Pareidolia – O que é e porque nos engana

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Originalmente publicado na Revista Livre Pensamento, número 3.


Nesta edição da Revista Livre Pensamento, vamos falar sobre um fenômeno que tem um nome bastante estranho, mas que é, no fim, algo bastante simples de se entender. O fenômeno é a pareidolia.

Antes de mais nada, vejamos a descrição resumida que a Wikipedia nos fornece deste fenômeno:

“O termo pareidolia descreve um fenômeno psicológico que envolve um vago e aleatório estímulo (em geral uma imagem ou som) sendo percebido como algo distinto e significativo. Exemplos comuns incluem imagens de animais ou faces em nuvens, em janelas de vidro e em mensagens ocultas em músicas executadas do contrário. A palavra vem do grego para – junto de, ao lado de – e eidolon – imagem, figura, forma. Pareidolia é um tipo de apofenia.”

Você vê um cavalo onde não há cavalo algum.

Você vê um cavalo onde não há cavalo algum.

Aqui aparece mais um nome bastante estranho: apofenia. Vejamos, também, o que  significa esta palavra, segundo a Wikipedia:

“Apofenia é um termo proposto em 1959 por Klaus Conrad para o fenômeno cognitivo de percepção de padrões ou conexões em dados aleatórios. É um importante fator na criação de crenças supersticiosas, da crença no paranormal e em ilusão de ótica.

Inicialmente descrita como sintoma de psicose, a apofenia ocorre, no entanto, em indivíduos perfeitamente saudáveis mentalmente. Do ponto de vista da estatística, é um Erro de tipo I, ou seja, tirar conclusões de dados inconclusivos. Em um exame, pode levar a um resultado falso positivo. Psicologicamente, é um exemplo de viés cognitivo.

Ocorrências de apofenia frequentemente são investidas de significado religioso e/ou paranormal, ocasionalmente ganhando atenção da mídia como a impressão de ver Jesus em uma torrada.

No teste projetivo de manchas Rorschach, a apofenia é estimulada com o objetivo de identificar padrões significativos na vida do indivíduo que ele projeta sobre a mancha.”

Basicamente, então, a apofenia é a experiência de perceber padrões e significados em coisas aleatórias, com nenhum significado real. É, realmente, o nome dado pelo processo que nossa mente faz ao olhar para o caos e procurar sentidos. A pareidolia é, em si, exatamente isto, e é este o motivo pelo qual diz-se que ela é “um tipo de apofenia”.

A diferença básica é que a apofenia vai além do que é explicado pela pareidolia para englobar outros tipos de padrões, como até mesmo aqueles que acontecem por pura coincidência. Veja este exemplo, retirado também da Wikipedia:

“Imagine que o Brasil esteja jogando na Copa do Mundo, e após 4 jogos obteve-se os seguintes placares: 2×2, 3×1, 4×0, 2×2. Alguém com apofenia poderia ver uma relação ente os placares e deduzir que a soma de cada um dos jogos do Brasil sempre dá 4, e pressupor que a soma do placar do próximo jogo também será 4. O problema é que este vínculo não existe e o placar foi apenas coincidência.

O exemplo acima é bastante simples, e pode não seduzir ninguém a acreditar. É mais comum pessoas se sentirem atraídos por casos onde há complexidade na forma de se encontrar o vínculo apofênico, muitas vezes usando operações matemáticas de mais alto grau. Pode-se usar o quadrado dos números, raizes da soma, produtórios, sequência de Fibonacci, etc.”

Assim, a pareidolia se prende aos fenômenos visuais e auditivos, apenas.

Neste ponto, você pode estar se perguntando qual o motivo de nossa mente fazer todo este trabalho, de tentar encontrar padrões no caos. Mas isto, na verdade, é muito mais simples do que você pode imaginar. Imagine o seguinte cenário:

Você liga seu computador (não importa se roda Windows ou Linux), deixa que ele seja inicializado até que o desktop apareça. Então você pede que sua avó, que nunca mexeu num computador, se sente diante do seu PC e pede para que ela abra o navegador Firefox, por exemplo.

A pergunta que lhe faço é: ela conseguiria? Provavelmente ela simplesmente olhasse para você com cara de raiva, cuspisse em seu pé e saísse ralhando. Correto? Ainda assim, imagine que ela tope isto: depois de muitas tentativas, talvez ela até conseguisse abrir o navegador, mesmo fazendo tudo sozinha.

Contudo, a questão interessante não é esta, mas sim o motivo pelo qual ela não conseguiria fazer isto imediatamente. E é bem simples: ela não está agindo em uma realidade natural, mas sim em uma realidade criada pelo homem. Uma realidade bem diferente daquela na qual evoluímos (por mais que os desenvolvedores de software tentem deixar as interfaces o mais amigáveis possível).

Então, respondendo a questão anterior (sobre qual o motivo de nossa mente fazer todo este trabalho, de tentar encontrar padrões no caos), é que isto foi vantajoso em nossa evolução como espécie. Tivemos, primeiro, que diferenciar qual alimento era bom e nutritivo, daquele que era venenoso. Depois, aprender a escolher os melhores frutos a se colher (aqueles que não estivessem com bichos, por exemplo), ou qual seria a caça mais fácil de se pegar. Isto chegando até mesmo ao ponto de bebês que reconhecem e interagem com seus pais: há, sei lá, 150 mil anos atrás um bebê que interagia, sorrindo de volta para os pais, por exemplo, tinha maiores chances de conquistar a afeição de seus pais e, portanto, ser criado com sucesso. Isto garantia que a genética dos bebês, cuja mente faz todo este trabalho, fosse passada à frente, enquanto que a genética dos bebês cuja mente não fazia este trabalho não fosse.

Contudo, conforme nossa civilização avançou, criando a filosofia e, depois, a ciência, estes mesmos nossos sentidos foram exigidos para outras tarefas. Tarefas as quais, diga-se de passagem, nunca haviam sido necessárias antes e, portanto, para as quais não estávamos preparados. Por isto, é normal que ocorram erros e são justamente estes erros que chamamos de pareidolia.

Acho que ficará mais fácil de entender como a pareidolia se dá através de exemplos, e é por este motivo que passo a eles neste ponto.

Exemplos de Pareidolia

Face em Marte

A famosa Face em Marte é uma controvérsia que nasceu em julho de 1976, com uma das fotos tiradas pela sonda Viking 1 Orbiter. Nessa imagem em particular, havia algo que se parecia muito com uma face humana, que ficou conhecido como A Face de Marte. O que foi entendido por muitos como uma estrutura artificial, algo que teria sido construído por alguma civilização extraterrestre, que teria vivido em Marte, ou que teria passado por ali. Algo como a Esfinge, do Egito.

Pois bem, veja as duas imagens abaixo.

Face Collage

A imagem número 1 é a famosa face marciana. A foto número 2… Também é da face marciana, apenas girada em 180 graus. Para você, continua sendo uma face? Pois é, nem para mim.

A questão aqui é: a imagem número 1 contém ou não uma face? Claro que sim. Você reconhece isto, eu também. Contudo, isto não significa que tal face realmente exista em Marte – e, de fato, não existe.

Novas fotos foram tiradas posteriormente daquele mesmo local, comprovando que aquela figura não passava de pareidolia. Em outras palavras, era apenas um monte comum que, devido à iluminação do sol no momento em que a foto foi tirada, assim como à baixa resolução da câmera, acabou gerando uma imagem com aparência de uma face humana.

Veja abaixo uma foto mais recente deste mesmo monte, tirado pela Mars Orbiter Camera (MOC), da sonda Mars Global Surveyor (MGS), em 2001.

Face 03

Por óbvio, a controvérsia ainda não acabou. Talvez só acabe quando uma foto colorida e de alta resolução for tirada desta formação, ou talvez nem assim.

Santos ou Deidades em Objetos

Por mais absurdo que pareça, uma moradora do estado americano da Flórida, chamada Diane Duyser, conseguiu vender para um cassino um sanduíche que ela tinha feito há 10 anos pela bagatela de 28 mil dólares.

A questão é que em um dos pães do sanduíche tem o que, para muitos, é a imagem de Virgem Maria. Veja a imagem abaixo.

sanduiche queijo

Em uma outra história, um rapaz de 22 anos da Inglaterra estava enchendo a cara com alguns colegas em uma noite, quando ficou com fome. Então ele pegou algumas tiras de bacon, as colocou na frigideira e simplesmente esqueceu. Ele pegou no sono e só acordou quando o cheiro de queimado atingiu a casa inteira. Vejam o resultado abaixo.

jesus_bacon

E assim vai. Há potencialmente milhares de histórias como estas. O mais incrível é que tudo isto não passa de pareidolia.

Realmente parecem ter faces humanas nestes objetos, os quais pessoas religiosas identificam com figuras de sua crença (Jesus Cristo, Virgem Maria, algum santo, anjo, etc). Mas, de fato, não passam da nossa mente procurando por padrões no caos: se as imagens tivessem sido vistas por outros ângulos, talvez jamais teriam sido identificadas da forma que foram.

Enfim… Não há nada de “sagrado” nestas imagens. Nem Virgem Maria está no pão do sanduíche de queijo, nem Jesus está na frigideira queimada. São apenas manchas que, devido à forma como nosso cérebro funciona, nos lembram rostos humanos.

Isto sem falar na pareidolia auditiva. Um exemplo claro disto é o que acontece nas ditas “investigações paranormais”.

Imagem de divulgação do programa "Ghost Hunters" – "Caçadores de Fantasmas", em português – do canal SyFy, antigo SciFi.

Imagem de divulgação do programa “Ghost Hunters” – “Caçadores de Fantasmas”, em português – do canal SyFy, antigo SciFi.

O que eles costumam fazer é ir até locais “possivelmente assombrados” com pequenos gravadores de som, apertam o botão de gravação (Rec) e, então, passam a fazer perguntas (como se realmente existisse alguém ali para responder). Depois pegam o que foi gravado e “analisam” (ouvem o áudio, para ver se encontram algo, digamos, diferente). Tais trechos de áudio “diferentes” são usados, posteriormente, como “evidência” de que há algo paranormal – ou não – naquele local.

O problema é que tais trechos de áudio diferentes, tais “vozes do além”, na maioria das vezes, não são nada além de pareidolia auditiva. Para quem já assistiu ao programa (e recomendo que assistam pelo menos uma vez – nem que seja para rir das aberrações que eles fazem durante a “investigação”), tais trechos de áudio poderiam ter sido gerados por qualquer coisa, desde barulho feito pelas roupas deles ao se mover a barulhos do piso e coisas do tipo. Mesmo as melhores “vozes” que eles gravam são facilmente explicados por caixas de som muito bem escondidas, por exemplo.

Teste de Rorschach

Aqui algo interessantíssimo sobre a pareidolia visual. É que a interpretação do que as pessoas veem em manchas talvez digam muito mais sobre as próprias pessoas do que sobre as manchas em si.

Segundo a Wikipedia:

“O teste de Rorschach é uma técnica de avaliação psicológica pictórica, comumente denominada de teste projetivo, ou mais recentemente de método de auto-expressão. Foi desenvolvido pelo psiquiatra suíço Hermann Rorschach. O teste consiste em dar respostas sobre com o que se parecem as dez pranchas com manchas de tinta simétricas. A partir das respostas, procura-se obter um quadro amplo da dinâmica psicológica do indivíduo. O teste de Rorschach é amplamente utilizado em vários países.”

Uma das manchas de tinta simétricas poderia se parecer com esta:

rorschach

Veja, o teste de Rorschach é controvertido e não é minha intenção aqui defendê-lo. O importante aqui é destacar este trecho do artigo da Wikipedia sobre o tema:

“O teste de Rorschach, como todos os testes projetivos, baseia-se na chamada hipótese projetiva. De acordo com essa hipótese, a pessoa a ser testada, ao procurar organizar uma informação ambígua (ou seja, sem um significado claro, como as pranchas do teste de Rorschach), projeta aspectos de sua própria personalidade. O intérprete (ou seja, o psicólogo que aplica o teste) teria assim a possibilidade de, trabalhando por assim dizer “de trás para frente”, reconstruir os aspectos da personalidade que levaram às respostas dadas.”

Eu não sei se concordo com tal hipótese, mas uma coisa sei: tais manchas costumam revelar mais sobre a própria pessoa, mais especificamente sobre as crenças pessoais da pessoa, do que sobre a mancha em si.

Algo que se encaixa perfeitamente aqui é o caso de pessoas que, ao querer analisar fotos relacionadas à ufologia, dão zoom excessivo nas imagens até não sobrar mais nada além de manchas e, então, passam a querer dizer o que cada mancha é.

Conclusão

Nosso mundo moderno criou simbologias e significados excessivos para as coisas. Estamos dependendo mais do que se interpreta, do que o que as coisas realmente são. É por isso mesmo que, por exemplo, os símbolos passaram a ser padronizados ao redor do mundo. Exemplos são os sinais de trânsito, ou os símbolos de banheiro masculino ou feminino, etc.

Ainda temos logomarcas de empresas, ícones em computadores e tudo isto tem sobrecarregado nossa mente. Para piorar, começaram a surgir teorias da conspiração em torno de tais coisas, dizendo que uma certa empresa ou grupo quer “dominar o mundo” e coisas deste tipo. As pessoas começam a prestar atenção demais em detalhes que, muitas vezes, não têm qualquer significado.

Não apenas isto, mas nosso cérebro também nos prega peças, enxergando coisas onde elas não existem, ao procurar ordem no caos. Nossos sentidos estão sendo exigidos para tarefas às quais não estão adaptados, tarefas bem diferentes daquelas às quais eles foram exigidos durante nossa evolução como espécie, o que acaba, naturalmente, gerando erros.

Assim, devemos tomar muito cuidado antes de fazer afirmações baseando-se apenas naquilo que achamos estar vendo. Afinal, como já disse o sábio Carl Sagan…

“Com dados insuficientes é fácil errar.”
— Carl Sagan


Originalmente publicado na Revista Livre Pensamento, número 3.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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2 Comments

  1. Para mim a imagem 2 da face de Marte continua sendo uma face. Você não pode escrever o post imaginando que as pessoas vão perder a habilidade de compreensão só porque virou algo de ponta cabeça.

    Então se vc ver um amigo seu de ponta cabeça vai deixar de reconhece-lo como ser humano? Creio que não.

    O que quero dizer com isso é: não é só porque está de ponta cabeça que deixa de ter a forma de um rosto (a não ser para mentes mais pobres de imaginação). Mesmo que aquele formato seja uma mera coincidência, continua parecendo um rosto, independente do ângulo que se olhe.

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  2. A imagem 1 e 2, são as mesmas, logo, o que vejo na imagem 1 também verei na imagem 2! Não queira induzir os leitores a seguirem aquilo que você quer, isso se chama manipulação de opinião!

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