Paraíso

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Artigo submetido por um leitor do Livres Pensadores.


Não conseguia me recordar de nada. Não sabia se estava acordado ou sonhando. Lembro apenas de ter saído de casa para ir à padaria em frente a minha casa, escutei som de tiros e senti uma dor forte que me acompanhou até o momento em que minhas memórias deixam de existir. Não sei como foi que me atingiram, quem, ou de onde. Foi tudo muito rápido. Agora estava no que parecia ser uma utopia, não tinha visto o suficiente, na verdade nem compreendia nada, mas era essa a sensação inicial – que aquele lugar era perfeito. Tudo era claro, tudo era calmo, tudo fluía. Não muito distante e se aproximando lentamente, via um homem. Não havia nada de especial nele, exceto sua atmosfera. Tudo ao seu redor parecia harmônico, quase celestial. Se ele não fosse tão humano, arriscaria dizer que é um anjo.

– Bem vindo. – ele me disse – Como você se sente, Roberto? Tudo certo?

 – Bem. Mas o que aconteceu? – perguntei, sem nem pensar que ele acabava de dizer o meu nome, mesmo eu não fazendo ideia de quem ele era. A confusão era tanta que não pensei nesse detalhe.

– Ora! Você morreu. Ou deveria dizer nasceu? É uma questão complicada, venha comigo até o nosso escritório central. Lá são feitas todas as novas entradas. Também lhe será entregue uma nova identidade, roupas e função. Além de todas as explicações que sua mente busca, é claro.

– Roupas? – nesse momento percebi que estava nu o que de início me envergonhou, até, após inspeção mais profunda, perceber que algo mais me faltava, então minha vergonha tornou-se desespero e gritei – O que houve comigo?!

– Não se espante meu caro. Todos nós estamos na mesma situação. Não existe sexo no Paraíso, ordens superiores. Então na hora da morte, se somos escolhidos, perdemos nossos… Meios de reprodução, se é que você me entende.


Fui levado por ele até o tal escritório. Era um lugar não muito diferente de qualquer outra secretária pública, mas limpa e com aquela atmosfera de pura tranquilidade, que me acompanhava desde minha chegada. Fui recebido por uma bela moça que trabalhava na recepção. Ao vê-la notei que não seria fácil uma nova eternidade sem sexo, não fazia nem cinco minutos que estava lá e já sentia falta. Ela perguntou meu nome, o que fazia quando em vida e mais uma série de coisas, que finalmente me fizeram realizar de que estava morto, mesmo já tendo sido avisado. Saber da morte é completamente diferente de percebê-la como realidade. Com isso senti uma angustia tamanha. Lembrei-me de minha filha, minha esposa, até mesmo de meu chefe e companheiros de trabalho. Comecei a me sentir mal, quando meu “guia” apareceu e me disse:

– Acalme-se. Tente não pensar na sua vida na Terra. Tudo isso será apagado de sua memória assim que te apresentarmos a sua nova vida, a verdadeira vida.

– Como assim? Não me lembrarei de mais ninguém? E como você sabe no que estou pensando?

– Chegando aqui, todos pensam a mesma coisa… E não, não se lembrará de mais ninguém.

– Então não poderei ver meus pais?

– Poderá, mas vocês não se reconhecerão.

– Como você pode falar isso com tanta calma?! – comecei a me irritar.

– Quando você passar pelo processo de santificação irá entender. Por favor, siga em frente e não questione.


Foi o que fiz. A moça, cuja identificação em seu crachá era 1247, me levou até uma sala. Nela havia apenas uma cadeira, como a de um dentista, exceto por um dispositivo que foi colocado sobre em minha cabeça quando me sentei. Amarraram-me bem na cadeira, e ligaram a máquina.


Vi imagens de minha vida, como em um filme. Todos os momentos, do meu primeiro passo, ao tiro que deu fim a minha vida. Depois disso tive a chance de ver meus familiares e conhecidos, suas reações após minha morte. O sofrimento de minha esposa e de minha filha, assim como a completa indiferença de todo o resto. É verdade que nunca fui próximo da minha família, mas esperava alguma tristeza. Creio que todos esperamos alguma reação. Queremos ser amados na hora da morte até por aqueles que nunca amamos. Fui tomado por uma tristeza e solidão sem tamanho. Não mais os veria, não mais me lembraria deles. Em meio as minhas lágrimas, via minha esposa, nesse exato momento em nossa cama, chorando a minha morte, até que abruptamente sua imagem foi cortada. Após alguns instantes de completa escuridão, vi um homem, com o mesmo uniforme do meu guia, se aproximando lentamente. Então olhou para mim e começou a falar:

“Roberto, seja bem vindo a Paraíso. Sinto que sua mente está cheia de questionamentos, então, por favor, resolva-os agora. Farei o melhor que posso para ajudá-lo.”

– Deus? – perguntei admirado.

“Não, não sou eu o Grande Criador. Sou 0001, encarregado pelas apresentações e esclarecimentos aqui no Paraíso.”

– Certo, então estou no Céu?

“Em teoria. Este é o nome que sua raça dá a terra de recompensas que nosso Grande Criador prometeu as suas criaturas mais justas. O nome correto é Paraíso.”

– Entendo, mas sempre me entendi como um pecador. Não acho que um dia segui os mandamentos a risca ou sequer acreditei na palavra de Deus. Mereço mesmo estar aqui?

“Por favor, chame-o de Grande Criador. Deus é o nome que sua raça criou para designar qualquer criatura divina, responsável pelo desenvolvimento da vida em seu planeta. Mais tarde, com o passar da história, esse tal Deus, se tornou o criador cristão, contudo devo dizer que o cristianismo é apenas um dos vários mitos de nosso universo. O termo não faz justiça aos poderes do Grande Criador. Quanto ao seu merecimento, peço que não seja ridículo. Nosso sistema é perfeito, se você aqui se encontra, aqui merece estar. Sua ideia de pecado também é errônea. O homem justo é somente aquele que vive uma vida sem prejudicar aos outros, sem impor sua visão aos seus iguais. É aquele que compreende os limites de seu conhecimento, assim como sua imensidão, não se rendendo a qualquer um que promete uma eternidade tranquila em troca de uma verdade absoluta. Você verá, após o seu renascimento, quais os critérios para a entrada em Paraíso”

– E quanto a Jesus?       

“Um mito como todos os outros. Devo dizer que de todas as raças no Universo, a sua é uma das mais fracas e necessitadas de magia e misticismo. Vocês criaram um grande número de mitos, mas sinto dizer, que nenhum alcançou a realidade.”

– O que será feito comigo? O que farei aqui?

“Finalmente uma boa pergunta, digna de resposta. Simples, as memórias de sua vida serão apagadas por completo. Receberá uma identificação e uma função. Esta será de acordo com sua aptidão e conhecimentos, e terá como propósito, auxiliar Paraíso. Não haverá necessidade de preocupar-se com nada, não precisará mais comer, e não sentirá mais necessidades biológicas e afetivas. Não entenda, com isso, que não irá mais se relacionar ou repousar, mas os relacionamentos serão platônicos e o repouso somente para gerar energia para o trabalho. Todo o conforto e entretenimento lhe serão fornecidos, para que aproveite todos os instantes de sua nova existência eterna. Mais alguma pergunta?”

– Essa nova vida. É eterna?

“Sim. Esse é o significado de estar morto.”

– Por que temos essa primeira existência e por que fomos criados inicialmente?

“Essa resposta é desconhecida para todos nós. Somente o Grande Criador sabe responder e este nunca compartilhou este conhecimento com suas criaturas.”

– Verei um dia o Grande Criador?

“Não. Nunca o vimos, simplesmente seguimos suas ordens e cuidamos de suas criações. Está pronto para o processo? Sinto que não posso mais ajudá-lo.”

– Sim.

“Excelente. Faça-me o favor de relaxar então, para que possamos iniciar a destruição de seu antigo ‘eu’ e a construção do novo.”


Assim a máquina na qual me sentava deu início ao processo. Era indolor e aparentemente não trazia efeitos físicos. Apenas via as imagens da minha vida sumindo aos poucos, enquanto novas informações sobre meu novo “eu” as substituíam. Em alguns minutos, já não era Roberto, era 2222. Meu perfil se encaixava entre os de Observador. Esta tarefa, de nome autoexplicativo, baseava-se em passar horas em frente a uma tela, observando um determinado número de pessoas do nascimento a morte. Jurava que está tarefa seria apenas do Grande Criador, mas estava errado, éramos nós criaturas que fazíamos essa observação, assim como julgamento e recepção dos seres que deixavam sua primeira vida. O homem, que mais tarde descobri que se chamava 7845, foi meu observador. Por isso sabia meu nome e cada momento da minha vida, tendo decidido que seria enviado ao Paraíso e não ao Inferno.


Comecei minha tarefa imediatamente no dia seguinte. Era para isso que fui programado, na verdade, o fui de tal modo que realizava a tarefa como se sempre a houvesse feito. Mesmo sendo meu primeiro dia, já sentia uma sensação de rotina impressionante.


Fui encarregado de observar quatro recém-nascidos na Terra. Descobri mais tarde que existia vida em outros planetas e que não foi o Grande Criador que programou o Universo para que criasse a vida dessa maneira. Simplesmente deu início ao Universo e as leis da física. A vida ocorreu por acaso, simplesmente porque nas condições determinadas por ele, que ninguém conhecia a motivação, a vida seria gerada naqueles lugares específicos, contudo não havia nenhum sentimento especial do Criador por essa vida, ou interferência dele em seu cotidiano. Pelo menos, não que fosse de conhecimento das criaturas eternas, nome que dávamos para nós, habitantes do Paraíso, mortos vindos de todos os cantos com vida do Universo, elegidos pelos seus próprios habitantes.


Todas essas informações eram, para mim, fascinantes. Todos os dias, aprendia mais sobre o funcionamento do Universo e as variedades da existência. O único lugar que se mantinha um mistério para todos era o próprio Paraíso. Ninguém sabia por que seus habitantes eram os encarregados do julgamento da população universal. Após análise mais aprofundada, até descobri que não era só apenas a terra prometida pelo Criador para os justos, mas também o lar dos encarregados pela burocracia universal. Lá viviam aqueles que decidiam em que corpo nasceria cada alma, em que planeta, em que família e com quais condições. Uns cuidavam da parte mais pessoal, auxiliando seu “protegido” em horas de dúvidas e dificuldades. A intervenção não era direta, mas era eficaz e necessária. E o apoio não era só para os vivos, vez ou outra, um dos Eternos teria tido problemas durante o processo e repentinamente se lembraria de seu passado ou entraria em contato mental direto com seus parentes quando ainda em vida. Esse último trazendo problemas para os vivos também, que por alguns instantes acreditavam ter visto ou falado com seu ente querido falecido. Realmente estavam, mas não deveriam e, portanto, poderiam parecer loucos perante seus conhecidos e até enlouquecer realmente. Para isso existiam locais de tratamento emergencial, para que sua memória pudesse ser apagada, de modo que não apagasse sua nova identidade. Quando a falha era grave, era necessário criar uma nova identidade para essa vítima. Em alguns casos raros nem isso resolvia, por resistência da pessoa, que não queria perder essas memórias queridas, este era internado permanentemente, pois era considerado um risco para o bem estar geral. Como não sabíamos do que se tratavam as tais visões que estes tinham somente os considerávamos como loucos. Era uma situação triste, mas acontecia. Todos estavam suscetíveis e, em uma eternidade, não passar por alguns defeitos de memória seria impossível.


O expediente era igual ao dos humanos vivos, exceto no caso dos intervenientes, que precisavam estar atentos 24 horas. Estes, quando possível dedicavam dias a assistência. Eram indicados para este serviço apenas aqueles que tinham uma natureza mais generosa e altruísta, pois para isso era necessário eliminar uma vida pessoal.


Embora nossas relações fossem apenas platônicas, pois perdíamos todos os meios de reprodução quando morríamos, e não muito depois, todo o desejo sexual, era algo realmente necessário e apreciado entre alguns de nós. Passávamos horas nas casas um do outro conversando. Tínhamos acesso à arte e entretenimento de todos os mundos lá no Paraíso, então víamos filmes, líamos livros e ouvíamos música. A arte da Terra era muito apreciada, embora não fôssemos um mundo estimado por sua capacidade, inteligência ou avanço, nossa arte sempre foi surpreendente, mesmo sofrendo um crescente declínio nos tempos modernos, que não melhorou com o passar dos anos. Discutíamos cultura, política, economia interplanetária. Fazíamos previsões sobre os acontecimentos do Universo. Era muito agradável, contudo, como tudo que é eterno, entediante com o passar do tempo.


Tempo, esse era o fator mais fascinante após a morte. Completamente sem significado, ainda assim extremamente importante. Víamos o tempo passar entre os vivos com tanta velocidade, que não parecíamos perceber que o mesmo ocorria conosco. Provavelmente porque temos a tendência de ignorar algo que não nos faz falta, por isso nem percebi que os recém-nascidos que me tinham sido encarregados, já faziam dez anos de idade. Tinha começado a fazer anotações sobre os acontecimentos em suas vidas, desvios de caráter e problemas morais. Todas essas anotações eram enviadas aos Intervenientes, estes lhes tentariam ajudar. Em caso de sucesso, não haveria problema algum, se falhassem, teríamos que passar pelo momento mais triste na eternidade de qualquer observador, mandar seu protegido para o inferno.


Tudo que sabíamos sobre o inferno, vinha por meio de boatos. Não tínhamos acesso visual a ele, pois se imaginava que isso afetaria nossa capacidade de julgamento. Nenhum de nós era tão insensível para conhecer aquele lugar e ainda assim, mandar alguém para lá, por pior que fosse o ser.


O que ouvia era que o inferno não foi criado pelo Grande Criador e sim pelos moradores de Paraíso, que ao se virem forçados a assistir a vida no Universo, sentiam a necessidade de punir aqueles que não se comportavam de maneira apropriada de acordo com a moral de sua determinada sociedade. Então se reuniu um grupo que, por milhares de anos, trabalhou em desenvolver um maquinário capaz de criar um mundo, simular as habilidades do Grande Criador. Era arriscado, pois este poderia não gostar e punir o grupo, no entanto não houve qualquer reação durante a construção e, logo, o silêncio foi considerado consentimento. Após eras de trabalho árduo e quase ininterrupto, criou-se um mundo de sofrimento eterno. Não se sabe quais são seus métodos, nem quem são os responsáveis por aplicá-los, nem sequer se a história é verdadeira. Sabíamos apenas que, nos momentos finais de cada ser vivo, nós, os observadores, éramos os responsáveis por decidir se este iria ao Inferno, ao Paraíso ou renascer em outro mundo. O último era o mais comum, nem todos estavam preparados para conhecer o Paraíso ou mereciam a punição eterna, então este era mandado para a vida novamente, sem passado nem memórias, como uma segunda tentativa. Sinceramente queria que fosse isso que tivesse acontecido comigo, mas não foi. Meu observador achava que eu estava pronto.


Outro dia estávamos conversando, 7845, 1247, uma interveniente amiga de 1247, chamada 5656 e um colega observador, que dividia o escritório comigo, 3213. Discutíamos um filme que tínhamos acabado de assistir, feito na Terra, até que todos decidiram voltar para suas casas e ficamos somente 1247 e eu. Continuamos a conversar, até que ela me perguntou:

– Você leu o regulamento que eu te entreguei depois que você passou pelo processo? – tinha uma expressão em seu rosto que indicava que essa era apenas a introdução para uma discussão muito mais séria.

– Regulamento? Não me lembro de ter recebido nenhum?

– Como não? – perguntou com leve irritação – Entregamos sempre um regulamento para todo o recém-chegado, é seu dever lê-lo e guardá-lo.

– Sim, agora me lembro. O “Manual da Eternidade”. Recebi, mas sinto que ainda não o li. – realmente lembrei-me de tê-lo recebido, mas estava tão atordoado por causa do processo que cheguei em casa guardei-o em qualquer lugar e me esqueci completamente, mesmo após todos os anos que havia passado lá. Minha noção de tempo estava debilitada, pois os dias passavam de forma diferente no Paraíso e a eternidade não ajudava a conta.

– Por quê? Falta de tempo? – perdeu a seriedade e começou a ironizar – Não importa. O que eu quero saber é qual a sua opinião quanto à punição por pensamento?

– Do que você está falando?

– Você nunca julgou ninguém após a morte, Observador? – acenei com a cabeça indicando que não – Eu me esqueço de que você não está aqui há tanto tempo quanto eu. Sabe, a eternidade é mais complexa do que aparenta ser, temos todo o tempo do mundo, mas tudo passa tão rápido que parece que não temos tempo algum. Além do mais, nada muda, os dias se repetem, é como se todos esses anos fossem apenas um dia corrido. De qualquer forma, não quero me dispersar, você já saberia se tivesse lido o manual, mas como se esqueceu, eu vou tentar te explicar. Sempre que o ser que você observa morre, os intervenientes preparam um relatório com os principais pensamentos dessa pessoa, que eles têm a aparelhagem necessária para recolher, e enviam para o observador. Este lê os pensamentos e analisa a vida do falecido de acordo com os relatórios que você já faz, certo? – indiquei que sim – Feita essa análise, o observador responde um questionário padrão e, partindo dessas respostas, se é definido se o ser vai ao Paraíso, Inferno ou renascer. As perguntas do questionário são:

1) O observado morreu por causas externas ou suicídio?

2) Durante sua vida, teve algum vício que pode ter influenciado sua morte?

3) Desrespeitou alguma lei de sua sociedade? Quais e com que frequência?

4) Como era seu relacionamento com os outros seres de seu planeta?

5) Acreditava em um Criador, de qualquer espécie?

6) Referente a seus pensamentos e ideias, eram condizentes com o padrão comportamental que vemos como ideal? Responda com base em sua experiência no Paraíso.

– Essas são as principais perguntas. – continuou a explicar – Que fique claro que estas não foram desenvolvidas pelo criador e sim pelas criaturas eternas. Você não sabe, mas anos atrás, quando tinha acabado de passar pelo processo, houve uma grande reforma no Paraíso. Algumas das criaturas eternas, ao verem as atitudes imorais dos vivos, decidiram regulamentar os padrões de definição entre a vinda ao Paraíso e o renascimento. Antes disso, esperava-se uma reação do Grande Criador, mas este nunca reagiu, então ficava a critério do observador responsável. Com o tempo, passou-se a crer que a falta de punição era o problema, então se criou o Inferno. Agora, tornou-se visível que nenhum vivo é essencialmente bom, mas muitos reprimem sua natureza pelo bem da sociedade, enquanto outros apenas pelo bem pessoal, mantendo pensamentos imorais. Pessoalmente não vejo problemas nos pensamentos dos vivos, mas isso revoltou algumas das criaturas eternas e agora o pensamento também é julgado na hora da morte. O que você acha disso?

– Errado. – não tinha certeza se havia entendido a questão por completo, mas não concordava com a ação – Creio que pensamentos nem sempre são condizentes com as ações de um ser. Não temos controle sobre eles, então julgá-los é absurdo.

– Exatamente. É bom ver que não sou a única. Os outros que agora nos acompanhavam discordam completamente, acham até que as punições são muito leves. O problema é que agora querem criar uma máquina rastreadora dos nossos pensamentos também.

– Mesmo? – perguntei assustado, mas ainda assim descrente.

– Sim, pois alguns observadores mais sensatos, ao desenvolverem um ponto de vista como o nosso, mentem ao responder o questionário. Além disso, nós mesmos, eternos, não temos um pensamento essencialmente bom ou puro. Nossa essência se mantém, pois não temos certeza de nossa origem.

– Não foi o Grande Criador que nos criou?

– Costumava acreditar nisso, mas agora não sei. – começou a sussurrar – Não posso ser ouvida falando algo assim e você não pode falar dessa conversa a ninguém, mas estou começando a achar que o Grande Criador não é real.

– Como assim? – já estava confuso.

– Veja bem. Até onde sei, nem mesmo o Paraíso e a eternidade foram invenções do Grande Criador. Não sei ao certo e posso estar enganada. Criei um grupo de pesquisas, com mais três que compartilhavam das minhas suspeitas, infelizmente fomos fechados e dois de nós foram enviados ao Inferno por tornar suas ideias públicas, quebrando a lei da blasfêmia – não sabia da existência dessa lei, mas, aparentemente, era real. Nenhuma criatura eterna poderia declarar descrença ao Grande Criador -. Até onde vão minhas pesquisas, o Paraíso foi criado por seres de um planeta extremamente avançado, com o intuito de criar uma vida após a morte, dando-a um sentido. Foram eles também que desenvolveram o conceito de renascimento, mas ainda fica a dúvida quanto à origem do Universo. O mais estranho é que em nenhum momento os registros deste planeta mostram sobre o conhecimento ou mesmo a crença em um criador, por isso tenho essas dúvidas. Infelizmente, não podemos contatar os criadores do Paraíso, pois mesmo que seja possível descobrir quem eles são, e estes também são eternos, logo é possível que estes ainda se encontrem aqui, se eles foram sujeitos ao processo, se esqueceram de quem são e o que é o Paraíso. Essa ignorância repentina pode ser também a razão da origem da crença em um criador. Mas ninguém pode saber, escapei por pouco da punição e não quero ser enviada ao Inferno agora que estou tão perto de descobrir a verdade. Por isso preciso de sua ajuda. Juntos, temos que lutar contra essa fiscalização do pensamento, do contrário serei punida e meus estudos destruídos. É possível até que você venha comigo simplesmente por saber demais.

– Não se preocupe. Não falarei nada sobre isso a ninguém e te ajudarei no que for necessário.

– Obrigada. Sabe, às vezes observo os vivos e seus hábitos e vejo como são felizes quando estão juntos de alguém que creem ser ideal. Chamam isso de amor. Fico horas pensando se um dia já senti isso por alguém. Gostaria de ter essa oportunidade novamente.

– Pena não possuirmos mais essa capacidade.

– Até a próxima, 2222. Tenho que trabalhar agora.

– Até a próxima.

Ela saiu, e eu decidi me deitar um pouco e pensar em toda a informação que ela tinha acabado de me dar.


No dia seguinte, fui ao escritório, observar a vida de meus protegidos, mas pela primeira vez não tive a sensação que era mais do mesmo. Era como se as palavras de 1247 tivessem me despertado, quase como um novo processo em minha mente, mas sem o esquecimento. Fui cumprimentá-la na recepção, primeiramente, mas ela não estava lá. Pensava que teve que sair para resolver um problema ou simplesmente viria em outro turno.


Fui a minha sala, onde já estava 3213 assistindo seus protegidos. Um deles já estava envelhecendo e poderia morrer logo, então já preparava seu julgamento. Meus quatro recém-nascidos já estavam envelhecendo, mas ainda não pareciam próximos da morte.


Eram boas pessoas, dois homens e duas mulheres, humanos normais, nunca quebraram nenhuma lei, nunca fizeram mal a ninguém, pelo menos não que eu tivesse percebido. Os quatro tinham suas famílias, exceto por um deles, Jorge, que se divorciou ao saber que sua mulher o traía. Por sorte não tiveram filhos, ele era estéril. Possivelmente essa foi a razão dos seus problemas de casamento. Todos os outros viviam vidas comuns, comuns até demais na verdade, mas isso não era meu serviço julgar, poderia muito bem ter feito o mesmo quando ainda era vivo e não lembrar.


Após o fim do expediente, fiquei de me encontrar com 7845. No meio do dia ele me enviou uma mensagem por computador, pedindo para falar comigo, então fui até sua casa para conversarmos.


Chegando, ele me convidou para sentar em seu sofá. Sua casa era exatamente igual a minha. Apenas um cômodo, com um sofá, duas poltronas, uma cama, umas duas mesas, várias estantes de livros e a máquina central, que passava filmes e imagens de obras de arte conhecidas no Universo. Sentamos e ele começou a falar, levemente agitado, mas com um ar indiferente:

– Você viu?

– Vi o quê?

– A 1247?

– O que tem ela? Fale logo de uma vez. – comecei a me preocupar.

– Foi mandada para o Inferno, culpada por heresia. A louca aparentemente não acreditava na existência do Grande Criador.

– Como assim Inferno? Como é que eles sabem disso? Ela falou isso para alguém.

– Não, mas, escute bem. Você não ouviu isso de mim, ok?

– Ok, fale!

– Supostamente, estão começando os testes de uma máquina leitora de pensamentos. Ela foi escolhida para os primeiros testes. Graças a isso, descobriram uma série de estudos que ela tinha que “provavam” que tudo era uma grande conspiração de um planeta avançado e distante. – sua voz ironizava – Enfim, louca. Foi julgada e punida por heresia, afinal não se questiona o Grande Criador.

– Certo, mas foi Grande Criador que a julgou? Ele se manifestou de alguma forma?

– Claro que não, doido! Você realmente acha que o Criador se daria o trabalho de aparecer para julgar uma recepcionista blasfema qualquer? Claro que não!

– Mas se não foi ele que criou a lei da heresia, por que nós a obedecemos? Foi tudo criação dos eternos!

– Cuidado! Eu sei que você está brincando, ou, pelo menos assim espero. Mas se te pegam falando coisas assim, você é o próximo! Acredite em mim, você não quer ir para o Inferno, e nem eu, por isso te convido a se retirar. Era só isso que eu queria te dizer mesmo.


Despedimo-nos, e caminhei de volta para casa, pensando durante todo o trajeto. Não podia acreditar que a 1247 havia sido mandada para o Inferno. Sofria profundamente só de imaginar. Embora não soubesse o que realmente acontecia por lá, os boatos eram terríveis. Coisas insuportáveis que se acontecessem a um mortal morreria de dor em poucos segundos, para um eterno isso é inimaginável. Não conseguia parar de me culpar pelo acontecimento, talvez fosse nossa conversa que causou suspeita. Torturava-me mentalmente pelas ruas de Paraíso, sentindo a culpa de ter mandado uma inocente para o Inferno. Sentia uma forte vontade de chorar, mas não sabia como, nem entendia o sentimento na verdade. Não queria mais viver, a eternidade era insuportável. Em meio a minha angústia, subi as escadas da principal construção do paraíso, o templo do Criador, então, já no topo, desesperado, eu pulei. A queda foi longa, mas não morri, obviamente, nem mesmo um arranhão. Não tinha o direito nem de dar fim a minha própria eternidade. Era forçado a viver para sempre essa angústia, pensar que não só ela estava no Inferno, mas inúmeros outros, enquanto eu vivia em meio a estes animais que sentiam o direito de julgar um ser e condená-lo a uma eternidade de sofrimento. Qualquer um que compreende o conceito de eternidade e pior, tem a oportunidade de vivê-lo preferiria o nada. O completo fim da consciência que, embora angustiante na imaginação, é insignificante na realidade.


Assim me estendi, nas ruas límpidas do Paraíso. Vivo, embora quisesse morrer. Com a eternidade em meu futuro, embora tudo que buscasse fosse o fim. Olhei daquele ângulo as construções daquele lugar e percebi, pela primeira vez, que eram todas iguais, exceto pelo grande templo. Em todos esses anos, não tinha parado para observar minha “nova cidade”, minha vizinhança. Era tudo insuportavelmente igual, como as roupas, os dias, ou os pensamentos. Nada poderia ser diferente, por isso passei a viver automaticamente. Pouco importava e era melhor não pensar. Se a eternidade confortável era terrível, era melhor evitar, de qualquer maneira, a eternidade de tortura, mesmo que isso significasse a morte do pensamento.


Finalmente, morreu meu primeiro protegido. Estava fora do meu turno no momento de sua morte, então não parei para pensar qual deles era, ou quantos anos tinha. Depois de minha tentativa de suicídio, parei de contar os anos e lhes tinha perdido por completo. Por isso, ao ver o relatório da morte e dos pensamentos, me surpreendi ao ver que era Felipe, o divorciado. Tinha apenas quarenta e cinco anos, seu divórcio se passou quando tinha trinta. Não perdeu muito, financeiramente falando, mas sentia ter perdido a dignidade e a vontade de viver. Acreditava, realmente, que a amava e queria mais que tudo dar-lhe um filho, mas não podia e nada poderia ser feito. Foram a todos os médicos e fizeram todos os tratamentos. Um dia a pegou traindo-o com um companheiro de trabalho de Joana, sua esposa, contudo ela não parecia arrependida. Não era a primeira vez, tinha interesse em terminar o casamento, então parou de cobrir seus rastros e cuidar para que os dois não se encontrassem propositalmente. Sofreu naquela noite, e em todas as outras, até o momento final. Não sofria pela mulher perdida, mas pela incapacidade. Não se via com mais nenhuma mulher e, mesmo que visse, e até esteve com algumas, logo a imaginava o traindo, como um dia fez sua amada. Não é como se ele pudesse dar um filho as outras, então ligou para sua nova namorada, deixou um bilhete na mesa de sua sala, e deu um tiro em sua própria cabeça. Ela não conseguiria entrar, então, chamaria os vizinhos ou a polícia e eles encontrariam o corpo. Seria chocante para a moça, porém isso pouco lhe importava, já estaria morto até lá.


Suicídio era imperdoável aos olhos do Grande Criador, ou deveria dizer dos Eternos, já que o criador em si, nunca se manifestou quanto a nada. Contudo eu compreendia os motivos daquele homem. Era eu também um suicida, mesmo após a morte, como poderia condenar um homem por querer dar fim a sua própria existência? Se mentisse e dissesse no questionário que não foi um suicídio, mas sim um acidente, talvez pudesse salvá-lo, mas se a máquina de rastreio mental, cuja existência nunca foi confirmada, já estivesse funcionando, seríamos ambos condenados se eu mentisse.


O que poderia fazer? Era tudo inútil. Mesmo que eu me salvasse do inferno, conseguiria continuar meu tedioso cotidiano sabendo que duas almas foram para o inferno por minha culpa. Mas do contrário iria ao inferno só por causa de um senso de justiça distorcido? Tinha tanta coragem assim? O inferno poderia nem ser tão ruim, tudo poderia ser uma lenda para impedir os Eternos de quebrarem regras, mas para onde estávamos mandando aquelas almas, se não para o inferno? Não gostaria experimentar.


Foi em meio a todas essas dúvidas, que vi em minha mente uma figura feminina, de cinquenta e cinco anos. Familiar, mas ainda irreconhecível. Estava em um cemitério, entregando uma rosa a um par de túmulos. Sabia, pela paisagem que era a Terra, mas não saberia dizer quem era, ou porque a imaginava. Não sabia nem se a imaginava, poderia ser real, mas, se fosse, quem seria ela? Foi quando me lembrei. Lembrei-me de tudo, dos meus pais, da minha infância, adolescência, de minha esposa, nossos momentos juntos, o casamento, o nascimento de nossa filha. O dia. O dia que me despedi dela e saímos para trabalhar, cada um para seu caminho e, após o expediente, fui comprar o leite que ela tinha me pedido. O tiro. Lembrava-me de tudo, do buraco que ele fez, da dor, do sangue, do fogo. A senhora do cemitério não poderia ser minha esposa, era parecida, mas tinha alguns traços diferentes. Traços meus. Lembrei-me até de minha própria aparência, mesmo não me olhando em um espelho desde alguns anos antes da minha morte. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, enquanto eu tentava me recordar de seu nome. Isabel, é claro!

– Isabel! – eu gritava em meu escritório, que eu já não mais via – Isabel! – insistia já completamente imerso naquele cemitério.

– Pai. – ela respondeu, e levantou-se, e pôs a mão no peito – Pai? É você! – ela gritava em misto de terror e emoção, até que a dor que sentia a levou ao chão.


Outras pessoas que ali estavam, mas não me viam, corriam para ajudar minha aterrorizada e emocionada filha, enquanto eu assistia impotente, a sua partida. Levaram-na em um veículo. Tinha me esquecido também das ambulâncias, mas agora elas voltavam a minha memória. Sua sirene, que invadia o ambiente, e o clima de pressa e tensão que ela trazia consigo. Ouvia gritos e palavras sem sentido. Mas não prestava mais atenção. Somente chorava, enquanto os dias passavam e os túmulos em minha frente e onde estava, ganhavam uma nova companhia.

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Artigo submetido por um leitor do Livres Pensadores.

Paraíso, 10.0 out of 10 based on 1 rating

Autor(es):

Raphael Dias

Meu nome é Raphael. Não sou nenhum cientista, nem tenho grandes títulos acadêmicos ou a intensão de um dia ter. Sou um aspirante a escritor (aspirante, apenas) que depois de passar anos acreditando e estudando o espiritismo, percebeu que era tudo uma grande bobagem, assim como as outras religiões e deus em si. Todos os meus textos podem ser encontrados no blog - www.delirandoeescrevendo.blogspot.com.br - Não tenho visitantes assíduos, mas o mantenho atualizado mesmo assim, com contos e opiniões relacionadas ao que me vier na cabeça.

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