O apelo à autoridade nas religiões e pseudociências

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Há algum tempo atrás escrevi sobre o uso do apelo à ignorância em religiões e pseudociências, decease que é um dos “argumentos” que elas mais usam. Hoje, web quero falar de outro desses “argumentos”: o Apelo à Autoridade.

O funcionamento do apelo à autoridade é bastante simples: se uma pessoa que é considerada como “autoridade” afirma algo, logo isto é verdadeiro/válido. Isso se torna uma falácia exatamente porque ignora completamente o porquê da pessoa (a “autoridade”) ter afirmado aquilo.

Quer dizer, pouco importa os argumentos ou evidências que a “autoridade” tenha apresentado para suportar o que diz, ou a lógica que ela usou, etc. Quer dizer, a afirmação se torna válida (na cabeça de quem usa esse argumento, claro) simplesmente devido à possível credibilidade daquela “autoridade”.

Estou usando a palavra autoridade entre aspas porque, na verdade, não existem autoridades no sentido em que é usado por essa falácia. Pessoas não são infalíveis, pouco importa se falamos de um cientista ou de um clérigo.

“O brilhantismo intelectual não é garantia contra… estar errado.”

— Carl Sagan

Isso sem falar que, invariavelmente, as pessoas mentem. É verdade, algumas mentem mais e outras menos, mas, ainda assim, todas mentem. Pouco importa a idade, etnia, origem, se é rico ou pobre, etc.

“Todo mundo mente.”

– Dr. House, personagem principal da série “House, M.D.”

Esse “argumento” funciona, basicamente, das seguintes formas:

  1. O teólogo/ufólogo/cientista/sei lá X afirmou isso, portanto isso é verdadeiro.
  2. O teólogo/ufólogo/cientista/sei lá discordaria disso que você disse.
  3. A bíblia/torá/corão afirma isso, portanto é a palavra de deus e é a verdade.

Outra forma de uso do apelo à autoridade, essa bem menos intelectualmente honesta, é o uso distorcido, digamos, do que a dita “autoridade” disse. Um exemplo bem simples disso é o seguinte:

  • Einstein afirmou que deus não joga dados, logo deus existe.

Quando, na verdade, Einstein não falou absolutamente nada sobre deus: apenas disse que a natureza não é randômica, isso é, aleatória. Einstein, nesse caso, falava sobre o Princípio da Incerteza, de Werner Heisenberg, da Mecânica Quântica. Quer dizer, a pessoa que afirma isso distorce completamente o que Einstein realmente disse.

Einstein - to fora

Há, ainda, o apelo à própria autoridade. Esse é bastante fácil de identificar e, normalmente, é usado de três formas:

  1. Sou uma pessoa experiente, portanto você não deve me questionar.
  2. Sou dono de X/formado em Y/estudo isso por muitos anos/etc. Como você se atreve a discordar de mim?
  3. Você sabe com quem está falando?

Esse é o tipo de apelo à ignorância mais fácil de ser respondido. Para ele, basta que se indique o seguinte vídeo, de uma palestra do filósofo Mário Sérgio Cortella.

Há, por final, o apelo à autoridade anônima, que consiste em fazer afirmações sem apresentar quaisquer fontes. A única diferença ao apelo à autoridade “clássico” é que, nesse caso, apresenta informações falsas ou ao menos potencialmente falsas. Esse uso aparece basicamente nesse formato:

  • Especialistas/estudiosos/etc no assunto dizem que X, logo X é verdade.

Essa forma de apelo a autoridade é a mais fácil de se responder, porque, na verdade, não exige resposta alguma. Exige apenas perguntas:

  • Que especialistas/estudiosos?
  • Onde está o estudo/pesquisa científica feita a respeito?
  • Onde estão as fontes disso?

Uma das maiores vítimas do apelo à autoridade nas pseudociências e, às vezes, até nas religiões é Carl Sagan. Suas duas principais citações usadas, a primeira tanto para a ufologia quanto para a religião, a segunda apenas pela ufologia, são as seguintes:

“Ausência de evidência não é evidência de ausência.”

— Carl Sagan

E:

“Se nós estivermos sozinhos no Universo, com certeza seria um tremendo desperdício de espaço.”

– Carl Sagan, parafraseando Thomas Carlyle.

Carl Sagan - Me deixa em paz

O problema da primeira citação é que ela é má interpretada. Confundem o que foi dito mesmo. A questão é que, embora não se possa provar que algo não exista baseado na mera falta de evidências, pode-se perfeitamente afirmar a não existência desse algo com base nisso. O nome disso é simplesmente “bom senso”. Quer dizer, dragões invisíveis e incorpóreos não existem, ao menos até que se prove o contrário.

“O que pode ser afirmado sem provas também pode ser rejeitado sem provas.”

— Christopher Hitchens

Pior é que, quem usa tais citações dessa forma, simplesmente se esquecem de uma ainda mais importante, do mesmo autor:

“Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.”

— Carl Sagan

Outros exemplos do uso dessa falácia nas pseudociências são incontáveis. Na ufologia, por exemplo, diz-se que “tal ufólogo afirmou isso, então quem é você para questionar?”, ou “tal cientista disse que a vida extraterrestre existe, portanto isso é real e eles nos visitam”, ou ainda “os cientistas afirmam que o universo é infinito, logo é absurdo dizer que ETs não existem”. E por aí a coisa vai.

No caso da astrologia, apela-se para as palavras de astrólogos; no estudo do paranormal, apela-se para as palavras de teólogos, clérigos e, às vezes, até de cientistas; na pseudociência quântico-paranormal, idem; e assim por diante.

Nas religiões acontece a mesma coisa. Apela-se a palavras de teólogos, clérigos e, pasme, até mesmo de cientistas (como no caso de Einstein, que exemplifiquei acima). Isso tudo acontece porque, na verdade, tanto a fé religiosa quanto a fé pseudocientífica são a mesma coisa: meras crenças sem a menor base de justificação.

monkey-embarrassed

Assim, tal tipo de “argumento” não tem a menor validade. Quer dizer, não é porque Einstein, ou sei lá, a pessoa que você considere como a mais inteligente do mundo, afirmou algo que aquilo será, automaticamente, verdade. É nossa obrigação questionar a tudo e todos, aceitando apenas evidências, e espero ter podido demonstrar isso minimamente.

“Se não formos capazes de fazer perguntas céticas e de ser céticos com aqueles ocupando posições de autoridade, então estaremos à mercê deles.”

— Carl Sagan

Finalmente, se você crê em algo como deuses, anjos, santos, fadas ou duendes, ou mesmo quaisquer outras coisas paranormais… Não procure justificar isso ou impor a quem quer que seja. Mesmo textos antigos de livros, por mais sagrados que você os considere, não são prova de nada. São, no máximo, um guia que você pode seguir caso queira. Ter uma crença é um direito seu, mas é algo pessoal e deve ser tratado assim.

Medieval_ghost

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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One Comment

  1. PSEUDOCIÊNCIA – CHARLATANISMO
    ENTRE A RAZÃO E A FÉ

    Onde encontraremos as verdadeiras respostas para nossas dúvidas? No pensamento científico ou no ocultismo?

    Atualmente a grande diversidade de informações que chega até as pessoas através de jornais, revistas, editoras, rádios, televisão, produtoras de filmes e outros órgãos afins, levam-nas a se questionarem mais e buscarem respostas para perguntas que a educação científica que recebem não pode esclarecer, por isso a busca de pseudociências. O Brasil é o país mais supersticioso do mundo! Essa busca tem como conseqüência à crise que a sociedade está vivendo: o crescimento acelerado das ciências ocultas.

    Por desconfortos psicológicos as pessoas estão entregando seu futuro nas mãos de astrólogos, parapsicólogos e videntes. Mas, a ciência não aceita de forma alguma que interações ocultas possam influenciar no destino dos humanos, pois, hoje, a ciência consegue explicar fenômenos, os quais não conseguiam explicar séculos atrás, como por exemplo, a influência de corpos celestes em fenômenos terrestres.
    Os fatos também mostram que as divindades e os demônios mudam com o passar do tempo, mas a incoerência continua a mesma. Em outras palavras, a humanidade continua dizendo e acreditando em besteiras tal como faziam os trogloditas. Os motivos que levam a acreditar no sobrenatural, em divindades e demônios são muitos e variam de pessoa para pessoa. Os principais são a ignorância, o medo, a necessidade e os interesses. Eles podem deixar a pessoa em um estado que dificulta a percepção da realidade e que propicia a aceitação de incoerências.
    O culto ao sobrenatural cria uma barreira à percepção da realidade, pois as pessoas tendem a rejeitar outras possibilidades causais para os fenômenos cujas origens ainda são desconhecidas. Em outras palavras, o condicionamento cultural pode atrapalhar o próprio desenvolvimento cultural.

    PSEUDOCIÊNCIA

    Uma pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada em fatos científicos, ou mesmo como tendo um alto padrão de conhecimento, mas que não resulta da aplicação de métodos científicos.

    Motivações para a defesa ou promoção de uma pseudociência variam de um simples desconhecimento acerca da natureza da ciência ou do método científico, a uma estratégia deliberada para obter benefícios financeiros, filosóficos ou de outra natureza. Algumas pessoas consideram algumas ou todas as formas de pseudociências como um entretenimento sem riscos. Outros, como Richard Dawkins, consideram TODAS AS FORMAS de pseudociência PERIGOSAS, independentemente de estas resultarem ou não em danos imediatos para os seus seguidores.

    Tipicamente, as PSEUDOCIÊNCIAS FALHAM ao não adotar os critérios da ciência em geral (incluindo o método científico), e podem ser identificadas por uma combinação de uma destas características:

    Ao aceitar verdades sem o suporte de uma evidência experimental;
    Ao aceitar verdades que contradizem resultados experimentais estabelecidos;
    Por deixar de fornecer uma possibilidade experimental de reproduzir os seus resultados;
    Ao aceitar verdades que violam falseabilidade;
    Por violar a Razão de Occam (o princípio da escolha da explicação mais simples quando múltiplas explicações viáveis são possíveis); quanto pior for a escolha, maior será a possibilidade de errar.

    Pseudociências são distinguíveis de filosofias, revelações, teologias ou espiritualidade pois elas dizem revelar a verdade do mundo físico por meios científicos (ou seja, muitas normalmente de acordo com o método científico).

    Exemplos de campos de pesquisa que muitos consideram em diferentes graus, Pseudocientíficas:

    Fusão a frio, pseudoarqueologia, pseudo-história, Espiritismo, Pseudo-Parapsicologia/Pesquisa Psi, Cubo do Tempo de Gene Ray, Astrologia, Design Inteligente, Ufologia, Homeopatia, Grafologia, mensagem subliminar, Efeito lunar, cura pela fé, Tarô, mapa astral, Gurus, Esoterismo, jogo de Búzios, pirâmides e cristais, Numerologia, Gnose, Sincretismo, criacionismo, magia, adivinhação, criptozoologia, Geologia do dilúvio… Em certos momentos algumas práticas tradicionais e outras humanidades adquirem status pseudocientífico por extrapolar a pertinência de suas contribuições sociais para além das funções cientificamente reconhecidas, é o caso da Yoga, da Acupuntura e da Meditação.

    Práticas científicas e médicas pseudocientíficas são cada vez mais comuns. Pseudociências médicas até mostram “algumas vezes” benefícios terapêuticos notáveis, possivelmente devido ao efeito placebo ou à distorção involuntária por parte do observador (en:observer bias).

    Muitos pseudocientistas estão associados ao movimento Nova Era, e praticamente todas as técnicas da Nova Era estão ligados à pseudociência.

    Há também alguns campos jovens da ciência (protociência) que são mal vistos por cientistas de áreas já estabelecidas, primeiramente por sua natureza especulativa. Exemplos:

    Exobiologia / Astrobiologia/Busca de Inteligência Extraterreste (SETI)/Comunicação com Inteligência Extraterreste (CETI)
    SETI e CETI não afirmam que os extraterrestres existem, embora muitos consideram que seja provável. Há controvérsia na biologia se evidência de vida extraterrestre micro biótica foi encontrada.
    Vários tratamentos autoproclamados medicina alternativa foram designados pseudociência por críticos, porque seus métodos inspiram falsa esperança em pacientes terminais e acabam custando grandes quantias em dinheiro.

    Erich von Däniken: propõe que a Terra foi visitada por astronautas antigos.

    Cirurgia psíquica é um tipo de fraude médica popular no Brasil e nas Filipinas. Praticantes usam truques de mão para fazer parecer que eles estão chegando ao corpo dos pacientes e extraindo “tumores”.
    A cirurgia psíquica geralmente é uma enganação explícita (segundo Padre Quevedo), ou seja, os “médicos” estão conscientes de que estão praticando fraude ou (charlatanismo), ao contrário da maioria das pseudociências, na qual os praticantes acreditam realmente em sua teoria.

    Cura pela fé é o ato de curar uma doença, por meio de oração e imposição das mãos. Nenhum benefício material em excesso do que o esperado por placebo é observado. No entanto, os defensores da cura pela fé, respondem, afirmando que o que os médicos descrevem como “efeito placebo” é uma forma de cura pela fé.

    Urino terapia, beber própria urina, ou pura ou com poções homeopáticas, para o tratamento de uma ampla variedade de doenças baseia-se em pseudociência.

    Criacionistas Cosmológicos são aqueles que, entre outras coisas, permitem a um universo que é só de milhares de anos.

    Design Inteligente sustenta que “certas características do universo e dos seres vivos são melhor explicadas por uma causa inteligente, não é um processo direcionado como a seleção natural.” Esses recursos incluem:
    Complexidade irredutível é a alegação de que alguns sistemas são tão complexos que não podem ter evoluído de sistemas mais simples. Ele é usado pelos defensores do design inteligente para argumentar que a evolução por seleção natural por si só é incompleta ou defeituosa, e que algum mecanismo adicional (um “Designer Inteligente”) é necessário para explicar as origens da vida.
    Complexidade especificada é a alegação de que quando algo é simultaneamente complexo e especificado, pode-se inferir que ele foi produzido por uma causa inteligente (isto é, que ele foi projetado) em vez de ser o resultado de processos naturais.

    Faz-se sim necessário buscar a realidade, não importando o meio, já que o mundo, no geral, não suporta mais a vida ilusória impostas pelas religiões.
    Há, contudo, uma rivalidade entre pseudociência e ciência para chegar-se às verdades, a ciência já provou como a terra é já a pseudociência continua na probabilidade, tem-se então que a ciência mostra o que pode comprovar, e a pseudociência?

    Livro indicado:
    CÉREBRO E CRENÇA de Michael Shermer/JSN Editora/2012.

    Leia mais na Internet, aprofunde conhecimentos, em:
    http://www.adorofisica.com.br/trabalhos/ciencia_e_ps/previsoes1.html
    http://www.adorofisica.com.br/trabalhos/ciencia_e_ps/index.html
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Charlatanismo
    http://sociedaderacionalista.org/2011/09/15/discussoes-sobre-o-metodo-cientifico-parte-3/

    http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/psicologo-explica-por-que-acreditamos-no-inacreditavel

    O Dicionário Cético-coleção de trabalhos críticos de casos que são considerados pseudocientíficos. (versão em português do The Skeptic’s Dictionary)* Crank.net: Science (em inglês)
    James Randi Educational Foundation (em inglês) – organização que investiga e tenta verificar casos que parecem contradizer a ciência estabelecida. Usando condições de experiência controladas, a JREF ainda não encontrou evidências de nada inexplicável para a ciência estabelecida.

    Como falar com Deus, por telefone?
    http://www.novolhar.com.br/noticia_edicoes.php?ass=bau&id=5555

    http://livrespensadores.net/artigos/o-apelo-a-ignorancia-nas-pseudociencias-e-religioes/?utm_source=subscribe2&utm_medium=email&utm_campaign=postnotify

    Colaborou,
    Oiced Mocam

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