Porque ser contra as religiões?

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Nos últimos dias (final de junho de 2012) soltei, em meu Facebook, duas frases com a intenção de provocar as pessoas a pensar e ver o resultado disto. Uma destas frases era de minha autoria e a reproduzo abaixo.

“Ateu que não acha que a religião tem de acabar é totalmente alienado, ou extremamente mal caráter. Mas prefiro supor a primeira opção.”

A segunda frase é de Jean Meslier, um iluminista contemporâneo de Voltaire. Frase a qual, aliás, é mal atribuída a Voltaire, por estar no livro Extrait des sentiments de Jean Meslier, editado por Voltaire. A frase é a seguinte:

“O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre.”
–  Jean Meslier

Jean Meslier.

É óbvio que ninguém aqui propõe que realmente se saia por aí estripando padres e enforcando monarcas com as tripas dos primeiros – mas foi mais ou menos o que foi feito na época, na já bem conhecida (assim espero) Revolução Francesa.

O curioso é que Meslier foi um sacerdote católico. Seu nome é conhecido até os dias de hoje devido à autoria de um ensaio filosófico promovendo o ateísmo, descoberto após sua morte, o qual é descrito como seu “testamento” aos seus paroquianos, onde são denuncias absolutamente todas as religiões. Ou seja… Ele propunha até mesmo sua própria morte, num ato que considero até mesmo heroico.

Hoje, por óbvio, a situação está totalmente mudada quando comparada à época. Devemos nos lembrar que eles combatiam dois poderes absolutistas:

  • A nobreza, tendo seu papel central no rei, que exercia a monarquia com poderes absolutos;
  • O clero, que, à época, tinha um poder absoluto até mesmo sobre a nobreza e que tentava dar legitimidade ao poder desta segunda, através da alegação de ser a “vontade de deus”.

O restante da população da época se dividia, basicamente, em burguesia (população livre que vivia em burgos e tiravam seu sustento do comércio de bens, assim como de prestação de serviços – de ferreiro, por exemplo); e de servos, isto é, pessoas que viviam realmente para servir a nobreza, ainda como no período feudal.

Afresco “Fogo no Burgo”, de Rafael.

Contudo, se no que diz respeito ao poder estatal a coisa mudou para muito melhor, através da república e da democracia, no que diz respeito às religiões a coisa mudou para muito pior.

A religião continua tendo um imenso poder de influência sobre os governos, mesmo que essa influência seja indevida e fira o laicismo/secularismo estatal. No Brasil mesmo, tivemos diversos exemplos disto:

Não me preocupei, aqui, em procurar “as melhores fontes possíveis”. Apenas peguei os primeiros resultados de buscas que fiz usando termos que aparecem nos títulos das matérias acima. Ainda assim, se você repetir tais buscas no Google, com certeza encontrará em muitos mais sites e blogs, afinal tais notícias foram amplamente divulgadas pela mídia.

Aproveitando o gancho do ocorrido em relação à Rio+20, quero lembrar-lhes do papel de religiões no que tange ao assunto dos direitos humanos: em sua maioria, senão totalidade (dependendo do tema), elas são absolutamente contra que as pessoas tenham acesso a tais direitos. Apenas como exemplos eu poderia citar aqui coisas como liberdade de pensamento, liberdade de expressão (qualquer um que se pronuncie publicamente contra a religião receberá uma reação desproporcional), direito ao aborto, nos mais diversos casos; e assim por diante.

Um exemplo recente disto foi o caso de noventa alunas que foram envenenadas em escola afegã, onde o governo e a polícia do país atribuem o incidente a um ataque de integrantes do grupo fundamentalista Talibã. Os Talibãs, para quem não sabe, são frontalmente contra a alfabetização feminina.

Alguns ateus, inclusive amigos, consideram que o combate às religiões é desnecessário ou ineficiente. Acham que o que é necessário combater são a burrice (e a apologia à mesma – ambas se alastram em nosso país) e a ignorância. Contudo, não há como separar as coisas.

As religiões pregam a ignorância e isto está no fundamento delas mesmas: a fé. Ter fé é acreditar em algo sem qualquer fundo real, sem qualquer base. Portanto, fé é ignorância. Elas muitas vezes também pregam a burrice, ao dizer que “ser racional demais é abandonar os sentimentos humanos”, quando na realidade é o oposto: a racionalidade leva profundamente em conta os sentimentos humanos, como a empatia, o amor e a generosidade.

E é até mesmo por um ato de generosidade ao próximo que se deve combater a religião. Não devemos ter pena de uma pessoa por perder sua religião, algo da qual ela teoricamente necessitava, mas sim por ela continuar nela: cega, ignorante e burra.

Mais do que isto, a religião no Brasil de hoje é um verdadeiro caso de polícia. Já estamos cansados de ver pastores que são verdadeiros charlatões, dizendo o que, trocando em miúdos, pode ser dito como “me dê todo o seu dinheiro e seja imbecil”. Até mesmo se cogitarmos do Código de Defesa do Consumidor seria caso de polícia: religiões, através do clero, fazem promessas impossíveis (para não dizer absurdas), cobram por isso e, em fato, nada é entregue. E isto tudo sem pagar impostos e inclui todas as religiões.

Religiões ainda cometem crimes como o de evasão de divisas. E não falo apenas da Bispa Sônia, que foi até mesmo presa nos EUA devido a isto, mas também do Bispo Edir Macedo, denunciado por evasão de divisas pelo MPF, e até mesmo da Igreja Católica, que envia milhões todos os anos para sustentar a “simplicidade” do Vaticano.

No caso da Bispa Sônia, da Renascer, a coisa ainda é mais complicada: ela terá de devolver R$ 785 mil à união, conforme decisão do TCU, referente a verbas repassadas pelo FNDE (órgão do Ministério da Educação) para a Fundação Renascer, entre 2004 e 2005, que deveria ter sido usada na alfabetização de jovens e adultos.

Isto tudo, claro, sem falar em casos de intolerância religiosa e, pior, de pedofilia cometidos por clérigos, que explodem por todo o mundo.

Se, ainda assim, nenhum dos argumentos acima te convencerem, tenho mais um. Onde tiver uma reunião de pessoas, com apenas uma delas falando, mandando e desmandando sobre como as demais devem agir, e cobrando por isso (dizimo), haverá um charlatão. Portanto, haverá um desonesto enriquecendo às custas da burrice e de emburrecer outras pessoas. Isto simplesmente pelo fato de tal pessoa estar tentando controlar a liberdade alheia, o que sempre acontece diminuindo-a.

Complementando tudo o que disse acima, religiões pregam a ignorância, a burrice, pseudociências (como o design inteligente – “há uma evolução, mas deus a direciona”), o ódio a tudo o que é diferente (principalmente a minorias como LGBTTs, às vezes até contra negros, seguidores de outras religiões, a todo e qualquer um que defenda o feminismo – que é, para quem não sabe, igualitarismo – e assim por diante). E isto tudo tem de parar.

Você, caso seja ateu, pode até discordar da necessidade do fim das religiões (que só viria através da aplicação massiva em educação – jamais de atos de violência), mas fica numa posição extremamente difícil (até mesmo de se explicar com argumentos válidos), caso seja contra até mesmo o ataque a elas e a todos estes atos deletérios à sociedade humana.

(A imagem acima foi postada pela página do Facebook da Sociedade Ateísta e pode ser compartilhada livremente na rede social através deste link.)

E é por todo o exposto que volto a afirmar a frase que citei logo no início do artigo, que havia postado em meu mural do Facebook:

“Ateu que não acha que a religião tem de acabar é totalmente alienado, ou extremamente mal caráter. Mas prefiro supor a primeira opção.”

E é bom lembrar aqui que quando alguém usa a palavra “alienado”, ela não estará se referindo a tudo. Por exemplo, alguém pode ser alienado em relação à moda, mas não em relação à política. Ou pode ser alienado em relação à política, mas ser extremamente bem informado no que diz respeito à ciência. Assim, por mais que ache desnecessário, é bom esclarecer que quando uso a palavra “alienado” na afirmação acima, refiro-me a tudo que expus no texto acima.

Apenas para finalizar… Apenas imagine que não existissem religiões. Não é difícil, se você tentar.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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7 Comments

  1. Parabéns Mário, adorei sua explanação acima!!!!
    Penso exatamente como você!
    Abraços.

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    • Opa, valeu, Marco! 😀

      Rapaz, que esquisito, não recebi a notificação do seu comentário. Tenho que ver o que houve. O_o

      Mas, enfim. O mais engraçado é um cara que quis debater sobre isso num grupo do Facebook. TUDO que ele alegava é que “o WTC não era um símbolo religioso, então o ataque foi político”. 😀

      É de rolar de rir! 😀

      E obrigado, sempre, pela visita e comentário! 😀

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  2. Ótimo site, ja até adicionei aos favoritos pra nunca esquecer de entrar =P

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  3. seu argumento tem uma base muito boa, contudo eu acredito que as religiões devem ser reformuladas ao nivel para que os seus fieis encontrem as respostas que tanta precisam por si mesmos. hoje e desde de muito tempo a religião tem servido como base cultural e social, é logico que do jeito que esta hoje estas bases estão bem enfraquecidas, creio que o dialago e o o bom senso poderiam e muito ajudar que estas instuições se tornem mais flexiveis, que atendam as mudanças com o carater maduro e racional. e como diz o religioso Gandhi não existe caminho para a paz, a paz é o caminho. parabens pelo trabalho e fico feliz com o retorno do site, sou teista mais acredito ser um livre pensador por buscar o dialago e a tolerancia.

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    • É uma possibilidade também, Carlos. Se as religiões não fizessem tanta merd* (desculpe o palavrão), eu não teria motivos para atacá-las.

      Contudo, infelizmente sabemos bem como religiões funcionam. As mudanças demoram séculos (veja o caso de Galileu e da Teoria da Evolução)… Então não sei se elas mudariam a tempo.

      Até lá, vou criticá-las porque acho profundamente necessário. E torçamos para que as coisas melhorem. 🙂

      Abraços!

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  4. essa musica Imagine do John Lennon to perfeita que tatuei toda a letra da musica na perna !!procureme no facebook e ver a fotopaz para todos !!

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  5. Bom o texto…tbm sou contra essa porcaria de sistema religioso que mata…distorcem o puro evangelho e mata…

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