Tabus – Boas e más razões

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Nossa sociedade sempre teve muitos tabus, que são como “regras sociais primitivas” que proíbem que algum assunto seja debatido, ou que se faça alguma coisa. Alguns tabus são tão proibidos que, para pessoas que os seguem, possivelmente eu não deveria sequer estar escrevendo este artigo.

Segundo a Wikipedia:

De modo geral, pode-se definir tabu como qualquer assunto ou comportamento inaceitável ou proibido em uma determinada sociedade.

Um tabu é um assunto cuja discussão costuma ser evitada pela população em geral, devido à diversas razões: seja porque este seria alvo de opiniões contraditórias; porque trata-se de um assunto que interfere com a sensibilidade das pessoas; porque seja uma pauta polêmica capaz interferir com a moral e bons costumes da sociedade etc.

Conforme estudos do psicanalista Sigmund Freud (final do séc XIX/ início do séc. XX) e do antropólogo Levi-Strauss (segunda metade do séc. XX), tabu (palavra originária de um grupo aborígene austral) seria um sentimento social coletivo sobre um determinado comportamento ou assunto, seria uma ponte entre duas determinações comportamentais, uma biológica e outra cultural. Desta forma, tabu difere de ‘regras sociais’, as quais são um tipo de construção cultural pertencente a sociedades mais complexas e avançadas, como pode ser estudado no padrão social europeu.

Contudo, em minha opinião, tudo deve ser debatido. Todas as ideias devem ser debatidas, nem uma é especial o suficiente para não ser debatida.

Para que haja um tabu, uma “regra”, é necessário, óbvio, que haja alguma razão. E normalmente todos os tabus têm uma razão: algumas boas, outras nem tanto.

Um exemplo de tabu que tem boas razões para ser é o caso do debate sobre ufologia em comunidades e fóruns científicos (de astronomia, por exemplo). Mas por que isso? Por acaso as pessoas que freqüentam esse meio não acreditam ou nunca viram OVNIs? Não necessariamente. Eu mesmo conheci várias pessoas que freqüentam comunidades de astronomia, até mesmo alguns astrônomos amadores, que gostam do tema ou até mesmo já viram algum OVNI.

Então porque isso? Porque proibir o debate deste assunto em comunidades e fóruns científicos? O ponto é que quando você começa a debater sobre OVNIs sempre aparecem pessoas que confundem o assunto e começam a falar de “ETs nos visitando”, teorias da conspiração e coisas do tipo. E, óbvio, quem frequenta estes meios são pessoas céticas, que exigem evidências para argumentos extraordinários. Portanto, acabará havendo contestação e esta contestação acabará virando briga, porque aquele que gosta do tema, que acha que ETs nos visitam, etc, se sentirá ofendido. Sentirá sua crença ofendida.

“Idéias não foram feitas para serem ‘respeitadas’. Idéias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos.”
— Idelber Avelar

Portanto este é sim um tabu com boas razões para ser. Afinal, proibindo este assunto nestes tipos de comunidades e fóruns, você evita que as brigas comecem e o clima se deteriore entre os membros, o que faria com que a comunidade ou fórum acabasse morrendo.

Outro tabu com boas razões para ser que está nascendo (ou pelo menos deveria) é aquele relacionado a não ter pratinhos de baixo de vasos de plantas. Porque esses pratinhos são feitos exclusivamente para conter água para, portanto, fazendo com que a terra do vazo permaneça úmida por mais tempo, mas que gera um problema extremamente grave: ele vira foco de reprodução de insetos, como o mosquito Aedes aegypti. Que, como todos sabemos, transmite a dengue.

Outros exemplos de tabus que têm boas razões para ser são aqueles referentes à higiene, pois privilegiam nossa saúde, tanto como indivíduos, quanto como sociedade.

Contudo, há tabus com razões muito ruins para ser. Exemplos disso são os tabus em relação ao sexo (seja ele hetero ou homoafetivo – mas com o homoafetivo é pior ainda), em relação à tatuagem (que por mais que possa vir a fazer algum mal, só o fará se você quiser retirá-la), em relação ao uso de certos tipos de roupa por homens e/ou mulheres e assim por diante. Isto porque esses tabus são baseados em dogmas religiosos.

No caso da tatuagem, por exemplo, a maior parte das pessoas que a fazem usam desenhos de coisas que as religiões, principalmente as cristãs, consideram “demoníacas”. Como dragões, figuras com chifres, etc.

No caso do sexo é ainda mas grave, porque se você não segue este tabu, você vira foco de preconceito. Você deve estar pensando no caso dos homoafetivos, que são extremamente perseguidos pelas religiões, correto? Sim, mas isto não ocorre somente com eles, as mulheres também o são. Se a mulher exerce sua liberdade sexual, ela passa a ser chamada não mais por seu nome, mas por adjetivos como “puta”, “prostituta”, “piranha”, “vaca”, etc. Adjetivos estes que, óbvio, são extremamente ofensivos.

E não há nada de errado em exercer sua liberdade sexual, basta que você tome as devidas precauções para não acabar com uma gravidez indesejada, ou mesmo com uma DST (como a AIDS).

Algo interessante sobre o tabu em relação ao sexo é que o homem já o superou. Hoje, o homem que sai com muitas mulheres já passa a ser chamado por adjetivos vistos como elogiosos, como “garanhão”, “pegador” e por aí vai (dependendo da região em que se esteja).

E porque com a mulher continua o tabu? Há alguma boa razão para isto, alguma razão racional? Bem, é que, segundo a Bíblia, a mulher deve ser submissa ao homem. Mais do que isto, veja o que é dito em Deuteronômio 22:

20. Porém se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça,

21. Então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão, até que morra; pois fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim tirarás o mal do meio de ti.

E qual a razão para isto? Melhor, há alguma razão? Não, nenhuma. Não há razão racional ou lógica. É puramente algo que vem de culturas da era do bronze e que as religiões continuam querendo impor hoje, em pleno século 21.

Em ambos os casos, do tabu em relação ao sexo e à tatuagem, o preconceito chegou (ou chega, no caso da tatuagem, piercings, etc) a ser institucionalizado. Até algum tempo atrás, se um homem matasse a própria esposa e conseguisse provar que ela tinha um amante, ele se livrava da condenação por “legítima defesa da honra”. Quanto a tatuagens, piercings, e homoafetivos, são proibidos de doar sangue, por exemplo, como pode ser visto no texto “Ministério da Saúde se contradiz e rejeita sangue gay e bi”.

Pergunta: será isso tudo razoável? E, no caso de tatuagens, piercings e homoafetivos, a alegação, mesmo que disfarçada, para tais tipos de coisa é de que eles seriam “promíscuos”. E o que é mesmo alguém promíscuo? Justamente aquela pessoa que exerce sua liberdade sexual.

Então, sempre que você ouvir de alguém “Não, isso não pode”; “Não pode isso”; “Não pode aquilo”; “Não pode dizer aquele outro”… Questione. Pergunte o porquê. Peça uma razão lógica, sensata, para isto.

Exemplo: “não maltrate um animal”. Por que? “Porque é um ser vivo e sente tanta dor quanto você, eu ou qualquer outro” – ao menos para mim, é suficiente.

Outro exemplo: “não fale palavrão”. Por quê? “Porque é moralmente errado” – onde entra a religião, novamente. Em outras palavras: completa falta de argumentos racionais, desprovido de qualquer razão lógica, apenas por tradição.

Um outro exemplo de tabu que podemos discutir é quanto à descriminalização do aborto. E, neste caso, é sim um tema bastante polêmico. Não apenas pelo lado religioso, mas também pelo lado racional. Ou seja, além de más, há também boas razões para defender tanto quanto para ser contra a descriminalização do aborto. Para conhecer alguns, ouça o Episódio #3 do PodPensar, onde participamos eu (Mário César Mancinelli de Araújo), Lisiane Pohlmann, Diego Lakatos e Flávio Costa.

Enfim, eu não quero esgotar o assunto aqui, quero apenas iniciar o debate. Espero que quem quiser e puder, continue-o. A área de comentários está aberta ao debate, sempre. Só não está aberta aos trolls. 😉

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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One Comment

  1. excelente artigo, no caso do tabu não podemos deixar que tradições seja de qual for origem atrapalhe o bom senso individual e coletivo. parabens pelo seu trabalho.

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