Não, crentes não são burros

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Já vi muitos ateus dizendo que “crentes são burros”. Até entendo o porquê fazem isso. Afinal, alguns crentes acabam realmente passando essa impressão, de tão fundamentalistas e dogmáticos que são. Mas, garanto, nem sempre é o caso. O problema não é a falta de inteligência, mas sim o excesso de dogmas.

Dogmas nada mais são do que ideias às quais não se tolera o debate, pois são fixas, absolutamente imutáveis. Assim, quando, num debate, o assunto pelo menos tangencia o tema de um dogma que a pessoa segue, ela trava imediatamente. Ela não se permite pensar a respeito e passa apenas a cuspir trechos bíblicos, além dos próprios dogmas.

Apenas como exemplo, se o tema tem a ver com homoafetividade, tudo o que a pessoa conseguirá é cuspir trechos de Levítico (um dos livros da bíblia) ou coisas como “homossexualismo é pecado!” [sic]. Isto sem falar que o conceito de “pecado” é a pior coisa já inventada pela humanidade.

“Quando a igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle. Não tanto das almas, porque a igreja não importa nada com as almas. Um instrumento de controle dos corpos. Aquilo que perturba a igreja católica é o corpo. O corpo. O corpo com sua liberdade, o corpo com seus apetites, o corpo com suas ansiedades e é isto que perturba. Precisamos de deus, mas precisamos dele pra que? Quer dizer, nunca o vimos. Tudo aquilo que se diz que é dele foi escrito por pessoas.”

— José Saramago, http://www.youtube.com/watch?v=ihnAvfbX4Rk

O que quero dizer é que dogmas funcionam como um “limitador de desempenho” mental, digamos. É como o limitador de potência que colocam em motores de carros de certas categorias de corrida. Um exemplo mais conhecido no Brasil é o limitador usado na F1, que é ativado quando o carro entra no pit stop (para troca de pneus, por exemplo): a velocidade deve ser limitada a um máximo de 80 km/h (se não me engano).

É mais ou menos isso o que acontece. Os dogmas limita o pensamento, dizendo até onde ele pode ir ou não. É por isso que eles se tornam incapazes de entender paradoxos da crença, como o paradoxo do mal, por exemplo:

“Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então não é onipotente. É capaz, mas não deseja? Então é malevolente. É capaz e deseja? Então por que o mal existe? Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus?”

— Epicuro

Uma versão diferente seria o paradoxo da oração, que poderíamos resumir assim (adaptado das palavras do meu amigo de Facebook Gsine Beagá):

“Se deus tem um plano para mim, então pra que orar por mim? Para mudar o plano de Deus? Ou o plano de deus não é que eu faça as escolhas que fiz e ele não tem poder algum para me mudar se eu não quiser? Então cadê a onipotência? E o livre arbítrio?”

Pensar… Pensar é fundamental. E permitir que algo limite seu pensamento não pode ser algo saudável. O pensamento funciona de forma parecida com músculos: se parado, atrofia, e se colocado em movimento, ele cresce, se desenvolve. O interessante neste tema é que isto já foi demonstrado: um estudo da Universidade Duke revelou que a religião atrofia o cérebro.

Por isso mesmo esta citação faz tanto sentido:

“Reserve o seu direito a pensar, mesmo pensar errado é melhor do que não pensar.”

— Hipátia

Você, que lê este artigo, deve estar se perguntando se, então, “todos devem se tornar ateus”. Bem, confesso que, em meu “mundo ideal”, a resposta é sim. Mas na vida real isto não é necessário. Não é necessário que se abandone a crença, muitas vezes nem mesmo a religião, para que a pessoa possa se libertar dos dogmas e passar a pensar de forma um pouco mais livre. Prova disso é que nem todo cristão é homofóbico.

Até porque nem todo livre pensador é ateu (deístas e panteístas também podem ser livres pensadores) e nem todo ateu é um livre pensador. Digo isto, pois existem muitos ateus que, apesar de terem abandonado as crenças e as religiões, continuam se prendendo aos dogmas religiosos. Afinal, como disse Voltaire…

“É difícil libertar os tolos de correntes que eles veneram.”

— Voltaire

O importante é, sempre, buscar pensar mais e melhor. Buscar conhecer mais, ter mais e experiências para, assim, ter ideias melhores. Afinal, é só com uma visão mais ampla que podemos julgar melhor as coisas.

Ainda mais importante: pensar, seja o que for, não é pecado.

“Não consigo acreditar que o mesmo deus que nos deu inteligência, razão e bom senso nos proíba de usá-los.”

— Galileu Galilei

Portanto, tudo o que faz com que crentes muitas vezes se comportem como burros não passa de dogmatismo e, muitas vezes, uma boa dose de ignorância. Mas nenhuma das duas é sinal de burrice. Mais do que isto, tratar tais pessoas como meramente burras, como imbecis que não se quer ter por perto, não ajuda em nada: apenas cria mais segregação. Por isto mesmo gosto tanto da seguinte citação:

“Ensine um homem a utilizar a razão e ele pensará por toda a sua vida.”

— Phil Plait

P.S.: Só para deixar mais claro, não estou dizendo que não existam pessoas burras entre o grupo que for, apenas falo a respeito da generalização que se faz.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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2 Comments

  1. Concordo plenamente!

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  2. Resumindo: os crentes não são burros, eles só têm preguiça de pensar!

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