Porque é tão importante investir em ciência

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Sempre que se fala em aplicar mais em educação, no Brasil, muita gente torce o nariz, como se dissesse “pra que isto?”. A mesma coisa acontece quando se fala em investimento em ciência e tecnologia.

Eu concordo que o Brasil tem muitos problemas, dentre eles alguns extremamente urgentes de serem resolvidos: saneamento básico (há bairros inteiros sem água ou esgoto encanado), infraestrutura (portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, etc, para que a produção nacional possa ficar mais barata tanto pro consumo interno, quanto externo), saúde, etc. Sei de tudo isto, mas, ainda assim, a ciência, tecnologia e (principalmente) a educação são importantíssimas.

Eu poderia escrever aqui indefinidamente, mostrando que quando a educação melhora (e, por tanto, o nível educacional da população sobe) a qualidade de vida (IDH) da população melhora, que corrupção diminui, etc. Mas não farei isto e por três simples motivos:

  1. Tem inúmeros textos pela internet demonstrando isto;
  2. Acho que, de tanto falar sobre isto (até na TV), todos já devem estar carecas de saber;
  3. Não tenho paciência para pesquisar o tanto que seria necessário para, ainda por cima, ficar um texto gigantesco, enfadonho e que ninguém leria.

Ao invés disto, vou mostrar alguns dos riscos de não fazer isto. Formas pelas quais nós poderíamos ser eliminados da face da Terra (isto se toda a vida da Terra não o for) e como a ciência pode evitar isto. Um detalhe adicional: se você pensou nas diferentes formas de doenças e na medicina, errou feio.

Explosões de massa coronal

Nosso sol tem um péssimo hábito, que é o de ejetar massa de sua coroa solar de vez em quando. O processo é associado com enormes mudanças e perturbações no campo magnético coronal.

Estas ejeções (CME – Coronal Mass Ejection) são causadas por um processo chamado “reconexão magnética”, que é um rearranjo de linhas de campo magnético, que ocorrem quando dois campos magnéticos de direções opostas são reunidos. Este rearranjo é acompanhado de uma liberação repentina de energia armazenada nos campos originais em direções opostas.

“E daí?”, você perguntaria. Bem, o problema é o que tais CMEs poderiam causar. O material ejetado é um plasma, composto principalmente de elétrons e prótons, com pequenas quantidades de materiais mais pesados (como hélio, oxigênio e até ferro). E, por ser um plasma, tais materiais são eletricamente carregados: portanto, conforme a quantidade e força do CME, poderia trazer problemas (mais ou menos graves) para nossos sistemas elétricos e eletrônicos.

Apenas como exemplo, vejam o que ocorreu em 1859 (da Wikipedia):

Entre 01 e 02 setembro de 1859, a maior tempestade geomagnética registrada ocorreu. Auroras foram vistas em todo o mundo, principalmente sobre o Caribe, também digno de nota foram aqueles sobre as Montanhas Rochosas, que foram tão brilhantes que seu brilho despertou garimpeiros, que começaram a preparar o café da manhã por pensar que já era de manhã. De acordo com o professor Daniel Baker, do Laboratório para Física Atmosférica e Espacial da Universidade de Colorado, “as pessoas no nordeste dos EUA puderam ler o jornal apenas com a luz da aurora.”

Os sistemas de telégrafo de toda a Europa e América do Norte falharam, em alguns casos, até mesmo dando choques em operadores de telégrafo. Postes de telégrafo lançaram faíscas e papeis de telégrafo pegaram fogo espontaneamente. Alguns sistemas de telégrafo apareceram continuar a enviar e receber mensagens, apesar de terem sido desligados de suas fontes de energia.

A questão é: o que aconteceria se uma CME desta magnitude acontecesse hoje? Bem…

  • Grande parte dos satélites (senão todos) queimariam ou ao menos deixariam de funcionar. Nada mais de GPS, TV por satélite e até mesmo telefonia (já que parte das ligações são passadas por satélites).
  • Postes de eletricidade soltando faíscas: toda nossa rede de energia seria desligada instantaneamente. Apagão total. E não seria tão simples religar tudo, pois muitos dos equipamentos (como transformadores e até mesmo coisas mais simples) seriam queimados. Ficaríamos assim por meses.
  • Boa parte dos equipamentos conectados à eletricidade seriam queimados e até mesmo alguns não conectados (devido ao campo eletromagnético presente na atmosfera).
  • Carros modernos, com injeção eletrônica, esqueçam. Foi.

O detalhe mais importante aqui não é “se” uma CME destas voltará a ocorrer, mas quando e se estaremos prontos até lá.

Isto tudo não nos eliminaria imediatamente, verdade. Mas nos jogaria num mundo que não estamos habituados: aquele de antes da invenção da lâmpada. Por meses, talvez até anos. Imagine o caos que se formaria: saques de supermercados por todo lado, a água não chegaria às torneiras de muitas casas (pois é bombeada – com bombas elétricas – para chegar a pontos mais altos), desabastecimento de tudo e qualquer coisa. O caos. Daí a começarmos a nos matar, seria um pulo. Há até mesmo documentários a este respeito. (E se você acha que estou exagerando ou sendo alarmista… Assista-os.)

Ou seja: antes mesmo que pudéssemos religar tudo e o sistema, como um todo, pudesse voltar a funcionar, a população mundial teria sido reduzida drasticamente. Não só devido a uns matando aos outros, mas também devido à fome, sede, doenças, falta de um tratamento médico adequado (afinal, muitas das máquinas – inclusive de exames clínicos – usadas hoje em dia em hospitais são elétricas), etc.

Agora vamos à parte boa da coisa, isto é, o que a ciência pode fazer para evitar tudo isto: estudar o Sol de forma mais próxima, procurando entender como as CMEs acontecem e tentando prevê-las. Não só isto, ao vermos uma ocorrendo, ainda temos 4 a 5 dias antes das partículas ionizadas chegarem à Terra, portanto teríamos algum tempo para tentar nos proteger.

Além disto, a ciência ainda pode criar mecanismos que protejam nossa rede de transmissão de energia, de forma que não seja prejudicada. Isto sem falar, é claro, de criar formas de construir satélites imunes a CMEs como estas.

O que o Brasil faz em relação a isto? Pouco, muito pouco mesmo. Quase nada. Temos mais astrônomos amadores, trabalhando da forma que dá e em seus tempos vagos, sobre este tema.

Colisões

Nosso Sistema Solar está longe de ser um lugar calmo, como se imaginava até três décadas atrás. Existem milhares, talvez bilhares, de objetos zunindo pelo céu o tempo todo. Neste caso, falo especificamente de asteroides e cometas.

Você já deve ter visto notícias de asteroides que foram descobertos pelos cientistas apenas dias antes de passar zunindo pela Terra, não é? São os chamados “raspões cósmicos”. Isto acontece e, infelizmente, continuará acontecendo por um bom tempo. Não sabemos quais são, quais os tamanhos, posições ou órbitas de todos os asteroides que passam próximos à Terra.

Há uma corrida internacional para encontrar tais objetos. Os principais projetos são o NEO (Near-Earth Object), que é americano, e o OCA-DLR Asteroid Survey, que é europeu. Mas há duas grandes dificuldades em encontrar tais objetos, pois eles são pequenos (portanto o brilho é fraco, são extremamente difíceis de enxergar, mesmo com os melhores telescópios) e quando estão na sombra da Terra então, piorou: não terão a luz do Sol para refletir, então não poderemos enxergá-los.

Apenas para exemplificar, assista ao vídeo abaixo. Ele mostra os asteroides descobertos entre 1980 e 2010. (Os asteroides são os pontos verdes).

Você pode observar no vídeo como há um padrão de onde os objetos vão sendo descobertos, que acompanha a sombra da Terra.

Bem, “E daí?”, você pergunta. Daí que os dinossauros foram extintos devido à queda de um asteroide. Lembram-se? E uma queda destas pode acontecer novamente. Mais que isto: pode acontecer a qualquer momento.

O que a ciência pode fazer por nós? Encontrá-los, oras. Pois a vantagem de descobrir tais objetos antes que eles nos atinjam é imensa. Um asteroide poderia ser encontrado anos antes de nos atingir, portanto teríamos tempo até mesmo de pensar em como nos defender de tal objeto.

Cometas são mais complicados, afinal veem da Nuvem de Oort, que é extremamente distante: fica bem depois da órbita de Plutão (e olha que mal conseguimos enxergá-lo). Além disto, eles apenas se “ascendem” (sua cauda se forma – o que é bem maior que o objeto em si e reflete muito mais luz ficando, assim, mais visível) quando o cometa adentra o Sistema Solar interior – isto é, depois que o cometa passa por Júpiter. A questão, aí, é que já teríamos de estar preparados, pois o cometa só seria visível cerca de 8 a 9 meses antes de nos atingir.

Há também vários cientistas que já propuseram formas de se evitar uma colisão destas. Cada uma delas é válida para um tipo de objeto, não apenas cometa ou asteroide, mas também ao tipo de asteroide. Contudo, até agora nenhuma destas soluções não foi testada, devido à falta de verbas para a aplicação em ciência mundialmente.

O que o Brasil faz a respeito disto? O mesmo que faz a respeito das CMEs. Copiando e colando: Pouco, muito pouco mesmo. Quase nada. Temos mais astrônomos amadores, trabalhando da forma que dá e em seus tempos vagos, sobre este tema.

Quer saber como seria uma colisão de um asteroide com a Terra no pior dos casos? Assista ao vídeo abaixo.

Morte do Sol

Nossa estrela mãe, como qualquer outra, ficará sem combustível um dia. Quando este dia chegar (daqui há cerca de 5 bilhões de anos), ela se tornará uma pequena anã branca, aproximadamente do tamanho da Terra. Nada mais de luz ou calor solar, para alimentar as plantas que, de uma forma ou de outra, nos alimentam. Mas não fará muita diferença, pois provavelmente a própria Terra não estará mais aqui.

Segundo a Wikipedia:

O destino da Terra é precário. Como uma gigante vermelha, o Sol terá um raio máximo maior de 250 UA, maior do que a órbita atual da Terra.[101] Porém, quando o Sol tornar-se uma gigante vermelha, a estrela terá perdido cerca de 30% de sua massa atual, devido à massa perdida no vento solar, com os planetas afastando-se gradualmente do Sol, à medida que o Sol perde massa. Este fator por si mesmo provavelmente seria o suficiente para permitir que a Terra não fosse engolida pelo Sol, visto que a Terra afastar-se-ia o suficiente da estrela, mas pesquisas recentes mostram que a Terra será engolida pelo Sol devido à forças de maré.

Mas não precisamos esperar tanto tempo. Em cerca de apenas 1 bilhão de anos a Terra será inabitável. O aumento gradual da temperatura solar fará com que a superfície da Terra torne-se quente demais para possibilitar a existência de água líquida e, portanto, impossibilitará vida na Terra.

Bem… A questão é: o que faremos? Religiosos podem querer rezar para que deus nos salve, mas como eu não vejo sequer o mínimo indício da existência de tal ser, prefiro ao menos tentar fazer algo a respeito. (Na realidade, mesmo que acreditasse na existência de tal deus, preferiria fazer algo a respeito – até pra prevenir.)

E então, o que a ciência pode fazer por nós? Bem, acredite ou não, já tem feito. Temos encontrado mais e mais planetas orbitando outras estrelas. Até mesmo alguns que talvez possam manter vida da forma que conhecemos (portanto locais para onde poderíamos nos mudar quando fosse necessário). O número total de planetas extrassolares, pela última vez que vi, já passou dos 667.

Além disto (antes que alguém pergunte como chegar lá), avanços têm sido feitos na propulsão de naves espaciais. Infelizmente, apenas uma foi testada (a chamada “vela solar”, que foi – ou está sendo – testada pelo Japão, mas desconheço os resultados), novamente devido à falta de verbas para a aplicação em ciência.

Enfim, fica a pergunta sobre o que você prefere para seus descendentes: que eles morram assados aqui, ou que se mudem para algum outro lugar? Este tipo de coisa tem de ser pensado a longo prazo, pois se deixarmos para a última hora… Já foi.

Outras formas

Ainda há outras formas de podermos ser eliminados da face da Terra, que sequer citei no texto. Exemplos seriam uma explosão de raios gama (disparado pela explosão em supernova de alguma estrela próxima o bastante), a mutação de algum vírus (e aí sim entraria a medicina), etc.

Conclusão

Como vocês podem ver, o universo está longe de ser um local “perfeito para nós”. Ao contrário, ele tem diversas formas de nos eliminar, pode fazer isto mais fácil do que pisar e esmagar uma barata. Não estamos protegidos, muito longe disto, muita coisa pode acontecer e acabar conosco. Pode estar acontecendo agora, com a entrada de um asteroide grande o suficiente na atmosfera do outro lado do mundo.

“O universo não foi feito à medida do ser humano, mas tampouco lhe é adverso: é-lhe indiferente.”
– Carl Sagan

Você pode ter estranhado eu ter dito no início do texto de aplicar em ciência, tecnologia e educação, já que falei apenas sobre ciência em todo o texto. Mas a questão é muito simples: instrumentos científicos também são tecnologia e sem uma educação decente, jamais formaremos cientistas suficientes em nosso país.

Assim, precisamos e muito aplicar, cada vez mais, em ciência, tecnologia e educação. Antes que seja tarde.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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2 Comments

  1. É um dia nos vamos ter que nos mudar daqui
    Mas espero que até lá tenhamos tecnologia para isso

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  2. Mário César
    Concordo com o conteudo do seu pensamento, apesar de ambos sabermos que é um mero e simples resumo de algo complexo, mas permita de discurdar do título.

    O grande problema não é a educação, o grande problema é o dinheiro,é ele que impede que muitos não tenham educação, nem se quer alimentos sufecientes, verá que mais de 90% dos problemas estão ligados ao dinheiro. Dinheiro criado pelo homem, as notas são as que mais vieram pesar na vida das pessoas e elas são recentes, hoje nem precisam mais de notas, existe cartões, ou seja, todo o dinheiro é apenas virtual, nem se dão ao trabalho de o produzir.

    E o que aconteceria se não existisse dinheiro e em vez disso educassemos as pessoas a trabalhar para a sociedade por um futuro melhor, tal como fazem outros seres vivos (formigas, avelhas, …).

    gosto de escrever filosofia, apesar de não me considerar filosofo, mas deixo aqui um pensamento meu que escrevi:

    Sonho com um mundo sem religiões, sem preconceitos, sem fronteiras, sem classes sociais, sem raças, sem lideres, sem escravos, sem limites para sonhar, apenas com pensadores…
    Sonho com um mundo onde todos trabalham para um mundo melhor, numa harmonia entre o homem e a natureza.
    Sonho com um mundo onde não se tem de morrer por algo, sem ter de viver por algo, apenas vivendo um dia de cada vez.
    Talvez eu seja um sonhador, mas creio que não sou o unico a o ser.
    Acredito que tudo isto é possivél do momento que acreditamos que é possível.

    Quando morrer deixarei este sonho na esperança que se realize
    Actualmente é impossivel, pois existe muitas pessoas que são previligiadas e tirar proveito deste sistema.

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