Por que o universo não pode ter surgido por acaso?

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Autor: Jeronimo Freitas      Revisor: Leo Lauria       Fonte Parcial: Blame Hitchens, visit this Dawkins & Harris – Essays of a New Atheist

O texto abaixo junta uma tradução que fiz do artigo A billion flushes in a row, rx publicado no livro Blame Hitchens, and Dawkins & Harris – Essays of a New Atheist, à minha própria opinião (baseada nas mais recentes teorias científicas) sobre a origem da vida, que pode ser estendida à origem do universo.

 

Vamos supor que um chimpanzé, digitando aleatoriamente em um teclado de computador, escrevesse a seguinte frase: “jesus loves apes” (Jesus ama os símios).

 

Qual seria a probabilidade de que ele escrevesse tal frase? A resposta é: uma chance em 79.77 sextilhões (1/79766443080000000000000). Nós certamente somos tentados a achar que, caso isso ocorresse, teríamos presenciado algum tipo de intervenção divina, posto que é algo que nos parece impossível de acontecer por mero acaso. Ademais, o fato de o chimpanzé escrever “jesus” sugeriria a interferência do senhor Jesus Cristo.

 

Vamos supor agora que o chimpanzé, ao invés de digitar aquilo, digitasse: “akbsj nq zzm utt”. Qual a probabilidade de ele escrever tal frase? A resposta é: uma chance em 79.77 sextilhões (1/79766443080000000000000). Novamente acharíamos que haveria uma intervenção divina nessa ocorrência, posto que a probabilidade de que ele digitasse esta frase, aleatoriamente, seria igualmente irrisória. Não há dúvida de que o chimpanzé foi assistido pelo deus Utt, que habita um planeta localizado nos confins da galáxia Andrômeda. Na verdade não importa o que o chimpanzé digite: Se contiver 16 caracteres (14 letras e dois espaços) a probabilidade será sempre a mesma, e a atribuição a uma intervenção divina poderá então, segundo alguns, ser justificada.

 

Essa probabilidade é calculada da seguinte maneira: Partindo-se do princípio de que haja 27 caracteres num teclado de computador (26 letras e a barra de espaço), não importa qual das teclas ele pressione, a probabilidade disto acontecer será de 1/27. Como o chimpanzé digitou 16 caracteres em cada um dos exemplos acima, a probabilidade total, em ambos os casos, é (1/27)^16; ou seja, 1/27 multiplicado por ele mesmo 16 vezes.

 

A verdade é que não houve intervenção divina em nenhum dos dois casos. Entretanto, no primeiro exemplo, os criacionistas vêem intervenção divina pelo simples fato de reconhecerem os caracteres aleatórios “Jesus loves apes”. No segundo caso os Utts vêem intervenção divina pelo fato de reconhecerem os caracteres para nós aleatórios “akbsj nq zzm utt”.

 

Esse é um erro comum que a maioria das pessoas (e provavelmente dos extraterrestres) comete. Quando identificam um resultado tido como desejável, erroneamente concluem que a probabilidade da ocorrência deste resultado específico deva ser menor do que a probabilidade de qualquer outro resultado aleatório desprovido de um interesse ou significado específico. As pessoas em geral  também costumam confundir a probabilidade de algo NÃO acontecer com a probabilidade de que um determinado evento venha a ocorrer.

 

Por exemplo, a probabilidade de um raio NÃO atingir você é muito próxima a 100%[1]. Entretanto a probabilidade de um raio atingir um lugar distante no meio do nada é a mesma que a de um raio acertar a sua cabeça. O que você me diz então da probabilidade de que dez raios acertem a sua cabeça dez vezes seguidas? Certamente Zeus estaria lhe castigando por adorar o falso deus de Abraão?

 

Não necessariamente. A probabilidade de raios acertarem a sua cabeça 10 vezes seguidas não é menor do que a de cada um deles acertar dez outros lugares quaisquer (o mesmo lugar dez vezes ou dez lugares distintos, uma vez cada) no meio do nada. A lógica é a mesma.

 

As pessoas tendem a dar mais valor a certos eventos do que a outros. Quando nós conseguimos dez royal flushes[2] seguidos jogando pôquer, logo pensamos: “-Poxa, que sorte!”. Bem, quaisquer dez outras mãos que tivéssemos recebido teriam a mesma probabilidade de ocorrer.

 

O que dizer então sobre a probabilidade de recebermos um trilhão de mãos com royal flushes uma atrás da outra? Certamente somos levados a crer que haja algo estranho acontecendo nesse caso. Na verdade não há. Um trilhão de royal flushes seguidos não violariam as leis da probabilidade. O que seria estranho seria tirarmos um trilhão de mãos que não fossem royal flushes e elas, num passe de mágica, se transformassem em royal flushes.

 

Já que você leu até aqui, vamos agora testar o seu conhecimento sobre o acaso. Suponha que você esteja jogando pôquer e você NÃO receba um trilhão de royal flushes. Ao invés disso você recebe um trilhão de mãos com combinações mais fracas. Qual é a probabilidade de isso ocorrer? Resposta: a mesma probabilidade de receber um trilhão de royal flushes um atrás do outro.

 

Não é porque desejamos de antemão que um determinado evento em particular ocorra que a sua ocorrência deva ser considerada um milagre ou que devamos considerá-la menos provável do que a ocorrência de um evento que não seja do nosso interesse. Isso também serve para eventos repetidos em sequência.

 

 

Lendo o texto acima eu gostaria de estender esse raciocínio, aplicando-o ao surgimento da vida na sopa química dos oceanos primitivos. Elementos químicos bombardeados intermitentemente por descargas elétricas esbarraram uns nos outros aleatoriamente por centenas de trilhões de vezes incessantemente durante centenas de milhares de anos, ora se repelindo ora formando compostos mais complexos. Das dezenas de milhões de combinações aleatórias resultantes, uma, ou algumas poucas, originaram o que podemos chamar de royal flushes da vida nesse jogo de pôquer, os primeiros ácidos aminados ou aminoácidos. Outros tantos milhões de combinações, sem interesse para a formação da vida também se formaram, mas estes não chamam a nossa atenção. Centenas de milhares de anos se passaram com os aminoácidos se esbarrando ao acaso, sem nada de especial acontecer, até que determinadas combinações deram origem os ácidos ribonucleicos e desoxirribonucleicos, as primeiras substancias que tinham a peculiaridade de se auto-replicar. São estas as bases das proteínas, moléculas que funcionam como os tijolos dos tecidos vivos.

 

Os teístas acham que a probabilidade de uma combinação aleatória de elementos químicos formar ácidos aminados (um evento desejável, em retrospecto), é menor do que a probabilidade de formarem outras moléculas que não têm interesse para a vida. É impossível reproduzir esse modelo primitivo em escala global, já que necessitaríamos da ocorrência de centenas de trilhões de eventos (ainda que Miller o tenha reproduzido em escala reduzida), para que assim pudéssemos chegar a ter uma seqüência do tipo desejável, “Jesus loves apes”. Porém, ao constatarmos que dispomos dispersos em nosso planeta dos mesmos elementos químicos que formam os aminoácidos e ao constatarmos que todas as formas de vida da Terra têm como base com os mesmos compostos orgânicos, organizados em ácidos ribonucleicos e desoxirribosnucleicos, podemos sem esforço deduzir que a vida tenha surgido a partir deles.

 

Ao examinarmos as camadas geológicas, encontramos sequências de fósseis dispostas em ordem cronológica, numa seqüência que vai de baixo pra cima dos menos complexos aos mais complexos. Vemos também que as proteínas de todos os seres vivos existentes e extintos são formadas da mesma forma que as nossas, contendo inclusive genes em comum. Mesmo assim ainda há quem  insista em dizer, sem contudo apresentar nenhuma evidência, nem mesmo questionável, que a vida foi simplesmente criada por deus, num passe de mágica. Como mencionei em meu outro artigo (Sobre a origem das coisas); por que o fato da vida e do universo terem surgido de combinações aleatórias deveria parecer menos plausível do que a vida ter sido criada por um ser sobrenatural de cuja existência não se tem qualquer evidência? A resposta, no caso dos teístas, é a necessidade consciente ou inconsciente de se justificar as besteiras escritas nos textos sagrados. Uma outra resposta, dessa vez no caso dos deístas, seria a incapacidade que certas pessoas têm, muitas vezes por simples falta de informação, de dissociar o pensamento de um inconsciente antropocêntrico de causa e efeito, criador e criatura.

 

[1] (Nota do tradutor) Supondo que você não esteja abrigado dentro de casa, mas que esteja em lugar aberto.

 

[2] Um Royal Flush é uma mão de pôquer (5 cartas) composta de Ás, rei, dama, valete e 10, todas do mesmo naipe.

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Autor(es):

jeronimo

Recifense, radicado em Bruxelas desde 1998. Biólogo com doutorado em Ecologia Humana. Apaixonado pela natureza. Defensor da ciência e do uso da razão. Ateu, humanista e secular, vice-presidente da Organização Livres Pensadores. O principal motivo que me leva a escrever artigos sobre ceticismo e ateísmo é poder fazer uso da minha experiência como cientista e cético contribuindo assim para o combate aos males causados pela superstição, pela crença irracional em divindades, o uso da fé dogmática como um guia moral em detrimento ao uso da razão e pela ignorância científica.

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7 Comments

  1. Apenas parabenizando pelo artigo.

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  2. Obrigado popr me fazer pensar.
    Mas tenho que te lembrar que a propria racionalidade,a dita razão,é um compondente essencialmente bastante subejetivo,pois a reflexão é o seu palco, E o mundo ja têm mudado e muito quanto À necessidade de se aderir a ideais somente e tão somente científicos,como se ver nos novos paradifgmas da conciencia que,com a propria ajuda da ciencia,têm ajudado a operar uma mudança,ou melhor ainda,ainda uma predisposição à mudança: da valorização do exercicio da mentalidade análitica a tambem valorização do exericio da mentalidade sensitiva,obejtiva tambem,mas essencialmente sensitiva e observadora. Pois,sem esse segundo fator,tão relegado,pelo qual apontava primariamente a essencia ~da religião,o que secostuma definir como espiritualidade,é esse componente subejetivo e sua valorização de forma cientifica: pois somos seres frágeis e essencialmente mais sensitivos do que ”racionais” – pois a racionalidade é de fato so um componente secundario(vemos isso por exemplo na criança tenra).
    Por isso é que eu afirmo que a sensibilidade da emoção,do estar agora,do sentir-se e entender-se é algo supremo para a criatura humana: a única coisas que trara o que estamos buscando de fato.
    Sei que no caso,do autor a quem tb me dirijo,ele se envolve co m causa humanitarias,isso é otimo,meu ideal tb é esse,mas a essencia da existnecia é naturalmente a-linguistica, a-conceitual. E o homem so aprendeu a analisa-la e aprende-la ,padronizando-a em sua mente como algo eterno,e ,conforme ele cria essa teia de conhecimentos,ele esquecer de apreender o novo presente em cada momento de sua existencia: pois não lhe foi ensinado como faze-lo e como se tornar mais sensitivo,mais observador…
    Por isso é necessário que ”nos tornemos crianças novamente ”,para em prejuizo,não dos sistemas velhos,que também são uteis,mas do nosso apego,a ele,possamos molda-los costantemente à nossa realidade e sermos de fato ”felizes a todo instante”(ideal yogue) e inclusive desenvolver para melhor os sitemas velhos e pARa isso aprendendo a intruir e a ser instruido(para mim esse é o ponto capital do aprendizado humana);
    Pois nos ainda somso verdadeiros assaltadores de consciencia,queremos iludir o outro,domina-lo com nossas crenças e concepções; e aos que são nosso comuns,a esse repeito,permanecemos numa conversar auto-ilusiva em que se cria a ilusão de intereção com o outro – é algo na verdade parcialmente interativo,mas princpipalmnete auto ilusoria…
    Enfim,não quero encher esse blog…

    Tb não possso terminar com ”QUe Deus Te Abneçoe” mas farei ” Que a Inteligencia(não somente a racionalidade(conceitos são limitados)) Te abençoe”!

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  3. Agora,indo mais alem,como se prova a exitencia ou não de Deus se podemoas penserceber que há ou houve uma intelegencia a anima as primeiras combinações atomicas e as pirmeiras” sopas quimicas”. E por outro lado,como elas surgiram,pois o nada não cria tudo… Tudo bem-o Acaso pode crialos- mas este acaso simplesmente não criaria se não fosse um DEUS-ACASo,com uma inteligencia e ou uma vondade Deliberada : essa deliberação foi o acaso…

    É claro que Deus é so um conceito,mas,deduzindo racionamente podemos entender que a logica da precedencia das causas é a unica aplicavel e aqui sempre aplicamos para resolver o misteiro cientifico da existencia da mateira,… Não é mesmo???

    Gostaria que fosse possivel postar esse 2 comentarios,pois pelo proprio pretesto no moe do blog ”livrespensadores” vê se que cabe uma discurssão mais acalorada quanto a natureza do que esta sendo dito pelo criador do blog:
    é a natureza da racionalidade grupal : pesquisar,discutir,para depois compreender – quem quiser que julkgue por si e que forme sua opnião.pois tambem temos que assumir responsabilidade por tudo aquilo que dizemos e fazemos na internet,deixando os outro livres para opnar…
    Alguma contestação a minha teoria: meu email ja esta embutido…

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    • Yuri,

      Antes de tudo, obrigado pelo seu interesse.
      suas indagações são normais e perfeitamente compreensíves. Eu as debati faz 20 anos, quando me encontrava provavelmente onde você se encontra hoje. Desde aquela época decidi estudar vesses assuntos com mais profundidade. eu não vou agora voltar a todos aqueles debates, mas vou te passar outro artigo meu qiue talvez te ajude a esclarecer algo. Por favor, leia-o e releia-o com atenção antes de comentálo: http://bulevoador.haaan.com/2011/02/20190

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  4. Ps.: o criacionismo catolico não é o unico existente,mais existem teroria s que unem a evolução natural dos seres vivos(sa ”sopa quimica ” ate o homem) com o criacionismo- algo até bem plausivel.Mas que de fato,não é tão importante,por enquanto pelo menos(ate onde se sabe),para a nossa vida na terra.
    Os espíritas(espiritismo) endossam essa teoria,mas sua principal proposta é na verdade um comprometimento com o desenvolvimento da inteligencia,pela razão da ciencia e pelo sentimento,para que se tenha mais responsabiilidade e abrangencia ao lidar com a sociedade! Para mim é algo completo!

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  5. Eu agradeço a compreensão.
    Mas,apesar de o tema aqui debatido se tratar tb da existencia de Deus,o foco da minha resposta é mais na nossa capacidade de perceber a realidade e apreender cada momendto da exiswtencia como nova. Sei que fujo do tema,mas esse ponto pra mim é a principal revolução e,apesar de usar de palavras,se trata de algo não restrito a linguagem,é algo realmente sensitivo.
    Como ja tratei em outros artigos eu tenho tratado de fato a respeito da MEDITAÇÂO: o único ”sistema” de fato antisistema,antidogmatico, capaz de criar um vazio criativo,onde o conhecimento fica de fato no 2 plano como intrumento,para dar maior vasãop aos pormenores da realidade. E nesse extase nos entendemos e compreendemosw o que de fato é a felicidade que op homem tanto busca.
    Afirmo eu que ha uma ciencia de auto burilamento que se faz por si so ,no homem,ao longop do tempo,mas que pode ser acelerada cabalmente pela meditação..
    ] p Posso dizer que ela é a ciencia do predominio da criatividade,e criatividade é algo que não esta restrito à formas conceituais (mas pode usar delas).
    A ciencia é boa – nos da conforto e nos esclarece(apesar de eu achar que o cientificismo se parecer mais com um religioso fanatico tentando arrebanhar fieis).
    So que para se resolver de fato todo o problema humano é necessário tb a investigação própria… Pra muitos isso parece extremamente incomum e talvez ate religioso,mas é porque ainda não aprenderam a entrar em estado de insight onde se pode avaliar o nosso extremo dogmatismo consciencial ao lidar como o alheio e com os conceitos mundanos – porque a necessidade tão grande de mudar o outro?
    Esse ”amor” pela verdade não estaria um tanto cego pela sua propria obssessão por ele?
    é o mesmo principio dos fanaticos religiosos…
    e tal como eles,há que se tomar cuidado…
    Mas se pensarmos bem o que eu proponho é um cientificismo investigativo conciencial,pela meditação,pela introspecção, algo que corrobora e muito com o cientificismo da ciencia,porem que deixa de querer impor ao outro seus conceitos: cada um vera por si mesmo os progressos da ciencia – somos todos dotados de razão e não cabe a ninguem se achar superior ao outro,por causa de seus sitemas de pensamento,e achar que o outro esta nadando no lodo.
    O que vale mesmo para a existencia humana é a estima por si mesmo,o seu amor proprio, a tentativa de dominar os outros pelo pensamento,pelas elucidações mentais é simplesmente mais um sistema que pairam nas mentes dos homens,que necessitam de um consenso social para não se sentirem loucos..
    Pregar o consnso cientifico como unica forma de pensamento tb seria negar todo o progresso que se fez no estudo da subjetividade e da liberdade individual..
    Que cada um avalie o seu instito normativo,de normose, e compreenda que não lhe cabe mudar o outro….
    E com o desenvolvimento da propria percepoção as atitudes diarias se tornam mais concientes e aos poucos nossa autonomia é restaurada e deixamos de nos preocupar tanto com o outro,na tentativa de ser aceito pelo rebanmhop,ou,ao contrario,de arrebanhar mais gente para o nosso!
    .(…)

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  6. Gostei do Blog. Brevemente vou postar nele se for possível

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