Ufologia: Análise Através da Navalha de Occam

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Texto originalmente publicado na Revista Livre Pensamento número 2, página 19.


Introdução

Não é incomum que pessoas vejam “coisas” no céu, as quais não consigam identificar imediatamente, ou mesmo depois, com maiores análises. Às vezes o objeto está tão alto no céu que não se pode ver mais do que um “ponto de luz”.

Para designar tais objetos foi criada uma expressão que, depois, virou acrônimo. Falo da expressão “Objetos Voadores Não Identificados” e de seu acrônimo OVNI. Não há nada de mais em tais palavras, por mais que pessoas simples e sem conhecimento as associem a “ETs visitando a Terra”, “naves extraterrestres”, etc. Aliás, a comunidade científica deveria utilizá-las mais, até mesmo para desmistificá-las.

Sobre visões de OVNIs em si, o que acontece, basicamente, é que a pessoa se surpreende a tal ponto que acaba se fechando a qualquer explicação racional que seja dada ao evento. Mas ver coisas e não conseguir identificá-las é algo normal, faz parte da própria natureza humana. Somos falíveis, por mais que não gostemos de reconhecer isto.

Por consequência desta surpresa, as pessoas se entusiasmam com o mundo da pseudociência chamada ufologia. Mas isto é natural, afinal a sociedade nega que tais coisas existam, nega até mesmo que o engano possa acontecer, assim, ao vê-las, as pessoas realmente perdem o chão.

Mas não precisa ser sempre assim. Basta que haja um mínimo de conhecimento para que a pessoa busque explicações, ao invés de simplesmente se jogar na crença ao ter tal visão. Para exemplificar isto, vou contar uma experiência pessoal que eu e meus pais tivemos.

A experiência pessoal

Não lembro exatamente a data que isto aconteceu, mas no início de julho entrei no site Heavens Above para ver as previsões de passagens visíveis da ISS para a minha região e vi que teria uma passagem para aquele dia. A ISS passaria vinda aproximadamente de Noroeste para Sudeste, com uma magnitude de cerca de -2.5.

Sobre como fazer para ver as previsões, o significado da magnitude, etc, não há grande importância aqui. O importante a se entender é a direção que ela passaria (Noroeste para Sudeste) e que ela se pareceria com uma estrela bastante brilhante (para referência, Vênus, que é a “estrela” mais brilhante de nosso céu, alcança um máximo de cerca de -4,6 de magnitude). Quanto menor o valor da magnitude, mais visível o objeto é.

Pois bem… Tendo a previsão, saímos para o jardim de casa uns 4 minutos antes do horário previsto. E aí aconteceu o evento que quero explicar: uns 2 ou 3 minutos antes da hora em que a ISS apareceria, apareceu outra luz no céu. Com a mesma magnitude com a qual a ISS apareceria, talvez um pouco mais brilhante, contudo com uma luz amarelada e vindo de Nordeste para Oeste (ou seja, numa direção diferente).

Como o objeto passou no céu com uma velocidade comparável com a da ISS, minha primeira hipótese foi a de que seria outro satélite. Contudo, após verificar no Heavens Above, vi que não era o caso.

O que seria, então, o objeto que gerou tal visão? Minha conclusão é de que não passava de um balão, como este da imagem abaixo.

Isto significa que era realmente um balão? Não poderia ser outra coisa? Quem sabe uma “nave extraterrestre”? Bem… De fato, pode ter sido qualquer coisa. Então como eu posso afirmar ser um balão? É aí que entra o conceito científico chamado Navalha de Occam.

Vou explicar como a coisa funciona. Basicamente o que fazemos é listar as hipóteses, ver quais delas se encaixam ao ocorrido e, então, optamos pela mais fácil de ocorrer. Façamos isto com o caso que citei acima, para que a coisa possa ficar mais clara.

As hipóteses

  • Algum satélite artificial (criado pelo homem)

Verifiquei no Heavens Above, como disse anteriormente, e não havia previsão da passagem de um satélite para aquele dia e horário, com direção e magnitude comparáveis. Portanto, esta hipótese está descartada.

  • Um asteróide

Existe o Projeto NEOS, que procura por objetos (asteróides e cometas) próximos à Terra e sempre notifica quando um vá se aproximar tanto assim. E, para ser o caso, o asteróide teria de estar bem longe, devido à velocidade, e precisaria ser bastante grande, devido à magnitude aparente. Mas não houve notificação alguma, tanto anterior, quanto posterior ao ocorrido, para aquela data. Hipótese descartada.

  • Um avião, helicóptero ou algum outro meio de transporte aéreo

Para ser o caso, tal objeto teria de ter certas luzes, de certas cores. Mesmo em um avião passando em grandes altitudes tais luzes ficam visíveis. E não era o caso. O objeto não tinha nenhuma destas luzes, era apenas uma “luz amarelada se movendo”. Isto, claro, para não se falar sobre o som: qualquer veículo aéreo faz som (afinal tem um motor) e o objeto não emitia qualquer ruído. A hipótese também não se encaixa, portanto também está descartada.

  • Uma nave extraterrestre

Bem… Por mais que pessoas aleguem ter visto ETs e suas naves, o fato é que nunca houve um registro fiel, que pudesse ser analisado cientificamente, de tais coisas. Não me entenda mal, é extremamente difícil ETs não existirem e podem até mesmo existir civilizações mais avançadas do que a nossa, com “naves brilhantes” voando pela galáxia. Apenas não temos evidências disto. Ainda assim, de pronto, não posso descartar esta hipótese.

  • Um balão

Dependendo da cor do papel usado para a construção do balão, poderia ter a exata aparência do objeto que vimos. Não reparei quanto ao vento naquele momento, mas não havia nada de errado com a velocidade ou a forma como o objeto se movia, de forma que eu pudesse descartar esta hipótese.

Avaliando as hipóteses

No final, o que temos são duas hipóteses válidas: nave extraterrestre ou balão. Devo admitir que poderia ser o caso de uma nave extraterrestre, sabe-se lá. Da mesma forma que não tenho elementos para afirmar que era, também não tenho elementos para afirmar que não era. Simplesmente não tenho elementos sobre a aparência, velocidade, forma de se mover, etc. de naves extraterrestres. Não há evidência alguma que suporte qualquer consideração sobre o tema.

Já quanto a balões, sabemos que eles existem. Basta fazer uma simples pesquisa no Google para conseguir evidências suficientes para isto. Há casos, inclusive confirmados pelo Corpo de Bombeiros, de balões que caíram e causaram incêndios, por exemplo. Como evidência anedótica, eu mesmo já vi balões sendo soltos, quando criança.

E então, como resolver isto? Balão ou nave extraterrestre? Bem… O que é mais fácil? Uma nave extraterrestre, vinda dos confins da Via Láctea, dar uma passadinha sobre minha cabeça, sobre minha casa, ou alguém ter soltado um balão aqui por perto e eu tê-lo visto?

Mesmo não podendo afirmar que a hipótese de nave extraterrestre seja impossível, posso afirmar que é bem mais fácil que tenha sido um balão. É aí que entra a Navalha de Occam:

“Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor.”
– William de Ockham

Por isto posso concluir que se tratava de um balão, nada além disto.

Conclusão

A verdade é que nem tudo temos como descobrir, desmistificar, entender em 100%. No caso deste objeto que eu e meus pais vimos, a única forma de se ter certeza sobre o que era seria voando até ele, de forma a vê-lo de perto, tirar uma amostra dele para futuras análises, etc. Mas a verdade é que isto não é necessário. Mesmo não tendo como “voar até ele” podemos, sim, chegar a conclusões sobre a sua natureza.

Mais do que isto, conclusões assim são tiradas diariamente na ciência. Por exemplo, não podemos voltar 14 bilhões de anos no tempo para ver como foi, de fato, o início do universo. O que podemos fazer é estudar como ele é hoje, como ele se desenvolve e evolui, para, com isto, criar modelos matemáticos para tentar explicar como ele surgiu. E, claro, procurar evidências disto.

O mesmo se aplica a colisões no espaço, e à colisão que gerou a nossa Lua, por exemplo. Não temos como voltar no tempo para ver Theia colidindo com a Terra e, como resultado, a Lua se formando. Mas podemos propor modelos matemáticos e, nestes casos (que são menos complexos), até simulá-los em computador.

Pode parecer estranho para quem não tem familiaridade com a ciência, mas o importante não é encontrar as respostas absolutas, indiscutíveis, mas sim as perguntas corretas. Porque é só a partir delas que conseguiremos chegar às respostas válidas.

“Toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil – e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos.”
— Albert Einstein

O importante na ciência é que a coisa funcione. No caso do objeto que vimos, a explicação do balão se aplica, funciona no caso? Se sim, então a explicação é suficiente. A mesma coisa se aplica, por exemplo, à fabricação de aviões: o importante é que eles funcionem, isto é, voem, sendo indiferente se a explicação dada realmente retrata a realidade de forma fidedigna, absoluta.

“Os seres humanos podem ansiar pela certeza absoluta; podem aspirar a alcançá-la; podem fingir, como fazem os partidários de certas religiões, que a atingiram. Mas a história da ciência ensina que o máximo que podemos esperar é um aperfeiçoamento sucessivo de nosso entendimento, um aprendizado por meio de nossos erros, uma abordagem assintóica do Universo, mas com a condição de que a certeza absoluta sempre nos escapará.”
— Carl Sagan

“Quer dizer que a ciência é só isto? É só fazer as coisas funcionarem e a realidade que se dane?” Não. O ponto é que se você for analisar simplesmente “o que é” a realidade, filosoficamente, você enlouquece. Não há como saber sequer se existimos de verdade, a não ser pelo fato de pensarmos.

“Eu duvido, logo penso, logo existo.”
– René Descartes

A função da ciência é descortinar a verdade, contudo, só conseguimos isto através do tempo. Através da sequência de trabalhos que vão se acumulando sobre o mesmo tema, um depois do outro, cada um apontando um aspecto novo, uma nova evidência, um ponto que escapa da curva. Pois é só assim que corrigimos nossas teorias, nossos modelos matemáticos. É, verdadeiramente, errando que se aprende.

“A Ciência é a melhor ferramenta já criada para entendermos como o mundo funciona.”
— Michael Shermer

Observação: o texto é baseada numa experiência pessoal minha e tais tipos de experiências não valem como evidências. É a chamada “evidência anedótica”, sobre a qual falarei em outro texto.


Texto originalmente publicado na Revista Livre Pensamento número 2, página 19.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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2 Comments

  1. O problema é que quando você entra no mérito da “verdade”, é difícil de explicar para uma pessoa que não quer entender, que a realidade não existe, por questões (limitações) biológicas e por uma questão filosófica, que é a de que nada faz sentido.

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    • É verdade, Igor. É extremamente complicado discutir com certas pessoas… É ainda mais complicado mostrar pra elas que:
      .
      1º – OVNI significa APENAS “Objeto Voador Não Identificado” (e não “máquina voadora ET”);
      2º – Que uma vez que você não saiba o que uma coisa é, isto significa APENAS que você não sabe o que aquilo é. Isto é, mostrar que o argumento à ignorância é inválido.
      .
      Mas… Como já dizia o velho e sábio Sagan…
      .
      “Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.”
      — Carl Sagan
      .
      Abraços! 😉

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