O Apelo à Ignorância nas Pseudociências e Religiões

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Um dos “argumentos” mais usados em pseudociências é o Apelo à Ignorância, o qual é uma falácia bem conhecida. Mas não é apenas nas pseudociências que se faz uso dele: nas religiões também. Religiões e pseudociências são muito mais semelhantes do que costuma-se imaginar, por mais que alguns não gostem disso. Não só os mesmos tipos de “argumentos” são usados em ambas, como a própria demarcação as coloca no mesmo barco (o que explorarei mais num texto futuro).

Esse “argumento” funciona, basicamente, de duas formas:

  1. Ninguém provou que A é falso/não existe; Logo A é verdadeiro/existe
  2. Ninguém sabe o que A é; Logo A é B (sendo que B nunca foi provado existir)

Exemplos do uso de tal falácia nas pseudociências são incontáveis. Na ufologia, diz-se que “não se sabe o que era tal objeto, logo ele é de origem extraterrestre”, ou “ninguém conseguiu identificar/explicar tal OVNI, logo era uma nave extraterrestre”; no estudo do paranormal (e existem várias vertentes), diz-se que “ninguém encontrou explicação para este ponto frio, logo um fantasma o gerou ao sugar a energia do ambiente”, ou “não há explicação para tal som, logo ele foi gerado por um espírito”; e assim por diante.

Acontece algo extremamente parecido nas religiões. Por exemplo, diz-se que “ninguém provou que deus não existe, logo ele existe”; que “ninguém explicou como tal pessoa foi curada, logo foi um milagre de deus”; e que “o homem não pode explicar tudo, logo deus é a explicação final”. Afirmam-se, também, coisas ainda mais absurdas do que essas, mas acho que os exemplos são suficientes.

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Todas estas afirmações não poderiam estar mais erradas, porque do não saber não pode surgir o saber. Assim, do nada. O problema é que nada pode ser afirmado com base no mero não saber, na ignorância. Para se atingir o saber não basta afirmar “foi deus”, “foram os ETs”, ou “foram espíritos/fantasmas”. Ao contrário, é necessário muito estudo, esforço e suor.

Se você não sabe, logo… Logo coisa alguma, se não sabe, não sabe. Para por aí. Do não saber tira-se apenas perguntas, essas sim podem nos levar levantar hipóteses, a fazer investigações (estudos) e, assim, quem sabe, a alguma resposta. Essas respostas, sim, poderão ser chamadas de saber.

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Um segundo problema é que o apelo à ignorância implica numa Inversão do Ônus da Prova, que é outra falácia bem conhecida. O Ônus da Prova é, sempre, de quem alega algo, afirma algo. Então, por exemplo, se alguém afirma que deus existe, cabe a essa pessoa provar sua existência; se alguém afirma que ETs nos visitam ou que fantasmas existem, cabe a essa pessoa provar isso; e assim por diante.

Para exemplificar melhor, peguemos a Presunção de Inocência, que é um conceito jurídico extraído diretamente do Ônus da Prova. Esse conceito afirma, basicamente, que “todos são inocentes até que se prove o contrário”, ou, em outras palavras, que “toda alegação de existência de uma culpa é falsa até que se prove o contrário”. A aplicação disto na ciência é bem simples: toda alegação é falsa até que se prove, com base em evidências, sua veracidade.

Assim, no caso das pseudociências:

  • É correto afirmar que ETs não nos visitam até que se prove o contrário
  • É correto afirmar que abduções extraterrestres são mentiras até que se prove o contrário
  • É correto afirmar que fantasmas não existam até que se prove o contrário
  • É correto afirmar que pés grandes não existam até que se prove o contrário

E daí por diante. Agora, digamos que amanhã alguém prove que pés grandes realmente existem, o que acontece? Nada, apenas deixamos de afirmar que eles não existem para afirmar que eles existem. Simples e direto, sem qualquer “vergonha” de ter errado. Quer dizer, essa posição não é nada além de um simples bom senso.

O mesmo se aplica à religião:

  • É correto afirmar que deus não existe até que se prove o contrário
  • É correto afirmar que milagres não acontecem até que se prove o contrário
  • É correto afirmar que, sei lá, imagens de barro não choram sangue até que se prove o contrário

A coisa é, enfim, bastante simples. Afirmar de forma diferente é, no mínimo, bobagem. Para não dizer burrice.

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Eu sei, muitos, ao ler este texto, usarão a seguinte afirmação de Sagan:

“Ausência de evidência não é evidência de ausência.”

— Carl Sagan

Contudo, isso seria uma mera má interpretação dessa afirmação. O que ela implica é que não se pode provar que algo não existe baseado na mera falta de evidências, não que não se possa afirmar a inexistência. Existe uma gigantesca diferença entre esses dois conceitos, de provar e afirmar.

Demonstração disto podemos tirar de uma outra citação do próprio Sagan, em seu texto sobre o Dragão Invisível (incorpóreo, que flutua, solta fogo frio, etc), em seu livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios – A ciência tida como uma vela no escuro” (disponível em PDF neste link):

“Ora, qual é a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão inexistente? Se não há como refutar a minha afirmação, se nenhum experimento concebível vale contra ela, o que significa dizer que o meu dragão existe? A sua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é absolutamente a mesma coisa que provar a veracidade dela. Alegações que não podem ser testadas, afirmações imunes a refutações não possuem caráter verídico, seja qual for o valor que possam ter por nos inspirar ou estimular nosso sentimento de admiração.”

— Carl Sagan, O Mundo Assombrado pelos Demônios – A ciência vista como uma vela no escuro, págs. 149 e 150.

Caso queira saber mais sobre o texto sobre o Dragão Invisível, veja o vídeo abaixo.

Assim, espero ter demonstrado nesse singelo texto o motivo de tais “argumentos” não poderem sequer ser analisados: eles não têm qualquer valor, sequer podem ser chamados de argumentos, visto que são falácias. Agora, se você crê em algo, por mais que eu discorde disso, paciência, você tem esse direito. Apenas não tente enfiar sua crença goela abaixo dos demais, nem se aborreça caso eu (ou qualquer outra pessoa) não a compartilhe.

“Decerto não é correto da minha parte ficar ofendido por não acreditarem em mim; ou criticá-lo por ser chato e sem imaginação – só porque você apresentou o veredicto escocês de ‘não comprovado’.”

— Carl Sagan, O Mundo Assombrado pelos Demônios – A ciência vista como uma vela no escuro, pág. 150.

O Apelo à Ignorância nas Pseudociências e Religiões, 8.3 out of 10 based on 3 ratings

Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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4 Comments

  1. É impressionante como “destroem” a Lógica de Aristóteles…

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    • Olá, Domingos Marcelo. Tudo bem?

      Como assim, “”destroem” a Lógica de Aristóteles”?

      Abraços!

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  2. Ótimo texto, Mário! Um raciocínio simples, mas que muitos insistem em não exercitá-lo. Continuemos!

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  3. PSEUDOCIÊNCIA – CHARLATANISMO
    ENTRE A RAZÃO E A FÉ

    Onde encontraremos as verdadeiras respostas para nossas dúvidas? No pensamento científico ou no ocultismo?

    Atualmente a grande diversidade de informações que chega até as pessoas através de jornais, revistas, editoras, rádios, televisão, produtoras de filmes e outros órgãos afins, levam-nas a se questionarem mais e buscarem respostas para perguntas que a educação científica que recebem não pode esclarecer, por isso a busca de pseudociências. O Brasil é o país mais supersticioso do mundo! Essa busca tem como conseqüência à crise que a sociedade está vivendo: o crescimento acelerado das ciências ocultas.
    Por desconfortos psicológicos as pessoas estão entregando seu futuro nas mãos de astrólogos, parapsicólogos e videntes. Mas, a ciência não aceita de forma alguma que interações ocultas possam influenciar no destino dos humanos, pois, hoje, a ciência consegue explicar fenômenos, os quais não conseguia explicar séculos atrás, como por exemplo, a influência de corpos celestes em fenômenos terrestres.

    Os fatos também mostram que as divindades e os demônios mudam com o passar do tempo, mas a incoerência continua a mesma. Em outras palavras, a humanidade continua dizendo e acreditando em besteiras tal como faziam os trogloditas. Os motivos que levam a acreditar no sobrenatural, em divindades e demônios são muitos e variam de pessoa para pessoa. Os principais são a ignorância, o medo, a necessidade e os interesses. Eles podem deixar a pessoa em um estado que dificulta a percepção da realidade e que propicia a aceitação de incoerências.
    O culto ao sobrenatural cria uma barreira à percepção da realidade, pois as pessoas tendem a rejeitar outras possibilidades causais para os fenômenos cujas origens ainda são desconhecidas. Em outras palavras, o condicionamento cultural pode atrapalhar o próprio desenvolvimento cultural.

    PSEUDOCIÊNCIA
    Uma pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada em fatos científicos, ou mesmo como tendo um alto padrão de conhecimento, mas que não resulta da aplicação de métodos científicos.
    Motivações para a defesa ou promoção de uma pseudociência variam de um simples desconhecimento acerca da natureza da ciência ou do método científico, a uma estratégia deliberada para obter benefícios financeiros, filosóficos ou de outra natureza. Algumas pessoas consideram algumas ou todas as formas de pseudociências como um entretenimento sem riscos. Outros, como Richard Dawkins, consideram TODAS AS FORMAS de pseudociência PERIGOSAS, independentemente destas resultarem ou não em danos imediatos para os seus seguidores.

    Tipicamente, as PSEUDOCIÊNCIAS FALHAM ao não adotar os critérios da ciência em geral (incluindo o método científico), e podem ser identificadas por uma combinação de uma destas características:

    Ao aceitar verdades sem o suporte de uma evidência experimental;
    Ao aceitar verdades que contradizem resultados experimentais estabelecidos;
    Por deixar de fornecer uma possibilidade experimental de reproduzir os seus resultados;
    Ao aceitar verdades que violam falseabilidade;
    Por violar a Razão de Occam (o princípio da escolha da explicação mais simples quando múltiplas explicações viáveis são possíveis); quanto pior for a escolha, maior será a possibilidade de errar.
    Pseudociências são distinguíveis de filosofias, revelações, teologias ou espiritualidade pois elas dizem revelar a verdade do mundo físico por meios científicos (ou seja, muitas normalmente de acordo com o método científico).
    EXEMPLOS de campos de pesquisa que muitos consideram em diferentes graus, Pseudocientíficas:
    Fusão a frio, pseudoarqueologia, pseudo-história, Espiritismo, Pseudo-Parapsicologia/Pesquisa Psi, Cubo do Tempo de Gene Ray, Astrologia, Design Inteligente, Ufologia, Homeopatia, Grafologia, mensagem subliminar, Efeito lunar, cura pela fé, Tarô, mapa astral, Gurus, Esoterismo, jogo de Búzios, pirâmides e cristais, Numerologia, Gnose, Sincretismo, criacionismo, magia, adivinhação, criptozoologia, Geologia do dilúvio… Em certos momentos algumas práticas tradicionais e outras humanidades adquirem status pseudocientífico por extrapolar a pertinência de suas contribuições sociais para além das funções cientificamente reconhecidas, é o caso da Yoga, da Acupuntura e da Meditação.

    Práticas científicas e médicas pseudocientíficas são cada vez mais comuns. Pseudociências médicas até mostram “algumas vezes” benefícios terapêuticos notáveis, possivelmente devido ao efeito placebo ou à distorção involuntária por parte do observador (en:observer bias). Muitos pseudocientistas estão associados ao movimento Nova Era, e praticamente todas as técnicas da Nova Era estão ligados a pseudociência.

    Há também alguns campos jovens da ciência (protociência) que são mal vistos por cientistas de áreas já estabelecidas, primeiramente por sua natureza especulativa. Exemplos:
    Exobiologia / Astrobiologia/Busca de Inteligência Extraterreste (SETI)/Comunicação com Inteligência Extraterreste (CETI)
    SETI e CETI não afirmam que os extraterrestres existem, embora muitos consideram que seja provável. Há controvérsia na biologia se evidência de vida extraterrestre microbiótica foi encontrada.
    Vários tratamentos autoproclamados medicina alternativa foram designados pseudociência por críticos, porque seus métodos inspiram falsa esperança em pacientes terminais e acabam custando grandes quantias em dinheiro.
    Erich von Däniken: propõe que a Terra foi visitada por astronautas antigos.
    Cirurgia psíquica é um tipo de fraude médica popular no Brasil e nas Filipinas. Praticantes usam truques de mão para fazer parecer que eles estão chegando no corpo dos pacientes e extraindo “tumores”.
    A cirurgia psíquica geralmente é uma enganação explícita(segundo Padre Quevedo), ou seja, os “médicos” estão conscientes de que estão praticando fraude ou (charlatanismo), ao contrário da maioria das pseudociências, na qual os praticantes acreditam realmente em sua teoria.
    Cura pela fé é o ato de curar uma doença, por meio de oração e imposição das mãos. Nenhum benefício material em excesso do que o esperado por placebo é observado.. No entanto, os defensores da cura pela fé, respondem, afirmando que o que os médicos descrevem como “efeito placebo” é uma forma de cura pela fé.
    Urinoterapia, beber própria urina, ou pura ou com poções homeopáticas, para o tratamento de uma ampla variedade de doenças baseia-se em pseudociência
    Criacionistas Cosmológicos são aqueles que, entre outras coisas, permitem a um universo que é só de milhares de anos.
    Design Inteligente sustenta que “certas características do universo e dos seres vivos são melhor explicadas por uma “causa inteligente”, não é um processo direcionado como a seleção natural.” Esses recursos incluem:
    Complexidade irredutível é a alegação de que alguns sistemas são tão complexos que não podem ter evoluído de sistemas mais simples. Ele é usado pelos defensores do design inteligente para argumentar que a evolução por seleção natural por si só é incompleta ou defeituosa, e que algum mecanismo adicional (um “Designer Inteligente”) é necessário para explicar as origens da vida.
    Complexidade especificada é a alegação de que quando algo é simultaneamente complexo e especificado, pode-se inferir que ele foi produzido por uma causa inteligente (isto é, que ele foi projetado) em vez de ser o resultado de processos naturais.
    Faz-se sim necessário buscar a realidade, não importando o meio, já que o mundo, no geral, não suporta mais a vida ilusória impostas pelas religiões. Há, contudo, uma rivalidade entre pseudociência e ciência para chegar-se às verdades, a ciência já provou como a terra é já a pseudociência continua na probabilidade, tem-se então que a ciência mostra o que pode comprovar, e a pseudociência?

    Leia mais na Web, aprofunde conhecimentos,em:
    http://www.adorofisica.com.br/trabalhos/ciencia_e_ps/previsoes1.html
    http://www.adorofisica.com.br/trabalhos/ciencia_e_ps/index.html
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Charlatanismo
    http://sociedaderacionalista.org/2011/09/15/discussoes-sobre-o-metodo-cientifico-parte-3/

    O Dicionário Cético – coleção de trabalhos críticos de casos que são considerados pseudocientíficos. (versão em português do The Skeptic’s Dictionary)* Crank.net: Science (em inglês)
    James Randi Educational Foundation (em inglês) – organização que investiga e tenta verificar casos que parecem contradizer a ciência estabelecida. Usando condições de experiência controladas, a JREF ainda não encontrou evidências de nada inexplicável para a ciência estabelecida.

    Muito bom o seu artigo, Mário César,
    permita-me complementar as minhas pesquisas, observações e conclusões como irreligioso e cético

    Abbs
    Oiced

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