados como suporte para algo como, digamos, por que as Leis dos Grãos vieram a ser abolidas quando foram, seriam ridicularizados como ingênuos e infantis e – em termos de lógica e prova – claramente incorretos. Por que isto?

Bem, a História, mesmo com o entendimento dos eventos e das causas e efeitos, é uma questão de interpretação, e mesmo a interpretação é em muitos casos uma questão de opinião, todavia essas opiniões e interpretações são afiadas para sobreviverem ao fogo cruzado devastador da argumentação e contra-argumentação, e aquelas que resistem são então submetidas a uma nova série de desafios dos fatos e da lógica da geração seguinte de historiadores – e por aí vai. Todas as opiniões são diferentes. Algumas são muito boas, mais robustas, sofisticadas e melhor sustentadas de lógica e argumentos que outras.

Então, eu já estava acostumado a (receio) aceitar a idéia de que não se poderia aplicar a lógica da Física à religião, que elas estavam lidando com tipos diferentes de “verdade”. (Agora eu acho que isso é conversa fiada, mas continuando…) O que me impressionou, entretanto, foi perceber quanto os argumentos em favor das idéias religiosas eram tão frágeis e tolos perto dos argumentos robustos e um tanto interpretativos e optativos da História. De fato eles eram embaraçosamente infantis. Eles nunca eram submetidos ao tipo de desafio que era a moeda comum em qualquer outra área do empreendimento intelectual, qualquer que seja. Por que não? Porque eles não resistiriam a ele. Então eu me tornei agnóstico. E eu pensei, pensei e pensei. Mas eu simplesmente não tinha o suficiente para ir além, então não tomei nenhuma decisão. Tinha sérias dúvidas sobre a idéia de Deus, mas não sabia o suficiente para ter um bom modelo alternativo para explicar, bem, a vida, o universo e tudo mais, para por no seu lugar. Mas eu continuei nisso, continuei lendo e continuei refletindo. Em algum momento, por volta de meus trinta anos, eu tropecei na biologia evolucionária, particularmente nos livros de Richard Dawkins O Gene Egoísta e, depois, O Relojoeiro Cego; de repente (acho que enquanto relia O Gene Egoísta) tudo começou a fazer sentido. Era uma concepção tão assombrosamente simples, mas ela explicava, naturalmente, toda a infinita e desconcertante complexidade da vida. A admiração que isso inspirou em mim fez a admiração que as pessoas falam a respeito das suas experiências religiosas parecer, francamente, tolas se comparada. Eu sempre preferiria a admiração do conhecimento à admiração da ignorância.

AMERICAN ATHEISTS: Você alude ao seu ateísmo para os seus fãs no seu discurso (“…aquele foi um dos poucos momentos em que eu realmente acreditei em Deus”). O seu ateísmo é de conhecimento comum entre seus fãs, amigos e colegas de trabalho? Muitas pessoas dentro de seu círculo de amigos e colegas de trabalho são atéias também?

DNA: Está pergunta é ligeiramente intrigante para mim, e eu acho que há uma diferença cultural envolvida. Na Inglaterra não há nada demais em ser ateu. Há apenas uma pontinha de desconforto com as pessoas que expressam um ponto de vista particular tão fortemente, quando uma visão mais moderada poderia ser vista como mais adequada – daí uma preferência pelo Agnosticismo sobre o Ateísmo. E fazer a passagem do Agnosticismo para o Ateísmo demanda, eu acho, muito mais dedicação ao esforço intelectual do que a maioria das pessoas está disposta a empregar. Mas isso não é grande coisa. Uma parte das pessoas que conheço e encontro são cientistas, e nesses círculos o Ateísmo é a regra. Eu diria que a maioria das pessoas que conheço, entretanto, é agnóstica, e uns poucos são ateus. Se estivesse procurando entre meus amigos, familiares e colegas, por pessoas que acreditassem em Deus, eu provavelmente procuraria entre os mais velhos e (para ser bastante sincero) entre os menos educados. Há uma ou duas exceções. (Eu quase coloquei, por hábito, “exceções honrosas”, mas não é o que penso, de fato).

AMERICAN ATHEISTS: Com que freqüência seus fãs, amigos ou colegas de trabalho tentaram “salvar” você do Ateísmo?

DNA: Absolutamente nunca. Nós simplesmente não temos esse tipo de fundamentalismo na Inglaterra. Bom, talvez isso não seja completamente verdade. Mas (e eu vou ser terrivelmente arrogante aqui) eu acho que eu tendo a evitar esse tipo de gente, assim como tendo a evitar pessoas que assistem novelas de dia ou que lêem National Enquirer. E como você geralmente reage? Eu não iria me importar.

AMERICAN ATHEISTS: Você já enfrentou algum obstáculo na sua vida pessoal por causa de seu ateísmo (intolerância contra os ateístas), e como você lidou com isso? Com que freqüência isso acontece?

DNA: Nunca. É uma idéia inconcebível.

AMERICAN ATHEISTS: Existem algumas referências despreocupadas a Deus e à religião em seus livros (“… 2000 anos depois de um cara ter sido pregado numa árvore”). Como o ateísmo influenciou seu modo de escrever? Onde (em que personagens e em que situações) seus pensamentos pessoais sobre religião estão refletidos mais precisamente?

DNA: Eu sou fascinado pela religião. (Isso é completamente diferente de acreditar nela!) Ela sempre teve um efeito tão incalculavelmente vasto na vida humana. O que é? O que representa? Por que nós a inventamos? Como ela continua existindo? O que vai acontecer com ela? Eu adoro ficar mexendo com esse assunto. Eu pensei tanto sobre isso ao longo dos anos que essa fascinação transborda em meu modo de escrever.

AMERICAN ATHEISTS: Que mensagem você gostaria de passar aos seus fãs ateístas?

DNA: Olá! Como vão vocês?


  • Douglas Adams faleceu em 2001. Esta entrevista foi publicada postumamente em seu livro The Salmon of Doubt.
  • Original em American Atheists
  • Ilustração: Banco de imagens do Google

Postado originalmente no blog Metropolis.

Entrevista: Douglas Adams, 10.0 out of 10 based on 1 rating

Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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4 Comments

  1. Caro tradutor

    Bom trabalho, e bom texto. Mas o nome Dirk Gently não deve ser traduzido como apunhalar suavemente. Nada a ver. Dirk é um nome próprio em inglês, comun mas infreqüente. Sua etimologia é uma derivação de “Derek”, que por sua vez é uma derivação do germânico Teodoric.

    Bem, de todo modo, acho que o autor escolheu o nome por soar meio ridículo, como “Ford Prefect” ou “Zaphod Beblebrox” 😉

    Ps. Existe um punhal celta chamado dirk, mas esse é um termo local e extremamente obscuro. Se vc já jogou D&D já viu halberd, crossbow, morning star, two-handed axe e dagger. Mas nunca viu dirk como arma. E alem disso, não é verbo.

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    • Olá, Ricardo!

      Não fui eu quem traduziu, já é uma tradução antiga, da época da STR. Apenas a repostei. 😉

      Abraço!

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  2. gostei da entrevista, vou buscar conhecer o trabalho do autor, parabens pelo seu trabalho, eu sou teista, porem gosto do trabalho de qualidade de varios grupos ateus, a maneira como vcs se expressão é convincente, aprendo muito com isso e sou muito grato a profissionais como vc.

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    • Agradecemos, Eduardo!

      A ideia do Livres Pensadores é esta mesmo, postar material de melhor qualidade possível sobre ciência, ceticismo, filosofia, ateísmo e vários outros.

      Nos temos posts sobre destruir as religiões, mas isto significa apenas destruir o poder das religiões em criar mais fundamentalistas. Ainda assim, mesmo que as religiões acabem, as crenças pessoais, que são de cada um, poderão continuar. Saca?

      A ideia por traz de tudo isto é apenas criar uma sociedade mais pacífica, onde as pessoas tenham menos coisas pelas quais matariam (ideologias – sejam religiosas ou não). 😉

      Abraços!

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