Os rumos do movimento ateu brasileiro

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Quando comecei a me envolver no ativismo ateu em meados de 2010 como indivíduo, order isto é, antes mesmo de criar o Livres Pensadores. Na época eu tinha uma ideia do que eu “gostaria” para o movimento. O que veio a ocorrer depois, contudo, foi algo bem diferente.

Como muitos daqueles com quem conversei, eu queria, à época, ver o movimento unido. Sabe? Brigas entre organizações ateístas superadas e todos lutando, juntos, mesmo que cada um de sua forma: uns criticando mais fortemente as religiões, outros se focando mais em direitos humanos, outros em direitos de minorias e outros até mesmo usando de humor. Pouco importa se para ridicularizar as religiões, afinal, crenças não passam de ideias e não se respeita meras ideias. Mas, ainda assim, todos com certo respeito, mesmo que mínimo, uns com os outros.

O que aconteceu, no entanto, foi bem diferente. Fui perseguido por alguns do próprio movimento apenas por minha posição anticlerical e, depois, ainda fui vítima de pessoas que só posso descrever como alpinistas sociais. Realmente, há todo tipo de gente em todas as áreas em que o ser humano se envolve: desde as melhores até as piores. E as armas que certos “humanos” usam são as piores possível.

Hoje, o que temos é uma pulverização de organizações ateístas. O que é ótimo, pois dificulta o trabalho daqueles que querem apenas poder e fama, dos alpinistas sociais, dos crápulas, etc. Mas, ao mesmo tempo, dificulta a conversa entre as organizações, o que dificulta, por exemplo, ações em conjunto. Mas este, em minha opinião, é o menor dos problemas.

O maior problema é que, hoje, temos uma multidão de ateus (ou ao menos de pessoas que “se dizem” ateus, neste caso) e que são contra, por mais absurdo que pareça, que ateus lutem por seu lugar ao sol. São contra que critiquemos as religiões, apontando seus podres; são contra que se ridicularize a figura de deuses (coisas meramente imaginárias); são contra que se tenha orgulho de ser ateu, como se isso fosse algum crime. Querem, enfim, que se respeitem as religiões e que os ateus calem a boca.

Imaginem só isso. É como se negros não quisessem que se lutasse contra o racismo, ou que mulheres não quisessem que se lutasse por igualdade, ou mesmo que gays não quisessem que se lutasse contra a homofobia. Guardadas as devidas proporções, é claro. E quisessem, em suma, continuar sendo crianças, mesmo que com os 30 anos batendo às portas. Faz algum sentido para você? Pois é, nem para mim.

Não estou querendo dizer, com isso tudo, que “todo ateu tenha a obrigação” de se envolver no ativismo, ou algo assim. De forma alguma. Estou apenas preocupado com o rumo que a coisa toda está tomando, devido a alguns dos envolvidos e a vários que tentam atrapalhar. E, sinceramente, isso tudo tem me cansado demais. Às vezes penso, até mesmo, em largar isto tudo. Não largo por um único motivo: por eu ser ateu e, assim sendo, isto tudo pode vir a influenciar minha vida.

Enfim, espero, realmente, que isso tudo mude no futuro. Caso contrário, além da situação poder piorar, ainda pode espantar muita gente boa do ativismo ateu. Já temos pouca gente, se começarmos a diminuir ainda mais esse número… Piora. E muito.

Não espero, por fim, que esse texto meu mude a cabeça de alguns, até porque todos têm o direito de ser o que quiser – incluindo cabeças duras. Mas se servir para alertar alguns, já ficarei contente.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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7 Comments

  1. Desanima não, Mário! Continue, pois tenho certeza que muitos, assim como eu, vem aqui e leem, compartilham, refletem e vez ou outra comentam, mas sabem da importância disso aqui. Somos ‘poucos’ e menos ainda os que se dedicam como você a tal empreitada, se tu desiste…Faz parte do processo as dificuldades que tu citaste, mas devemos ter em mente que a questão do ateísmo está numa etapa da melhoria da sociedade à qual estamos bem distantes ainda, vide a homossexual.
    SIGA em frente amigo, sem incomodar-se com as críticas infundadas e reacionárias de toda ordem sem deixar de levar em conta as que mereçam ser consideradas, está(mos) no caminho certo. Tem muito material bom aqui no projeto que certamente tem ajudado muita gente.
    Contamos e precisamos de pessoas como você!

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    • Obrigado, Rodinei. Agradeço muito o comentário. E te garanto: não vou parar.

      Ainda quero criar um fundo pra Org LP poder se sustentar sozinha, um dia. Aí sim, posso PENSAR em parar. HEHEHE

      Mas a coisa não é fácil. Gostaria que tivesse mais gente ajudando aqui, seja como editor, ou mesmo como leitor, publicando textos. Saca? Mas… Vamos levando. 🙂

      Abraços!

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  2. Bem, o “problema” é que o ateísmo não é uma ideologia. Não tem um código de conduta, liderança e nem uma agenda. É simplesmente a negação de deidades. Qual a meta de um ateu, por ser ateu? Não acreditar em deuses. Só. Somos um “grupo” muito heterogêneo. Fica difícil chegar num concenso, através do ateísmo.
    O verdadeiro problema é que há muito pouco ceticismo difundido, mesmo entre os ateus. Sem as ferramentas necessárias para detectar baboseiras, muitos ateus simplesmente seguem qualquer coisa que A ou B digam que eles devem seguir. Culpa, em grande parte, da nossa herança religiosa…
    E com isso, tem muita gente tentando se aproveitar da situação para criar a sua versão de ateísmo, incorporando as suas ideologias ao ateísmo, supostamente para unir e melhorar. Mas, ao invés, criando separatismo.
    Quer exemplo mais claro que o tal “ateísmo +”? Um grupo de ateus, que diz querer unir os ATEUS, pelo fato de serem ATEUS, mas cujo carro chefe é o feminismo e o politicamente correto. Transformaram o ateísmo em uma religião de facto. Criaram seus dogmas: Se você é ateu e é uma pessoa de bem, que respeita as mulheres, homossexuais e demais minorias, você se junta a nós. Se você ousar discordar de qualquer ponto, você é um misoginista, apologista de estupro e do patriarcado, racista, etc e nós não queremos conversa com vocês.
    Acho que o que se pode fazer é incentivar o ceticismo ao máximo e lutar pela laicidade do Estado e contra a censura (mesmo contra a censura daqueles que nos criticam). E mostrar que essa briga não é benéfica somente aos ateus, mas à todos.
    Dar as ferramentas e esperar que as pessoas as utilizem, amadureçam e com ela, encontrem o seu “norte”, sem cair nas garras de ideologias dogmaticas.
    Acho que me enrolei demais, mas deve dar pra entender. Meus 2 centavos. 🙂

    Abraço

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    • Perfeito, Gabriel. Acho que é por aí mesmo.

      O problema é que, por mais que se faça isso, menos efeito parece fazer. A irracionalidade avança cada vez mais, justamente onde menos deveria. E, às vezes, cança. Saca?

      Enfim, é isso.

      Abraços!

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      • Entendo perfeitamente.
        É só assistir qualquer noticiário pra ter vontade de sair correndo, gritando e arrancando o que resta de cabelo… hahah
        Mas eu acho que ainda há esperança. Pelo menos, enquanto houver liberdade suficiente na internet, para divulgar tudo aquilo que achemos necessário, ou interessante. A informação acaba circulando, mesmo que devagar.
        É o que dá pra fazer.

        Abraço

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        • É, rapaz. Você tem razão.

          Enfim, vamos seguindo e ver no que dá. Mais gente tem entrado pro LP, então logo teremos inda mais diversidade por aqui. Sem falar no Gregory, que tem publicado conteúdos bastante diferentes aqui, ajudando a crescer essa diversidade. 🙂

          Até o Kauê, que tinha saído por questões de saúde e trabalho, talvez volte.

          Mas, sinceramente, estou chegando perto do meu limite de estresse. Espero conseguir uma folga mais pra frente. HEHEHE

          Abraços!

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  3. Boa Noite, Mário, sou ateu há 15 anos e desde que adquiri meu primeiro computador com Internet, em 2006, tenho visto muitos que se declaram ateus, livres-pensadores, agnóstico, etc, se digladiando por diferenças de convicções, ou mesmo querendo aparecer, como sábios, donos da verdade, etc, é lamentável que não haja um senso comum de troca de conhecimento, cada vez mais surgem correntes, ou até mesmo pessoas isoladas que querem se destacar lançando mão do arrivismo para um maior destaque na Internet, rádio, ou mesmo televisão, acho que ainda são minoria, mas a quantidade destes parece aumentar.
    Aqueles que estão na linha de frente dos debates, proposições, em sites, blogs, etc, estão sendo muito atacados por vozes discordantes dentro do movimento ateísta (como se já não bastassem os religiosos!). Mas não desanime! Eu apoio os movimentos apenas pela Web, através de debates, abaixo-assinados, pois não tenho tempo para me deslocar e comparecer pessoalmente às reuniões, passeatas, manifestações, de cunho ateísta. O que posso fazer eu faço! Apesar de sumir de vez em quando devido ao excesso de tarefas que possuo. Um abraço! Amigo!.

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