Caçadores e virgens entre as estrelas

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Artigo submetido por um leitor do Livres Pensadores.


 

 

Na mitologia grega, a ninfa caçadora Calisto atraía a atenção de Zeus, o deus dos deuses. Sua esposa, Hera, naturalmente enciumada, amaldiçoou a jovem, transformando-a numa ursa. Fácil resolver, não? Apesar disso, Calisto resistiu, esforçando-se para continuar andando ereta, tentando ainda ser uma mulher, mas isso se tornara impossível: por mais que tentasse, ela agora era uma ursa e não conseguia mais falar ou agir como humana. Calisto passou a viver com medo dos deuses e das outras feras, mesmo sendo também uma fera, optando pelo isolamento. Muitos anos depois, reencontrou na floresta seu filho, o caçador Arcas, agora um adulto, e tentou abraçá-lo. Sem saber que se tratava de sua própria mãe, condenada pelos deuses, ele ergueu sua lança para matá-la. Nesse momento, Zeus, compadecido com aquela situação, parou o tempo, afastou um do outro e os colocou no céu, onde foram convertidos em estrelas. Arcas, o filho, transformou-se em Arctofilax, a Ursa Menor, o guardião da ursa. Calisto, desde então, é a magnífica Ursa Maior. 

O nosso planeta se move, mas isso não é nada. Nosso sistema solar todo, dentro de uma gigantesca galáxia, chamada Via Láctea, também está em permanente viagem pelo espaço. A nossa e as outras galáxias também se deslocam, afastando-se umas das outras, em velocidades que o senso comum, em princípio, tem dificuldade em aceitar. Ninguém sabia disso até perto de um século atrás. Tudo no cosmo é gigantesco se comparado aos nossos padrões de medidas. Bom, e o que temos com isso? É que as estrelas que formam as constelações que vemos daqui também estão muito distantes umas das outras, em profundidades diferentes em relação ao nosso ângulo de visão. Mesmo assim, ao observar as mais brilhantes, encontramos formas e imagens conhecidas por nós – um caranguejo, um peixe ou um touro.

Os mesmos pontos em destaque, se ligados de outra maneira, podem formar imagens diferentes. Por isso o que os antigos gregos viram como uma ursa foi visto pelos chineses como um veículo divino, pelos europeus medievais como uma carruagem (a Carroça de Charles), pelos ingleses como um instrumento agrícola e pelos franceses, menos imaginativos, como uma simples caçarola. A constelação da Ursa Maior poderia ser, portanto, a constelação da Caçarola. Talvez fosse um signo do zodíaco, e você diria: “Meu signo é Caçarola. Meu destino foi esse, ter nascido sob essa influência, por isso gosto tanto de cozinhar.” (Ou de comer, claro.)

Quanto a nós, não a vemos sob forma alguma, pois é uma constelação setentrional, visível somente aos habitantes do hemisfério norte. A propósito, a palavra grega para ursa (árktos) também deu origem a Ártico e ao nome Artur, como o do lendário rei tutelado pelo mago Merlin, associando-o às qualidades de um urso, talvez por ser forte e destemido. (Não quero admitir que ele fosse apenas peludo.) Nem Calisto nem Merlin existiram de verdade. Como também não existe nenhuma ursa ou ninfa entre as estrelas. Mas claro que nós precisamos de fantasias ou a vida perde a graça, não é mesmo? Vamos continuar.

Podemos tentar o mesmo procedimento com o Cruzeiro do Sul, tornando-o facilmente um guarda-sol ou uma pipa, por exemplo, tendo como base a mesma constelação que inspirou os navegadores europeus, que primeiro a denominaram. Nossos ancestrais conquistadores podiam de fato acreditar que a imagem de uma cruz brilhava fixa nos céus, como se houvesse sido instalada ali, só para nos deslumbrar. Mas a cruz devia significar algo mais do que isso, do contrário não faria muito sentido que uma religião escolhesse como emblema um instrumento de tortura. É um símbolo muito antigo, uma das formas mais simples de serem desenhadas, e suas origens remontam aos povos nômades das estepes da Ásia Central e da região de Altai, na Rússia. Também não seria justo que só os povos do hemisfério sul tivessem o privilégio dessa visão – por que não os do norte, que eram cristãos? O Cruzeiro do Sul (Crux Australis), como seu próprio nome indica, é uma constelação austral, não boreal. E como nos jogos infantis em que se propõe unir os pontos com traços simples, podemos escolher qualquer forma que nos convenha num céu estrelado – com a diferença de que nos joguinhos há apenas uma resposta certa, indicada pela sequência de números. 

Hoje sabemos que todos os corpos celestes se movimentam. Que as galáxias estão em constante viagem pelo espaço – como já anunciado acima, sem muito entusiasmo. (Mesmo agora, com o giro do planeta sobre si mesmo, estamos viajando a cerca de 1700 km/h, basta dividir a circunferência da Terra por 24 horas.) Sabemos também que as estrelas que vemos hoje são imagens do passado. As constelações que veremos esta noite e as formas que encontramos nelas não configurariam o mesmo arranjo milhões de anos atrás. Por exemplo, no que chamamos vulgarmente tempo dos dinossauros, veríamos no céu outras constelações e outras formas. E naturalmente as associaríamos com algo que conhecêssemos previamente, nunca com uma geladeira ou com uma bicicleta. Pois não há como confirmar sua forma definitiva. Não existem desenhos no céu.

O grego Demóstenes escreveu que “estamos sempre inclinados a acreditar naquilo que desejamos.” Podemos visualizar, entre as opções da noite clara e com a ajuda de nossa prodigiosa imaginação, um caçador ou uma virgem (mas como podemos, afinal, saber que se trata de uma virgem?) ou um carneiro ou um cavalo alado. Tudo isso é criativo e maravilhoso. Mas a razão é o outro lado da moeda.

Calculando a trajetória das estrelas que formam as constelações, temos uma imagem bem diversa da que podemos observar atualmente. Uma simulação feita em computador mostra a posição em que estarão dispostas as estrelas da constelação de Leão daqui a um milhão de anos. Do ponto de vista dos terráqueos, ela terá a forma semelhante à de uma fruteira ou de um radiotelescópio. E você dirá: “Meu signo? Radiotelescópio. Pois é, eu tenho essa capacidade, essa percepção, eu capto os sentimentos e a energia das pessoas.” Leão? Não haverá mais nenhum leão por ali. E como nos lembra o astrônomo Carl Sagan, em seu monumental Cosmos, provavelmente daqui a um milhão de anos ninguém saberá o que foi um radiotelescópio. Fico pensando em quantas pessoas, desde Ptolomeu, se beneficiaram com a sorte de serem nascidas sob o signo de Leão, incorporando essa ideia à sua autoestima. No futuro, encontrarão outras associações, outras formas que lhes sejam convenientes, assim como para alguns de nós, ainda hoje, é conveniente acreditar em horóscopos.

De qualquer forma (ou com qualquer forma), mesmo que não estivesse escrito (ou desenhado) nas estrelas, não deixa de ser fascinante a constatação de que podemos pensar, imaginar, fantasiar tendo como cenário de fundo o próprio universo que nos formou. O conhecimento desse processo extraordinário foi o que inspirou os cosmologistas a nos definirem, muito apropriadamente, como filhos das estrelas. Sem dúvida vamos continuar nos encantando com o que nos oferece esse gigantesco berçário cósmico, a vasta noite iluminada. Vamos para fora, sorrir às estrelas, nossas ancestrais silenciosas. Hoje a noite promete.

 

Postado por Perce Polegatto

 

http://www.percepolegatto.com.br/2011/01/22/cacadores-e-virgens-entre-as-estrelas/

 


Artigo submetido por um leitor do Livres Pensadores.

 

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Autor(es):

Perce Polegatto

Nascido em Ribeirão Preto, SP. Publicou seu primeiro livro em 1985, “A canção de pedra”, que traz alguns de seus primeiros trabalhos, ainda sob forte influência do romantismo tardio de autores alemães e franceses. A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos. É autor de “A conspiração dos felizes”, “A seta de Verena”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Os últimos dias de agosto”, romance recentemente reeditado pela All Print Editora, São Paulo.

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