A águia, o urso e o coelho

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Artigo submetido por um leitor do Livres Pensadores.


 

 

Não, não é uma fábula, não vamos nos enganar com o título. É mais perigoso do que parece. Os símbolos escolhidos por um povo claramente refletem sua personalidade, sua tendência, suas intenções, e é até estranho que não haja uma preocupação em disfarçar isso.

Shakespeare escreveu que os homens deveriam ser o que parecem. Ou, pelo menos, não parecerem o que não são. Se pensassem como um urso, deveriam assumir a forma de um urso. Se tivessem as intenções de um predador como o leão, então seus olhos, sua boca, seu rosto deveriam ser as fuças de um leão. Na realidade, não é assim. Ursos e leões, raposas e tigres circulam pelo mundo humano sem serem notados. Podem nos enganar em um momento ou outro da vida. Podem ser nossos líderes, eventualmente. Podem nos matar, se não estivermos preparados – se estivermos ainda acreditando nas aparências, apenas.

Mas não parece ser o caso de certos brasões, emblemas e bandeiras. As imagens contidas em alguns deles são sinais tão declarados do que mostram ser que nós nos acostumamos com eles ou, em último caso, reconhecemos as garras do predador e aceitamos nossa condição de menor poder. (Era Leibniz quem dizia que reconhecemos o leão pelas garras? Sim, ao considerar uma correspondência de Isaac Newton, enviada sob pseudônimo.)

O Grande Selo dos Estados Unidos, usado pela primeira vez em 1782, mais tarde tornando-se o símbolo oficial do país e de suas forças armadas, ostenta uma águia levando no bico uma fita com os dizeres: E pluribus unum, algo como todos e um só, isto é, vejam, estamos (e somos) unidos: somos muitos, plurais, diversos, e ao mesmo tempo somos um. Esse é um primeiro sinal de força: a união. Os estados unidos. Um país cujo nome provisório acabou se firmando: Estados Unidos da América, como hoje todos sabemos. (No início, havia algumas propostas para nomear a nova nação. Uma delas era Apalacha, devido às montanhas Apalache. Mas o nome provisório venceu.)

Bem, mas o que mais essa águia impávida nos conta? Na sua garra direita (esquerda para quem a olha de frente, claro) há um ramo, talvez de louro, significando amizade e boa vontade. Na esquerda, um consistente molho de flechas, aparentemente bem preparadas e prontas para uso. A cabeça da águia está voltada para o mesmo lado da garra que segura o ramo, sugerindo que sua prioridade está orientada pelo entendimento, centrada nas relações pacíficas. Mas ela não esconde suas flechas. É como se dissesse que primeiro propõe a diplomacia, os negócios, o comércio. “Mas não subestimem isto, vejam em minha outra garra. Não se esqueçam de que eu tenho um arsenal.”

Outros sinais são menos óbvios, mas interessantes. A bandeira americana ostenta 50 estrelas num retângulo azul-escuro, que são a conta dos estados (48 continentais, dois fora do território unificado, o Havaí e o Alasca), e 13 faixas horizontais, significando as antigas 13 colônias britânicas. As faixas se alternam entre vermelho e branco e, se observarmos a frequência dos conflitos armados na história desse país, poderíamos dizer que eles praticamente previram essa rotina intermitente: guerra e paz, guerra e paz… – vermelho e branco. (E para quem acredita que 13 é um número de azar, vale a pena reconsiderar e fazer uma reflexão.)

Não é a primeira vez que um povo com ideais expansionistas usa como símbolo um predador. O Império Romano também ostentava uma águia em suas flâmulas. Mais tarde, os nazistas optaram por essa ave majestosa em seus relevos e fachadas, e isso não é uma coincidência.1

Mas por que uma águia? Por que não uma galinha ou um carneiro? Claramente, a índole submissa de animais assim não causariam nenhuma identificação com a coletividade em questão, e caso fosse instituído em algum momento, um símbolo desses seria em pouco tempo descartado.

A imagem ao lado mostra o simpático Micha, mascote dos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980. Uma fofura, sem dúvida. Uma gracinha. As meninas, quando o veem, suspiram: “Aaaah…” Mas ele é um urso. Um urso, não um esquilo. Um predador, não podemos ignorar isso. Ele pode nos matar. Esse é o animal-símbolo da União Soviética, hoje Federação Russa, a única nação capaz de enfrentar os Estados Unidos, com quem dividiu o mundo por meio século. (Nunca me esqueço de uma charge que satirizava um dos muitos acordos de desarmamento entre essas duas grandes potências, durante a Guerra Fria: o Tio Sam e um urso cumprimentavam-se gentilmente, apertando as mãos um do outro, e cada um deles segurava, com a outra mão, escondida às costas, uma robusta clava de madeira, como a dos trogloditas.)

Mas chega de predadores, isso já está nos assustando desnecessariamente. Vamos falar das presas, que são mais engraçadinhas. Um coelho, por exemplo. A Páscoa é uma tradição muito antiga e se associa ao período de renovação da vida, a volta da primavera no hemisfério norte. Por isso nós, brasileiros, tanto quanto aceitamos de bom grado um Natal sem neve, não vemos muito de flores nesses outonos enfeitados de chocolate. Todos sabem algo sobre a Páscoa, por isso não vou me estender nisso. O que me chama a atenção é o nosso amigo coelho. Um animal que se reproduz muito facilmente e com pequenos intervalos entre uma gestação e outra. E não há nada mais alegre e excitante do que observar coelhos e coelhas sorridentes procurando-se com entusiasmo e sem sérios problemas de relacionamento. Essa sensualidade disfarçada (muito mal disfarçada), na figura do coelhinho bonito e sem problemas, serve também como logomarca de uma famosa revista masculina, hoje um império da mídia. Os homens se identificam com ele. Ou sonham ser como ele, atrevido e despreocupado.

Certa vez, numa aula de interpretação de textos e signos visuais no Ensino Médio, uma aluna adolescente pareceu incomodada com essa associação (o coelhinho da Páscoa e o seu primo da Playboy), chegando a perguntar por que haviam feito aquilo? Eu lhe disse que não havia nada de mais naquilo, que não eram coelhos diferentes, eram o mesmo coelho, a representatividade era a mesma: primavera, acasalamento, excitação, sensualidade, renovação da vida… – pois se alguém, inadvertidamente, se esqueceu disso, o sexo é a única maneira de preservar a vida.

Naquele semestre, particularmente, um colega professor que por acaso (ou por vocação) era também padre, lecionava sua disciplina logo após a minha, na sucessão de horários. Às vezes ele encontrava minha lousa atulhada de rabiscos: cobras, dragões, flechas ligando pirâmides a ciclopes, menções aos cavaleiros do Rei Artur e aos Beatles, águias nazistas e… coelhos. Não sei o que ele pode ter pensado, o que pode ter concluído sobre aquilo que eu estava ensinando ali, antes de sua aula. (Admito que a lousa não era nenhum exemplo de organização espacial.) Minha aluna, surpreendida pela insólita conexão de um símbolo recorrente, da tradição antiga revista na contemporaneidade, enfim, da renovação do coelho vivo, declarou com certa inquietação: “Vou contar pro padre.” Como assim, contar para o padre? Ela esclareceu, queria apenas confirmar com ele se era aquilo mesmo, se o lindo coelhinho dos ovos de chocolate era também o lindo coelhinho de blacktie. Eu me lembrava muito bem de como algumas descobertas desse gênero me haviam decepcionado quando menino. Por isso, me dirigi a ela com especial atenção, explicando que os símbolos são muitas vezes usados em culturas diferentes, em tempos diferentes, mesmo que alguém não tenha intencionalmente se apropriado de alguma ideia alheia, talvez relacionada a algo sagrado, inclusive. “Observe”, eu lhe disse. “Não fui eu quem inventou a Páscoa, nem quem escolheu o coelho, nem quem o desenhou para a Playboy.2 Estou apenas lhe mostrando essas relações, para que possamos considerar com mais atenção o fato de que certas imagens podem passar por inofensivas e ao mesmo tempo revelar coisas importantes por trás do que nos parecem à primeira vista. Olhe outra vez e pense. Entendeu melhor agora?” Sim, ela fez um gesto afirmativo com a cabeça. Parecia mais calma e em nenhum momento havia me tratado com hostilidade. Estava apenas pensativa, e isso era bom. Após um minuto de reflexão, ainda um pouco pálida, ela disse em voz baixa: “Vou contar pro padre.”

 

1 A águia foi também o símbolo do Projeto Apollo e o nome do módulo de aterrissagem na histórica e arriscada viagem que levou os primeiros homens à Lua. Ao tocar o solo, o comandante da missão, Neil Armstrong, informou: “The Eagle has landed.” (A águia pousou.)

 

2 Inicialmente, o símbolo da Playboy era um veado. Pouco depois, optaram pelo coelho, uma imagem menos masculina, porém mais simpática.

 

Postado por Perce Polegatto

 

http://www.percepolegatto.com.br/2012/01/15/a-aguia-o-urso-e-o-coelho/


Artigo submetido por um leitor do Livres Pensadores. 

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Autor(es):

Perce Polegatto

Nascido em Ribeirão Preto, SP. Publicou seu primeiro livro em 1985, “A canção de pedra”, que traz alguns de seus primeiros trabalhos, ainda sob forte influência do romantismo tardio de autores alemães e franceses. A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos. É autor de “A conspiração dos felizes”, “A seta de Verena”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Os últimos dias de agosto”, romance recentemente reeditado pela All Print Editora, São Paulo.

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