Pensem, meninas…
Artigo submetido por um leitor do Livres Pensadores.
Ensino Médio, intervalo, corredor, escadaria, confusão de pessoas, três alunas se aproximam, meio às pressas, estavam visivelmente incomodadas, duas delas com lágrimas nos olhos.
Resumindo ao máximo (ficou longo assim mesmo): o padre, na aula de religião, havia respondido de maneira irônica sobre algo que elas haviam questionado (uma delas era espírita, só para constar). Elas se sentiram ofendidas, e eu me lembrei imediatamente de quando era menino e perguntava coisas ao professor de catequese e de como eu também me sentia ofendido com as respostas “bíblicas” dele, por vezes tão infantis que, mesmo naquela idade, pareciam ofender minha pequena inteligência questionadora, guardadas as proporções.
Eu sabia que muitos desses alunos e alunas, que eu tão bem conhecia da convivência em sala de aula, eram inteligentes e questionadores. Mas se calavam, provavelmente porque não queriam problemas num colégio religioso e se calariam mesmo que não encontrassem respostas consistentes – porque nenhuma religião tem respostas consistentes, todas se baseiam em crenças, não são ciências, enfim, não podem mais do que isso.
Mas por que essas adolescentes me procuravam?
Porque sabiam que eu não tinha religião, mesmo que eu não declarasse isso em público, e sabiam também que podiam falar abertamente comigo.
Elas gesticulavam, nervosas, um pouco de raiva, um pouco de decepção, um pouco de tristeza… – quem não teve 15 anos e não se sentiu excessivo em seus sentimentos?
Eu disse a elas mais ou menos isto:
“Não acreditem no padre. Pensem por si mesmas. Não acreditem no pastor, não acreditem nos teólogos, não acreditem no que eles dizem. Pensem. Vocês são inteligentes (e eram mesmo) e podem pensar sempre. Usem sempre a cabeça, a lucidez, a razão, a consciência. Nunca deixem de pensar. Deixem o padre dizer tudo que ele quiser. Não acreditem. Pensem.”
E acrescentei, para distraí-las, com cumplicidade: “E não contem à freira que eu estou ensinando vocês a pensar, olha lá, hein?”
Sim, elas voltaram a sorrir, fiz minha boa ação do dia.
É o que posso fazer de mais honesto nesses momentos: jogar essa semente, de sempre pensar, com grandes esperanças de que alguns deles consigam deixar os rebanhos e não caiam na vala das superstições que as igrejas, solenemente, ensinam como verdades.
(Muitos desses alunos e alunas ainda têm contato comigo nas redes sociais, o que sinto como gratificante.)
Postado por Perce Polegatto
Artigo submetido por um leitor do Livres Pensadores.
Pensem, meninas...,



































