Humanos de barro: porque o criacionismo ainda existe

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A crença no criacionismo é algo engraçado: não faz o menor sentido lógico, sickness principalmente perante a realidade, viagra mas ainda assim muitos insistem nessa crença. O que o criacionismo afirma, viagra então, é mais engraçado ainda: a literalidade bíblica não como mera interpretação de textos, mas como “fato histórico”. Isso faz com que eu me pergunte: essas pessoas realmente leram tal livro?

Pessoas feitas de barro, cobras falantes, dia e noite criados antes do próprio Sol e aberrações do tipo não faltam no Gênesis, o primeiro livro bíblico. Seu texto, embora belo e chegando a ser poético, é extremamente infantil. E esse livro não detém o monopólio da baboseira bíblica: coisas assim estão espalhadas por toda ela. Ou seja, a bíblia não tem nada de “científico”, como alguns teólogos gostam de afirmar, quanto mais poderia ter de histórico.

terra segundo a biblia

Para ilustrar, vejamos um pequeno trecho, seu início (Gênesis 1).

1. No princípio Deus criou os céus e a terra.

2. Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

 3. Disse Deus: “Haja luz”, e houve luz.

 4. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas.

 5. Deus chamou à luz dia, e às trevas chamou noite. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o primeiro dia.

 6. Depois disse Deus: “Haja entre as águas um firmamento que separe águas de águas”.

 7. Então Deus fez o firmamento e separou as águas que ficaram abaixo do firmamento das que ficaram por cima. E assim foi.

8. Ao firmamento Deus chamou céu. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o segundo dia.

– Gênesis 1:1-8

Quer dizer, o céu também é água (6 e 7). (?!) E deus teria feito a luz (3), o dia e a noite (4 e 5), antes mesmo de criar o Sol, a Lua e todas as demais estrelas, o que só acontece itens após (de 16 a 18).

16. Deus fez os dois grandes luminares: o maior para governar o dia e o menor para governar a noite; fez também as estrelas.

 17. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra,

 18. governar o dia e a noite, e separar a luz das trevas. E Deus viu que ficou bom.

– Gênesis 1:16-18

collage

Lembra da história da cobra falante? Pois é, ela também está em Gênesis. Se você quer saber o ponto exato, ela aparece em Gênesis 3. Veja abaixo.

1. Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à mulher: “Foi isto mesmo que Deus disse: ‘Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim’? “

2. Respondeu a mulher à serpente: “Podemos comer do fruto das árvores do jardim,

3. mas Deus disse: ‘Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’ “.

4. Disse a serpente à mulher: “Certamente não morrerão!

5. Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal”.

– Gênesis 3:1-5

cobra falante

Há ainda, pasmem, uma jumenta que fala. E não estou falando da Rachel Sheherazade, jornalista do SBT: falo de uma jumenta de verdade, do animal, a fêmea do jumento, acho, pois essa não é minha especialidade. O trecho que apresenta mais essa lorota está em Números 22. Veja abaixo.

28. Então o Senhor abriu a boca da jumenta, e ela disse a Balaão: “Que foi que eu lhe fiz, para você bater em mim três vezes? “

29. Balaão respondeu à jumenta: “Você me fez de tolo! Quem dera eu tivesse uma espada na mão; eu a mataria agora mesmo”.

30. Mas a jumenta disse a Balaão: “Não sou sua jumenta, que você sempre montou até o dia de hoje? Tenho eu o costume de fazer isso com você? ” “Não”, disse ele.

– Números 22:28-30

jumenta falante

Então por que, afinal de contas, tanta gente leva esse livro tão a sério? Por que diabos as pessoas não conseguem enxergar o absurdo de tudo isso? O que seria capaz de cegar tanto as pessoas, ao ponto de não conseguirem enxergar o que está diante de seus narizes? Bem, a resposta para essas pergunta é complexa e envolve diversas coisas diferentes, as quais, tentarei expor abaixo.

Dogmatismo – Os dogmas, como já expliquei em outro texto (leia aqui), limitam o pensamento, dizendo até onde ele pode ir ou não. É por isso que pessoas dogmáticas se tornam incapazes de abandonar suas crenças, por mais que elas percebam que essas crenças estão erradas.

Paixão ao que se crê – O ser humano tem uma característica interessante, que é o de se apaixonar por ideias. Um ótimo exemplo disso são as ideologias, às quais as pessoas se apegam abandonando até mesmo sua racionalidade e que muitas vezes se tornam tão dogmáticas quanto pessoas religiosas. Ou seja, as pessoas se prendem a esse sentimento acreditando que, já que ele é real, o motivo que o gerou (o sobrenatural – aquilo em que se crê, enfim) também o seja.

Aqui cabe uma explicação. É que isso é tão natural, que nós, ateus, também temos isso: nos apaixonamos pelo conhecimento. Essa nossa paixão só não nos torna dogmáticos devido a certas coisas que são inerentes ao próprio conhecimento, como é o ceticismo. Contudo, esse ceticismo não existe em religiões ou ideologias.

Esse sentimento é real e pode ser detectado até mesmo em tomografia por emissão de pósitrons (PET Scan). Esse exame, quando aplicado ao cérebro, demonstra as áreas mais ativas, indicando sentimentos, uso da razão, etc.

Imagem PET de um cérebro humano.

Imagem PET de um cérebro humano.

A força da tradição – A crença nessas coisas não é algo que nasce junto à pessoa, mas é ensinada por seus pais de avós. E a tradição é algo importante para as pessoas, elas não querem quebrar, principalmente quando é uma tradição familiar (como acaba sendo o caso). Assim, por mais que muitas vezes a pessoa sequer acredite naquilo, segue sua vida afirmando acreditar apenas como respeito a seus familiares.

Aqui cabe um exemplo: se pegássemos dois recém nascidos, um filho de um casal cristão e outro filho de um casal islâmico e os trocássemos, eles cresceriam tendo a crença de seus pais adotivos. (Por favor, não façam isso, é só um exemplo.) Afinal, seria a crença que eles conheceriam.

Isso tudo seve exatamente como uma venda, que cobre os olhos da pessoa. Ela se torna, realmente, incapaz de enxergar a realidade e de perceber que suas crenças estão erradas, por mais que isso seja mostrado a ela. Mais que isso, a pessoa não quer tirar essa venda, pois ela de fato se apaixona por ela. Não porque a realidade seja muito dura para ser suportada (até porque não é tanto assim), mas devido a essa paixão mesmo. E isso não se quebra fácil.

olho

Essa venda, contudo, deve ser removida. Não de pessoas individuais, até porque isso é extremamente difícil, mas da sociedade como um todo. E isso é plenamente possível: basta que ensinemos aos jovens, não a ver a realidade como nós vemos, mas a enxergar a realidade e a decidir a respeito dela por si mesmos.

Isso porque, como acontece com todo ser humano, esses vendados envelhecerão e, um dia, morrerão. E, se fizermos isso, isto é, se ensinarmos os jovens, esses que morrerem levarão consigo toda essa irracionalidade para o túmulo.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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5 Comments

  1. Tudo que foi citado no texto mais doses massivas de teimosia por parte das pessoas e a Bíblia continua firme e forte como a mais eficaz e rentável ferramenta de exploração da fé alheia. Vai tentar explicar que barro é derivado de silício e seres vivos como nós são compostos por carbono….mas pra Deus “tudo é possível”.

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  2. a fé no texto bíblico é por vezes, e cada dia que passa, menos, uma forma de descanso ou fuga, diante do inexplicável, se hoje, com toda a forma de comunicação diante da mesma imagem, diante dos mesmos fatos, acabamos por ver o mesmo de tantas formas diferentes, imaginem numa época tão cheia de folclores e mistérios, e, principalmente agnosticismo. Se hoje com todos os meios de buscarmos esclarecimentos, acreditamos numa pá de malas, que sobem na pedra e fazem belos discursos e depois nos comem pela perna.

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  3. Me diz, um site como esse cometer um erro de grafia tão , tão, básico?? sega, errado. Cega!

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    • Obrigado pela correção, Denise! 🙂

      Problema resolvido!

      Abraços!

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  4. É bobagem argumentar sobre a falta de lógica do criacionismo. Se é fé, só pode ser ilógica. O mais interessante na discussão do porque o criacionismo ainda existir seria ver aonde o ateísmo, ceticismo, secularismo, etc, falham no acolhimento humano. O filósofo Allain de Botton explorou bem o assunto em sua palestra no TED “Ateísmo 2.0”.

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