Livre Pensamento vs. Religiões

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Muita gente confunde o nome/expressão “livre pensamento” com religiosidade e/ou crença em deidades. Aconteceu diversas vezes de pessoas entrarem nas páginas do Livres Pensadores e da Organização Livres Pensadores no Facebook e reclamar de “estarmos usando o nome livres pensadores para criticar NOSSO deus e a SANTA AMADA igreja”. (Escrevi em maiúsculas por ser assim que tais pessoas escreviam).

Mas este é um erro mais do que comum. Afinal, quem não viu Rachel Sheherazade, nem que por vídeos no Youtube, alegando que os ideais de liberdade viriam do cristianismo? O ponto é que tais ideais vieram da Revolução Francesa, não do cristianismo: Liberté, Egalité, Fraternité, ou la mort! (Liberdade, Igualdade, Fraternidade ou morte!) foram justamente o lema desta revolução.

A Liberdade Guiando o Povo, por Eugène Delacroix.

A Liberdade Guiando o Povo, por Eugène Delacroix.

O livre pensamento nasceu exatamente do mesmo movimento (ou ao mesmo tempo dele) que gerou, depois, a Revolução Francesa: o iluminismo. Este foi um movimento cultural da elite de intelectuais do século XVIII na Europa, que promoveu o intercâmbio intelectual e foi contra a intolerância e os abusos da Igreja e do Estado. Assim, não poderiam haver coisas mais contrárias do que a religião e o livre pensamento.

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Mas há mais do que argumentos históricos para demonstrar esta oposição: temos a lógica. O ponto é que as religiões impõem às pessoas uma forma pronta, pasteurizada, de pensar, a qual é apresentada na forma de livros sagrados (Bíblia, Torá, Alcorão, etc.), dogmas (da castidade, de ser contra a homossexualidade, o da submissão das mulheres, etc.) e de todo o tipo de mandamento criado por elas.

O próprio fato de haver uma única pessoa (o Papa, no caso da ICAR) para fazer a “ligação a deus” já garante a ideia do pensamento único. (Não se esqueça que o papa é dito infalível.) Os dogmas, que são históricos de cada religião, garantem que esse pensamento seja, além de único, imutável. Ou seja, é a melhor forma de garantir que exista uma única verdade fundamental e imutável, à qual todos os seguidores daquela religião estarão submetidos.

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A própria estrutura religiosa, que apresenta um clérigo que fala e uma multidão que apenas ouve, sem a permissão de questionar ou discordar, é outro fator que garante o pensamento único e imutável. Esta estrutura é a garantia contra qualquer tipo de debate de ideias, o qual poderia garantir sua evolução no tempo e, assim, a possibilidade de que se encontre ideias melhores.

Exatamente por isso tudo o livre pensamento é absolutamente contra que se sigam ideias por mera tradição, a imposição de qualquer autoridade inquestionável e o estabelecimento de qualquer dogma. É a garantia básica para que debates possam existir, assim como de que as diferenças possam ser aceitas, por mais que se discorde delas.

Amor Perfeito: flor-símbolo do livre pensamento.

Amor Perfeito: flor-símbolo do livre pensamento.

É por isso tudo, também, que o livre pensamento exige diversas outras liberdades, sendo a principal delas a liberdade de expressão. Isso para todos, incluindo aqueles que falem as piores asneiras possíveis. Calar alguém é, em suma, castrar ideias que, se debatidas, poderiam nos levar a lugares melhores.

“Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.”

— Evelyn Beatrice Hall

Outra exigência do livre pensamento é a de que não se possa “respeitar” ideias, caso contrário correríamos novamente o risco de cair num pensamento único e imutável. Ideias têm de ser debatidas, analisadas e reanalisadas, refutadas, argumentadas, defendidas e combatidas. Esse é seu papel, caso contrário jamais poderão ser testadas para avaliar sua correção ou erro.

“Idéias não foram feitas para serem ‘respeitadas’. Idéias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos.”

— Idelber Avelar

A ciência, que foi moldada nos mesmos ideias, funciona da mesma forma. Como já disse Sagan:

“Existem muitas hipóteses na ciência que são erradas. Isso é perfeitamente correto; elas são a abertura para descobrir o que é certo. A ciência é um processo autocorretivo. Para serem aceitas, novas ideias devem sobreviver aos mais rigorosos padrões de evidência e escrutínio.”

— Carl Sagan

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É exatamente por tudo isto que não se pode tolerar qualquer tentativa de castração da liberdade de expressão. Castrando-se a liberdade de expressão, a liberdade de pensamento também é castrada, mesmo que indiretamente.

O livre pensamento, por sustentar que as explicações a todos os fenômenos e todas as coisas devem ser formadas a partir da ciência, da lógica e da razão, é contra todo tipo de pseudociência e teoria da conspiração. O motivo disto é que, para que algo seja aceito como verdadeiro, é necessário que evidências sejam apresentadas. Caso contrário, deveríamos então passar a aceitar que ETs nos visitam e que o Pé Grande é real, mesmo que não exista a menor evidência disto.

Assim, o livre pensamento não é, necessariamente, contra a crença em deidades. Tanto é verdade que deístas também são tidos como livres pensadores. Afinal, o deísmo nada mais é que uma postura filosófica que admite a existência de um deus criador, mas que não nega a realidade de um mundo completamente regido pelas leis naturais e científicas sem interferência divina. Isto inclui, por óbvio, os agnósticos também. Quanto a ser contra ou não a crença em divindades, vai de cada livre pensador – e normalmente é assim que os ateus (ou ao menos alguns ateus) pensam.

Portanto, o problema do livre pensamento não é com crenças, mas com a tentativa impor crenças e formas únicas de pensar às demais pessoas. Isto inclui não só a religião, mas também as pseudociências. Quer dizer, não importa que você acredite em X ou Y, apenas não tente impor suas crenças às demais pessoas: deixe-as pensar por si mesmas, analisar os argumentos e possíveis evidências para, depois, concluir algo. O que é exatamente o contrário que as religiões fazem: “aceite e cale a boca, ou será excomungado”.

Isso tudo é que é o livre pensamento e é, por óbvio, isso tudo que o movimento defende. Não é ser contra pessoas por suas crenças ou por seguirem religiões, mas é ser contra o pensamento único e imutável, contra a imposição de crenças e toda a intolerância ao diferente que isto gera. O livre pensamento não é, nem nunca será, religiosidade ou submissão à religiosidade.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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4 Comments

  1. Olá, Mário.

    Escrevi um texto sobre o mesmo tema, mas com um enfoque diferente. Sua opinião seria muito grata:

    http://porantim.wordpress.com/2013/03/07/religiosidade-e-livre-pensamento/

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    • Olá, Porantim. Tudo bem?

      Li seu texto, gostei, mas tem alguns erros nele. Primeiro sobre a Navalha de Occam: a hipótese mais simples (menos absurda, que exija menos condições muito restritas, etc) é que tenderá a ser a correta.

      Mas, hoje, isto serve apenas para a primeira avalização, ou para desconsiderar alegações extraordinárias mesmo. Porque o que manda são as evidências que se consegue, em experimentos, à favor da hipótese. Assim, por mais absurda que pareça, se tiver evidências suficientes… Será a correta. Entende?

      Segundo erro é quando você fala da religião do livre pensador: isso não existe. Para ser um livre pensador você obrigatoriamente não pode ter religião. Tem de ser ateu, deísta ou panteísta (além das misturas entre eles). Mas, claro, livre pensador pode ter fé sim, se for deísta.

      Abraços! 😉

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      • Oi, Mário. Valeu a dica.

        Eu não quis entrar em detalhes sobre a Navalha porque era só um exemplo.

        Sobre o segundo ponto, na verdade eu falei em religiosidade, fé.

        Bom saber que, então, concordamos.

        Grande abraço.

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        • Se você coloca assim, então perfeito. 😀

          Abraços!

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