O Sentido da Vida

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Escrito por Wagner Kirmse Caldas, ask do Bar do Ateu.

É incrível como a pergunta sobre objetivos da vida é recorrente. É incrível como o fato de estarmos aqui, vivendo, deve estar atrelado a um plano superior, a uma meta, a um destino que já foi escrito. É incrível como as pessoas querem dar importância à nossa efemeridade e nos achem dignos de continuar vivendo em outro lugar, pós vida.

Igualmente incrível é ouvir as pessoas perguntando: se não tem objetivo, porque não se mata? Já falei sobre isso antes. Algumas pessoas não conseguem aceitar que é simplesmente assim, vivemos pelo acaso.

Uma mulher, durante sua vida reprodutiva, terá produzido, em média, 400 óvulos fertilizáveis. Um homem, por sua vez, produzirá mais de 2 trilhões de espermatozóides durante a vida.  Num dado momento, um desses óvulos encontrou-se com um desses espermatozóides, desse encontro, nascemos. Isso, por si só, concentra todo significado de acaso. Mero acaso, mas, ainda assim, belo e “mágico”.

Mas, falemos um pouco mais de acaso.  Já parou para pensar em quantas pessoas precisaram se encontrar para que você existisse?

Seu pai e sua mãe? Sim, mas, e antes deles? Para cada um, mais um casal de pais, e para cada um de seus 4 avós, 8 bisavós, e antes desses 16, que precisaram de 32 pais, os quais foram gerados por 64 pessoas, essas por 128.

Ou seja, se você quiser saber quantas pessoas foram necessárias para te gerar, desde a 7ª descendência, precisará do somatório de 21+22+23+24+25+26+27, e assim sucessivamente.  Quanta gente, não é mesmo?

Mais uma vez, o acaso “determina” essas coincidências, esses encontros, esses arranjos. Outra vez é maravilhoso. Outra vez é incrível.

Só por estes números já devíamos dar à vida um valor inestimável. Quantas possibilidades de seres humanos foram “perdidas” diante dessas combinações? Dentre todas elas, nasceu você.

Porém, acredite, você não está aqui por um plano divino, você simplesmente aconteceu.

Se você acredita (mesmo que levemente), na evolução, pare para pensar: quantas formas de vida foram “desperdiçadas” até se chegar a uma espécie qualquer? Qual a razão desse desperdício? Nenhuma, é simplesmente assim, a “natureza” não tem pressa, nem precisa.

Não obstante, parece que o ser humano precisa de uma razão. Precisa “saber” que a vida não acaba quando morre, aí reside o poder das religiões, dado que elas alimentam essa fome, esse desejo de imortalidade.

A crença na imortalidade da alma e a imortalidade simbólica surgem como respostas que se edificam como uma forma de “negação” e de “consertar” a inevitabilidade da morte e o consequente terror, que o ser humano experiência, face à realidade do total e definitivo aniquilamento individual. O terror em face da perspectiva de destruição do corpo e desaparecimento da vida psíquica, na qual radica a noção de identidade pessoal de continuidade do mesmo no tempo, encontra um bálsamo na crença da imortalidade da alma e no renascimento do corpo. (DUQUE, 2004)

Logo o homem, que acabou de chegar neste planeta.  Se considerarmos a idade geológica da Terra em 4,56 bilhões de anos, e os dados antropológicos que nos colocam há 200.000 anos no planeta, desse montante só participamos de 0,0044% do período em que o planeta existe (comparados ao universo estamos aqui há 0,0014% do tempo), e, por nossa audácia, entendemos que o planeta/universo foi feito exclusivamente para nós e, que a nós, seres tão importantes, é reservada a imortalidade em um lugarzinho no céu ou no inferno.

“Prefiro o paraíso pelo clima e o inferno pela companhia.” (Mark Twain)

Acabamos de entrar no ônibus e já queremos sentar na janela. Somos os primatas mais vaidosos do planeta.

Podemos entender que esse desejo de imortalidade (leia “O Banquete”, de Platão) como uma amplificação de nosso desejo de perpetuação. Os animais tem o instinto atávico do cio e da proteção às crias, isso porque tem o sentido de preservação da espécie. Não é diferente conosco, porém, por sermos racionais, também desenvolvemos o aspecto da empatia, tanto pela prole quanto pelos genitores, pelos quais desenvolvemos reações químicas em nossos cérebros, algumas delas as quais chamamos amor.

Assim, desejamos, além da sobrevivência de nossa psique, o reencontro com nossos entes queridos, daí a esperança da “vida” após a morte.

Nessa busca, após serem levados incondicionalmente à frequentar as igrejas de seus genitores, alguns acabam se entregando às religiões de seus pais ou a outras que mais atendem seus anseios e crenças. Nesse sentido, muitos passam a seguir a regra do prêmio e do castigo, a mesma regra a qual foram submetidos, quando de religião cristã, no natal: Papai Noel presenteia o “bom menino” e deixa carvão na meia do “mau menino”. Um arquétipo que nos prepara para a crença num deus bondoso, mas que é implacável quando se trata de punir. Essa brutalidade é feita com as crianças nascidas em lares teístas. baseadas na mitologia judaico-cristã. Depois de adultos e vivenciando os dogmas religiosos, acabam absorvendo e incorporando este pensamento de que a vida eterna é o prêmio para os que obedecem ao “papai do céu”.

Além de nossas idiossincrasias, não há um motivo convincente para nossa perpetuação após findar nossa atividade cerebral. Quando a “máquina cérebro” cessa seu funcionamento, nossa psique, nosso eu (se quiser chamar “alma” ou “espírito”) também deixa de existir. Seus conhecimentos, seus saberes, suas preferências, tudo isso é apagado e morre junto com seus neurônios. Isso é fácil de constatar ao observar pessoas com Alzheimer, onde todo esse conhecimento se esvai como água, mesmo ainda estando o indivíduo vivo. Porque achar que esse conhecimento vai regenerar?

Costumo nos comparar, metaforicamente, com os grãos de areia numa praia qualquer. Claro que isso é apenas figurativo, pois, comparativamente ao universo, somos muito menos que um grão de areia, e, não obstante, estamos no planeta há muito menos tempo que qualquer grão de areia. Assim, em meu exercício mental é como se esse grão de areia, rolando nas ondas que arrebentam na praia, levado, quem sabe para outras praias ou para o fundo do mar, se perguntasse: qual meu papel no ir e vir dessas ondas? A resposta: “Você não tem nenhum papel,  grão de areia, você simplesmente é, tem sua importância, mas é apenas mais um grão de areia”.

Óbvio que falamos de um agente inerte, mas, a mesma pergunta poderia ser feita por uma abelha, essa, um ser vivo não dotado de consciência, porém, dotada de instintos atávicos que a colocam no rumo de se a colméia, seja no papel de operária, seja no papel de soldado ou rainha. Qual a função de uma abelha de uma colméia qualquer? Sua função é manter a colméia guarnecida e protegida, recolher néctar, polinizar flores, alimentar as larvas para que novas abelhas nasçam, nada mais, sem um plano mestre, apenas uma função biológica e natural. Uma bela função, por sinal, se existisse um céu, as abelhas mereceriam entrar nele.

Assim somos nós, vivendo uma vida prática, onde devemos buscar o equilíbrio nas ações, de forma a não prejudicar nosso próximo, de forma a contribuir para o bem da coletividade, não pelo medo do inferno, não por ser uma regra divina, mas, por sermos humanos, por sermos dotados de consciência, de termos desenvolvido (e ainda estarmos desenvolvendo) uma moral e uma ética durante a formação de nossa sociedade.

Nós, ateus, somos assim: não buscamos nos deuses as instruções para agirmos com boa fé. buscamos na justiça social e no bom senso de não querermos ao outro aquilo que nos incomoda. Não buscamos o céu, não fugimos do inferno.  Apenas somos. Não buscamos imortalidade através de nossa alma/espírito, mas, devo confessar que gostaria de deixar um registro de minha passagem (talvez pelo instinto atávico), para além de minha prole já produzida, seja por alguma obra minha, um livro, um trabalho reconhecido, algo útil às gerações futuras.

Porém, amigo teísta, se um dia você constatar que isso faz sentido, que, talvez, não haja uma continuidade para sua “vida”, não saia correndo pra se matar, como tantas vezes já fui aconselhado a fazer por seus pares. A vida é bela e merece ser desfrutada. Aproveite a “mágica” confluência de fatores que aproximaram mais de 1000 pessoas  (considerando só 9 gerações) para que você fosse possível. Esse é o sentido.

Aproveite a incrível loteria, onde você teve 1,25 x 10-15 de chance de ganhar, e ganhou.

Referências

Duque, Celeste. Angústia, ansiedade e relação precoce. 2004

Platão. Banquete. 380 a.c.

Lembrando novamente: este artigo foi escrito por Wagner Kirmse Caldas, do Bar do Ateu.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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7 Comments

  1. Mário, não sei se é só você que administra esse site mas está/estão fazendo um bom trabalho. Esse texto é muito bom. Realmente, parando muito pouco pra pensar a maioria das religiões tem como foco a pós-vida. Eu mesmo, semana passada surtei quando, conversando com um amigo meu, conclui(após ler vários textos e uns livros) que somos acidentes aqui e que a vida não tem um sentido maior.
    Era evangélico e ia começar a frequentar reuniões budistas pra tentar driblar os fatos. Mas de cabeça fria, vejo que não dá. Vendo um comentário seu em um texto e agora esse texto estou cada vez mais certo que não mesmo. Acho triste, muito triste, mas fazer o que né.. É como esse amigo, o que eu citei, me disse no mesmo dia: É Bob, o jeito é aproveitar a vida. Esquece isso..
    Enfim, o site está muito bom, muito mesmo.
    Parabéns Mário, parabéns Wagner Kirmse Caldas.

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    • Valeu, Bob! Valeu MESMO! 🙂
      Aqui somos um grupo, eu, Ligia, Francisco, Marcelo Esteves, Ioldanach e a minha prima, Geamille. Eu criei o site, mas eles todos têm carta branca aqui. 🙂
      Esse texto é do Wagner, do Bar do Ateu, ele mandou pra eu publicar e eu não pensei duas vezes! 😀
      E é isso mesmo, cara. Temos que aproveitar nossa vida, viver da melhor forma possível, sem ficar se preocupando demais com algo que a gente nem sabe se existe, como vai ser, nada. 🙂

      Abraço e fique à vontade para comentar, sugerir, dar palpites, enfim, participar. 🙂

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    • Olá, Bob

      É realmente muito difícil abandonar as crenças, pois, elas, de alguma forma, nos dão alento. É legal pensar em vida eterna, rever os entes queridos, coisa e tal. Porém, por mais duro que seja, acredito que não há um depois. E mais, com o tempo, cheguei a conclusão pessoal de que não é necessário um depois, que isso não passa de nosso desejo atávico da imortalidade.

      Viva sua vida, seja feliz, faça outros felizes. Meu sentido da vida é: viva e deixe viver.

      Fico feliz que tenha gostado do texto. Quando quiser, visite o bar do ateu: http://bardoateu.blogspot.com

      Aproveito para agradecer a oportunidade ao Mário e a ratificar o elogio ao site do livres pensadores.

      []s

      Wagner

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      • Lembrou Carl Sagan agora!
        “Para mim, é muito melhor compreender o Universo como ele realmente é do que persistir no engano, por mais satisfatório e tranquilizador que possa ser” Essa frase nunca vai sair das minhas lembranças.

        Foi um dos melhores textos ateu que eu já li. Não pegou hábitos e crenças cristãs e detonou, mostrou lógicamente o porque de não fazer muito sentido o “depois” existir.

        Vou dar uma passada no bar do ateu \o

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  2. “só por que você entende como uma bola gira, não significa que você sabe o por quê dela girar”

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    • Isso é uma falácia do tipo “dicto simpliciter”, mas, analisando sua proposição, acredito podemos dar um chute bem otimista de que alguma força, explicável pela física, a fez girar, ao invés de acreditarmos que seres invisíveis estão brincando de “gira pião”. []s

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  3. um jeito pratico de encarar a vida e o pos-vida, com ou sem crença todos devemos fazer algo por este plano, pelo menos tentar deixa-lo um pouco melhor depois de nossa partida este é meu pensamento e partilho de sua visão. parabens pelo trabalho.

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