Uma rápida análise sobre a prática da oração

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O que é a oração, acho eu, todos devem saber. Seria o ato de se comunicar com uma deidade, ou mesmo com alguém no além túmulo. Orar é, enfim, basicamente o mesmo que rezar. Ainda assim, resolvi colocar o trecho abaixo, retirado da Wikipedia, apenas como esclarecimento.

Oração é um ato religioso que visa ativar uma ligação, uma conversa, um pedido, um agradecimento, uma manifestação de reconhecimento ou ainda um ato de louvor diante de um ser transcendente ou divino. Segundo os diferentes credos religiosos, a oração pode ser individual ou comunitária e ser feita em público ou em particular, e pode envolver o uso de palavras ou música. Quando a linguagem é usada, a oração pode assumir a forma de um hino, encantamento, declaração de credo formal, ou uma expressão espontânea, da pessoa fazendo a oração. Existem, segundo as crenças, diferentes formas de oração, como a de súplica ou de agradecimento, de adoração/louvor e etc; e da mesma forma, consoante a crença a oração pode ser dirigida a um deus, espírito, pessoa falecida, ou a uma ideia, com os diversos propósitos, sendo que as pessoas rezam em benefício próprio, ou para o bem dos outros; ou ainda pela consecução de um determinado objetivo.

Neste texto quero me focar especificamente na oração de súplica: aquele momento em que a pessoa reza pedindo por algo, seja diretamente a deus, seja indiretamente (por meio de um santo, por exemplo). Ao fazê-la a pessoa aguarda por um resultado (aparente) para sua oração, seja ele positivo ou negativo. Este é exatamente o aspecto em que vamos nos focar: o resultado da oração de súplica.

Então, apenas para tornar as coisas mais claras, peguemos um exemplo: aquela pessoa que está doente e que pede sua cura a deus. Basicamente, o que ela faz é orar pedindo, com toda a humildade, suplica e emoção, que tenha sua saúde reestabelecida. Pois bem, uma vez isto sendo feito, a pessoa obterá o resultado que, como dito acima, que pode ser positivo (a cura de sua doença), ou mesmo negativo (por exemplo, a necessidade de um tratamento para o resto da vida, ou mesmo a morte).

Para a argumentação, vamos ignorar por um estante qualquer fator externo à oração, qualquer medida tomada pela pessoa, para que o resultado seja alcançado (como ir a um médico). O que acontece se o resultado positivo for alcançado? A pessoa prontamente o atribuirá a deus, ignorando qualquer fator externo ou ajuda.

E se o resultado negativo for alcançado? Bem, aí entra o que é chamado de “desígnio de deus”, que pode ser expresso pela pessoa de diversas formas diferentes:

  • Foi a vontade de deus;
  • São os mistérios de deus;
  • Deus escreve certo por linhas tortas;
  • É o plano de deus para ele;
  • E assim por diante.

Até aqui, nenhuma novidade, está tudo como o esperado ao se orar, afinal ambos os resultados são possíveis. O problema é que o motivo dado para o resultado negativo invalida o próprio ato de rezar: se deus existisse e já tivesse traçado seu destino, através do desígnio divino, de que adiantaria rezar? Afinal, rezando ou não seu destino já estaria traçado.

E não é apenas isto. Esta prática religiosa pode levar a atos perigosos, como o de não procurar um médico ao adoecer. Afinal, se seu destino já está traçado mesmo, que diferença faz? Você procurando ou não ao médico não mudaria coisa alguma, pois o desígnio divino (de a pessoa se curar ou morrer) seria alcançado da mesma forma. (!) Imaginam o problema que isto gera?

O pior? Isto já acontece. Algumas religiões não permitem sequer que seus fiéis recebam transfusão de sangue, o que, se for necessário e não for realizado, pode levar à morte ou no mínimo a um forte enfraquecimento do sistema imunológico da pessoa, piorando ainda mais sua condição de saúde. Uma religião assim, por exemplo, é a dos Testemunhas de Jeová.

Veja este pequeno trecho retirado da Wikipedia sobre os Testemunhas de Jeová (o grifo é meu):

São ainda conhecidas por recusarem muitas das doutrinas centrais das demais religiões cristãs e pelo apego a fortes valores que afirmam ser baseados na Bíblia, nomeadamente quanto à neutralidade política,[7] à moralidade sexual,[8] à honestidade[9][10] e à recusa em aceitar transfusões de sangue.

Não é só isto. Apenas o fato de existir a possibilidade de um resultado negativo à oração já é mais uma evidência a reforçar o chamado “Problema do Mal”, de Epicuro, que você pode ler na imagem abaixo.

Temos que nos lembrar que a medicina é talvez o braço da ciência que mais salva vidas. Diariamente. Ela foi concebida exatamente para isto, portanto ignorá-la em favor de orações ou da crença num desígnio divino é, no mínimo, uma irracionalidade (para não dizer coisa pior).

Assim, mesmo que você siga uma religião e queira continuar seguindo-a, pense sobre isto. Pensar e questionar-se sobre as questões tanto da vida, como da morte, não lhe farão mal algum. Ao contrário: por pior que esteja a situação dos hospitais públicos brasileiros, pode melhorar (e muito) sua qualidade de vida. E este é o mais importante. Estou enganado?

“Se você quiser salvar seu filho da pólio, você pode rezar ou você pode vacinar… Tente a ciência.”

— Carl Sagan

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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5 Comments

  1. já havia visto algo do genero antes sobre a oração na net, e o paradoxo levantado no artigo faz sentido, mais acredito que mesmo entendendo o seu ponto de vista acho que seria util expor o meu dentro de um ponto de vista teista, afinal o assunto é crença e mesmo que seja algo discutivel eu creio que não seria pratico de minha parte discutir isso. vamos ser objetivos, o individuo deve antes de mais nada olhar as circustancias ao seu redor o ver qual é a solução mais viavel para os seus problemas dentro de uma perpectiva palpsvel, sendo teista ou ateu, acho que os seres humanos desconhecem suas proprias capacidades e por isso fica em xeque, com ou sem oração o individuo deve fazer o melhor possivel dentro do seu alcance para atingir suas metas. em todo caso admiro seu trabalho, seus textos são bem embasados e coesos.

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  2. Para início de conversa, para falar em “oração”, eu teria de supor a existência de telepatia e de fantasmas. Então, poupo-me.

    A frase “Tente a ciência” de Sagan talvez seja melhor traduzida por “Experimente a ciência”. O original não é “try”??

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  3. A oração tem um efeito bem conhecido da ciência. Esse efeito é chamado de efeito placebo (ou efeito psicológico ou ainda efeito sugestivo).

    Todas as “curas” exibidas nas igrejas nada mais são o efeito placebo da oração. Quando alguém está doente e está “psicologicamente fraco” (mesmo que seja inconscientemente), as chances de cura diminuem muito. Quando essa pessoa chega a uma igreja e ora ou vê outras pessoas orando por ela, seu estado psicológico melhora e a pessoa fica mais confiante e o corpo faz o resto.

    É por isso que nunca veremos por exemplo, um amputado curado numa igreja, porque um membro amputado não “nasce de volta” mesmo que a pessoa acredite. O mesmo acontece com doenças incuráveis e qualquer outra coisa que NÃO funcione através do efeito placebo.

    Os pastores se aproveitam da ignorância das pessoas para atraí-las para a sua igreja dizendo que deus as curou e ganhar cada vez mais dízimo.

    Se deus curasse, do mesmo modo que vemos pessoas dizendo que foram curados (justamente as que respondem sob o efeito placebo), veríamos algumas pessoas amputadas ou com doenças incuráveis (justamente as que NÃO respondem sob o efeito placebo) sendo curadas, mas nunca veremos isso.

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    • Exato, Ângelo, é bem por aí. 🙂

      O mesmo se dá com coisas como astrologia, homeopatia e outras pseudociências por aí. O que, diga-se de passagem, é um enorme campo aberto para charlatões de todo tipo. :-\

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  4. A fé foi criada pelo homem para responder as perguntas sem ter que pensar.

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