O comum tido como extraordinário

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Uma das piores doenças da humanidade sempre foi a ignorância. Ela nos fez criar, em nossas cabeças, healing enganos gigantescos, dosage que vão desde deuses e milagres até naves extraterrestres nos visitando. E isto tudo, o que é pior, baseando-nos nas coisas mais comuns do mundo. Em outras palavras, o extraordinário nada mais é do que o comum mal interpretado, graças à ignorância.

Vejamos o caso da ufologia. Qualquer luz vista nos céus, mesmo durante o dia, mas principalmente durante a noite, já vira uma “nave extraterrestre” na cabeça de muitos. E, veja, foi em 1879 que Thomas Edison inventou a lâmpada elétrica. Não foi ontem, muito pelo contrário. Mas mesmo há muito antes disso, talvez há milhares de anos, já havíamos aprendido a usar o fogo. Quer dizer… Luzes? Uma civilização capaz de atravessar anos-luz de distância deveriam ter tecnologias muito mais avançadas do que isso.

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O mesmo acontece quanto a manchas que aparecem em fotografias. Se tal civilização realmente nos visita, será mesmo que simples manchas em fotos seria o melhor que conseguiríamos? Isto sem falar que, para que uma mancha surja numa foto, basta que algo passe diante da câmera no momento da foto. Pássaros, insetos e até mesmo folhas ou sujeira seria suficiente. Então, onde está o extraordinário nisso tudo?

Se ETs realmente nos visitam e nos estudam, acidentes aconteceriam. Não falo sequer da possibilidade de uma nave dessas vir a bater no Empire State Building. Não, bastaria que um desses seres que, ao descer das naves para colher amostras, perdesse uma pequena pá extremamente tecnológica, algo como jamais vimos antes. Isto, sim, seria uma evidência extraordinária ao ponto de comprovar tal visita. Mas não… Para que, não é mesmo?

“Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.”

— Carl Sagan

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Isto foi o que disse muito durante a época em que me dediquei ao estudo da ufologia: esqueçam o comum e se foquem no extraordinário, pois quando encontrarem algo assim o debate passa a tender para seu lado. “Encontrem um desses objetos que vocês chamam de sondas, que provavelmente não seriam tripuladas, e abatam elas a tiros”, dizia eu. O que gerava as piores reações possíveis! Muitos deles querem que você jogue fora seu cérebro e simplesmente acredite neles. Não querem evidenciar coisa alguma.

“Alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias.”

— Carl Sagan

O mesmo raciocínio se aplica à religião. Basta que alguém seja curado de uma doença grave, que já afirmam “milagre de deus!”. Esquecem-se, apenas, de dizer que o doente foi a médicos e tomou os remédios necessários… Para eles pouco importa: querem apenas acreditar.

“Afirmar que “Deus fez isso” não é nada mais do que uma admissão de ignorância vestida enganadoramente como uma explicação.”

— Peter Atkins

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É verdade, algumas vezes a doença do paciente é declarada como incurável ou irreversível para, depois, o paciente acabar se curando. Contudo, o que acontece muito é que os médicos se precipitam e afirmam coisas que não são verdade. Além disto, mesmo os melhores medicamentos funcionam apenas para cerca de 80% dos pacientes, quem dirá os prognósticos. Quer dizer, prognósticos também têm margem de erro. E nossa ciência, por mais avançada que seja, não é infalível: não sabemos de muita coisa.

Assim, o fato de pacientes se curarem não tem absolutamente nada de extraordinário. Nada mesmo, para alguém chamar de “milagre”. Se querem, de fato, um milagre, procurem pelo extraordinário. Se conseguirem documentar, cientificamente, uma caneca voando sozinha, sem qualquer tecnologia, ou falando… Conversaremos.

“Aparentemente os cristãos requerem uma constante afirmação de suas crenças, senão eles começam a reverter ao estado natural da descrença. Esse deve ser um mecanismo de defesa dos memes cristãos, evoluídos por 2000 anos de ignorar a realidade.”

— Paul J. Koeck

O mero fato de não termos determinada resposta, de não sabermos responder à pergunta, não prova coisa alguma. Dizer “não sei” deveria ser a coisa mais comum do mundo, pois o que conhecemos é realmente muito pouco. E dizer “não sei” não é sinal de fraqueza, mas sim de humildade e de humanidade. “Não sei” não prova que ETs nos visitam, não prova que deus ou duendes existem: prova apenas que você não sabe.

Por tudo isso que não se pode transformar a ignorância (não conhecimento) em afirmações absurdas. Elas simplesmente não se sustentam. Procure o extraordinário e, encontrando, terei o prazer de voltar a debater.

“Se conhecimento pode trazer problemas, não é sendo ignorantes que poderemos solucioná-los.”

— Isaac Asimov

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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4 Comments

  1. Ótimo texto Mário. Acho que o extraordinário é capaz de fazer uma revolução no conhecimento, ou uma confusão na ignorância. É necessário saber lidar com ele.

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    • Sem dúvidas, cara.

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  2. Texto realmente maravilhoso!!!!!!!

    Posso afirmar que na realidade a medicina está apenas começando a engatinhar (e, não… Não está muito evoluída como muitos acreditam). A medicina não entende a maior parte das doenças, desconhece muitas delas, não entende suas causas, está longe de curar a maioria, e controla muito mal várias. Ou seja, quando um médico diz que tal doença é incurável, na verdade o que ele está dizendo é que há muito pouca chance da pessoa se curar (mas não que é impossível). Enfim… Com o avanço da ciência até a medicina vai acabar evoluindo.

    Excelente texto! Parabéns!

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    • Angela, já agradeci pelo Facebook, mas obrigado de novo!

      E você tem toda a razão. Mal começamos a estudar doenças e a procurar curas de verdade. Sei lá, digamos 500 anos. Isso no tempo de vida de um ser humano pode parecer muito, mas não é nada se comparado ao tempo em que nossa espécie vem “andando por essas planícies”. Se comparado à idade da Terra então, é ridículo. E é melhor pararmos por aí, que já foi suficiente. HEHEHE

      É como disse Einstein:

      “Toda nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil- ainda sim é a coisa mais preciosa que nós temos.”
      – Albert Einstein

      Abraços! 😉

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