Da Origem de Determinados Argumentos Tolos – III

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 10.0/10 (3 votes cast)

Decréscimo infinito

ou o método de intersecções de Newton aplicado como falácia

 

Primeiramente, definamos o que seja um “decréscimo infinito”, ou, como considero mais bonito, um “descenso infinito”, como o chamam os castelhanos.

Um descréscimo infinito é um tipo de demonstração por indução ao absurdo que aplica-se em demonstrações euclidiano-pitagóricas em Matemática. Complexo?

Na verdade, é uma demonstração simples. faz-se uma construção tal que frações surjam, cada vez produzindo números menores, até o ponto que mostre-se que serão infinitamente produzidas, e como não se pode dividir eternamente um número, por maior que este seja, a demonstração surge desta contradição absurda. O que supomos no início como uma hipótese mostra-se uma impossibilidade que contradiz a própria hipótese que foi proposta.

O exemplo mais clássico que conheço é a demonstração de que a raiz quadrada de 2 é um número irracional, ou seja, não seja representável por uma fração de números inteiros.

Fiz uma demonstração destas para sustentar que PHI, o número da proporção áurea  (1,618…) é um número irracional.

Scientia est Potentia – Mostre-me o universo II

Repitamos aqui, com a clássica demonstração que atormentou os pitagóricos, ao ponto de a lenda dizer que isto que causou a morte de Hipaso de Metaponto.

Por Euclides, supomos SQR 2 (raiz quadrada de 2, como habitualmente representamos na internet) como racional, logo, razão de dois inteiros:

 

SQR 2 = a/b, onde a e b são inteiros. Elevando os dois lados da equação ao quadrado temos:

 

2=(a^2)/(b^2) .’. (b^2)=(a^2)/2

 

Obs.:  ‘A^B’ é a representação para ‘A elevado á potência B’.

 

Como b é inteiro, a ao quadrado dividido por 2 tem de resultar num inteiro, e portanto, a tem de ser igual a um número par, logo, um número c multiplicado por 2:

(b^2)=[(2*c)^2]/2=4*(c^2)/2 .’. (c^2)=(b^2)/2

Assim, c tendo de ser inteiro, leva a

(c^2)=[(2*d)^2]/2=4*(d^2)/2 .’. (d^2)=(c^2)/2

O que levaria a se necessitar de um número infinitamente divisível por 2, o que é absurdo (um dito ‘descréscimo infinito’). Assim sendo, SQR 2 não pode ser racional, e consequentemente, SQR 2 é irracional.

Q.E.D.

Mas prolonguemos nossa simplória matemática para outra questão, que será ainda mais útil para tratarmos de determinado tipo de argumentação dos criacionistas.

Newton desenvolveu um dos mais simples e banais métodos de solução numérica (o nosso Cálculo Numérico) de complexas equações. Havendo uma equação, nós supomos um determinado valor de sua variável, um valor “menor”, e também, um valor “maior”.

Estes dois valores, aplicados  uma equação, darão um resultado, que aproximando-se mais ou menos do que objetivamos (por exemplo notável, “zerar” uma equação, ou o valor onde nossos x levam y a ser igual a zero), permite a colocação de um valor intermediário entre estes. Com o prosseguimento deste processo, se chegará a raízes (ou qualquer solução) de qualquer equação, embora existam equações (e sistemas delas) que apresentam regiões de instabilidade, mas isto não nos interessa aqui.

Apresento aqui uma planilha do método para a relativamente “robusta” equação

y= 4x^4 – 3x^3 + 2x^2 – 18x -32

, um caso, para o campo da Matemática, Física ou das Engenharias, bastante simples, mas espero que ilustrativo:

Método de interseccao de Newton 1

Perceba-se que neste caso, busquei apenas uma raiz da equação, e não todas, o que necessitaria “detectar” faixas onde elas estivessem, que são flexões acima e abaixo do eixo x, um “passando pelo valor zero”. Acredito que noções de Matemática de secundário já permitem entender este método.

Mas retornemos a “nossos amigos”.

Quando apresentamos aos criacionistas um ungulado primitivo (o melhor seria dizer ancestral, do passado dos ungulados) e ancestral comum a dois ou mais ungulados da atualidade (e mesmo do passado), não tardará a estes pedirem um intermediário entre os dois.

Feito isto, e suponhamos que a Paleontologia disporá deste, não tardarão a pedir um, ou os dois, intermediário(s) entre o intermediário recém apresentado e o ancestral inicialmente apresentado, e como tento explicar o nível de exigência, entre o intermediário apresentado e a forma atual.

Feito tal coisa, ou não, pois seguidamente nem nos importamos com a Paleontologia não ter encontrado tal forma, e sabemos que dependendo do caso jamais os terá [nota 1], passarão a pedir outra partição, perfeita e diria, como vimos, “newtoniana” da árvore de ancestralidade que estamos pelas suas exigências construindo. E assim, ad nauseam, ad eternum, talvez até, muitas vezes com irritação profunda, não termos a resposta perfeita.

Obs: Copiando o estillo de meu amigo Ravik, diria também ad pentelhorum. Perdão, mas não resisti a acrescentar isto neste texto.

A questão é que tal partição, se fosse possível de ser feita,  exigiria não determinados salto marcantes, como temos da evolução do cavalo, que não se dá nem pelo tamanho, que é uma variável menor, da mesma maneira que não diferenciamos o cavalo médio do mais minúsculo pônei, assim como os gigantes belgas de uma tonelada, como espécies distintas, mas sim pelas marcantes alterações na anatomia, destacadamente, o número de seus “dedos”.

equinos evol 1

 

Percebamos que sabermos todas as mínimas modificações, todos os mínimos passos, que por esta argumentação deveria incluir até irrecuperáveis nuances de pelagem (ou não seria importante num certo nível isto também par diferenciar listradas zebras de um tanto lanosos pôneis da Mongólia?), em coisa alguma derruba que a evolução do cavalo é evidente, e mais que sólidos seus ancestrais na Paleontologia, e mais ainda, a diferenciação, as especiações que produziram hoje entre os equinos (o gênero Equus) desde a zebra, os cavalos de sangue frio, os árabes, os pôneis dos mais diversos tipos, e os asnos, sem falar de diversas formas extintas.

 

Poderia estender esta argumentação para inúmeras espécies de mamíferos, dos quais temos imensamente mais sólidos registros que de todos os demais taxons de animais (em caso de discussão com um profissional de Paleontologia sobre o tema, desculpe, mas a questão aqui é didática e não exatista sobre o tema!), até porque muito mais recentes que os mais remotos “protomamíferos”, ou mesmo certos amniotas dos quais descendemos, onde teríamos de fazer a mente criacionista ver que o que parece ao leigo um lagarto já mostra os diferenciados dentes que somente os mamíferos posteriormente apresentarão.

protomamiferos cranios 1

 

Recomendaria este site especialmente aos “católicos” (note-se as aspas) da Monfort: Evidence for Evolution and an Old Earthwww.philvaz.com

 

Teríamos para apresentar-lhes, até taxons completamente extintos, provavelmente, por entalarem na porta da arca de Noé, pois outros mamíferos, seus contemporâneos, entraram.

brontoterios 1

 

research.amnh.org
Como criacionistas tem uma quase patológica tendência de achar que Paleontologia vive de reconstruções artísticas de fósseis, e não da sólida comparação de ossos e dentes fossilizados:

 

brontoterios 2

 

geology.cwru.edu

 

Apenas como ilustração, e até para guardar poderosa imagem para futuras ilustrações do tema, observemos a inegável semelhança anatômica abaixo:

 

ungulados 1

geology.cwru.edu

 

Poderíamos não só lhes apresentar panoramas das modificações próximas, como vimos acima, mas panoramas amplos, sempre focando-se em taxons próximos e agrupáveis do que chamaria de “uma região limitada”:

 

ungulados 2

 

Galeria de Bruce Aleksander & Dennis Milam, no www.flickr.com, pois quem copia os copiões, e cita a fonte, tem cem anos de perdão na copiação.
Não lhes interessaria cladogramas minuciosos, ou amplos, separações, especiações, de apenas milhares de anos de proximidade, seus “braços” e bifurcações, entre espécies claramente próximas, mesmo no mais evidente detalhe. Ainda sim, exigiriam formas intermediárias que ali teriam de ser apresentadas, como se eu, para reconhecer um navio como um navio de cruzeiro, não tivesse que ver sua forma no mais amplo, mas ter de verificar cada deck, cada corredor, cada quarto, e por fim, depois deste exame na verdade ridículo, proferir a obviedade: – Óh, é um navio de cruzeiro mesmo!

 

Então, em verdade lhes apresento, que os criacionistas aqui desenvolveram peculiar e privada falácia, a de tratar um processo e seu modelo que é contínuo e só necessita de nós específicos conhecidos (sem nem mesmo tratarmos aqui da genética) em um contínuo que tem de ser infinitamente – logo impossível – dividido: a aplicação de similar ao método das intersecções de Newton como se a história da vida ele permitisse, até porque entre duas espécies, não há “meia espécie”, como há 1,5 entre 1 e 2, assim como mais banalmente ainda, entre uma geração e outra não há meia geração, como ainda mais banalmente, entre meu pai e eu, acredito e juro, ao que parece não há “meio-eu-meu-pai”.
Focamo-nos aqui em mamíferos de grande porte, pela banalidade que é obter-se literatura sobre eles, e porque acredito piamente que é mais fácil convencer alguém de que um proboscídeo primitivo modificou-se num dinotério e nos atuais elefantes (sem falar de todos os proboscídeos do passado, como o contemporâneo até com os fenícios e egípcios mamute – embora estes não os tenham conhecido) do que um pequeno mamífero que conviveu com os dinossauros tenha dado origem tanto a um elefante quanto a um homem, ou mesmo, o pouco espetacular exemplo da evolução de animais pequenos.

 

dinoterio 1

Dinotério – crexsblogdomain.blogspot.com.br

Obs.: Desculpem, amigos paleontólogos, mas mentes acostumadas a retumbantes pregações e mitos bíblicos de fogo descendo dos céus e mares se abrindo não consideram um pequeno placentário importantíssimo para a Paleontologia de mamíferos algo mais que um animal que deveria ser morto numa ratoeira.

grandes mamiferos 1

www.livescience.com

Mas a questão não é despejarmos sobre o criacionista toneladas de desenvolvimentos da Paleontologia, mesmo apenas nos restringindo a animais, pois seguidamente, eles pulam (até desonestamente) plantas e fungos, onde a questão seria um tanto mais difusa e comprometedora de sua “causa”, sem falar das simbioses, que seriam o pesadelo para certos conceitos simplórios do que seria “espécie”.

 

Mas há uma desonestidade mais clara e profunda, e aqui, baseio-me sempre na argumentação de Herbert Spencer, que embora nem de perto correta e que nos desgraçou com uma noção que chamaria aristotelicoide de que evolução tem um sentido “de escada” e “piramidal” da mais simples bactéria imaginável até inexorável e teleologicamente o humano, de que estas miríades de formas de vida que foram apresentadas (até por exigência de seu próprio argumento de intermediários necessários para validar a evolução, se não modificações umas das outras, exigiriam ter todas sido existentes no mesmo tempo, simultaneamente, e como tal é banalmente pela ecologia e pela própria “hereditariedade”, já aos tempos de Wallace e Darwin, impossível, em insustentáveis populações, e portanto, por tal indução ao absurdo*, necessariamente são modificações umas das outras.

 

* Perceberam minha “vingança” com certos termos dentro do mesmo texto?

 

Logo, afirmamos por simples lógica: independente dos mecanismos, espécies se modificam, pois teriam de para poder ter populações viáveis, surgir miraculosamente, substituindo as que se extinguiriam, e nem interessaria por qual motivo!

 

Mas nem abordamos o problema por tais caminhos dedutivos, mais que perigosos, traiçoeiros e escorregadios, pois sabemos que levam, e levaram, seguidamente, a ciência ao crasso erro, não é mesmo, coisas mais pesadas que caem mais rápido, “seu” Aristóteles? Que os planetas, o Sol e as estrelas orbitam a Terra, não é mesmo, “seu” Ptolomeu? Que porque duas órbitas de planetas muito aproximadamente se encaixam num triângulo, todas se encaixariam em sólidos geométricos perfeitos, não é mesmo, “seu” Kepler*? Que o Sol, sendo similar a uma bola de algodão pólvora, teria não mais de 500 milhões de anos, Lord Kelvin? E até mesmo, na Biologia, que exatamentea ontogenia recapitula a filogenia, “seu” Haeckel?

 

Poderia ficar enchendo páginas com erros similares.

 

*Aqui, sou um tanto agressivo, pois Kepler abandonou este seu modelo “perfeitinho e geométrico”, pela esmagadora força das evidências observacionais, lançando, com isso, as bases até de uma nova Cosmologia.

 

Ciência, como podemos ver, desde Kepler e até um tanto antes não avança por poderosos raciocínios, mas estes sobre inquestionáveis evidências experimentais e observacionais, testadas permanentemente.

 

Algo muito diverso que achar que “eu acho”, ou “eu não acredito”, ou ainda pior, o extremado “eu acredito em mitos de povos da Idade do Bronze que nem tinham num momento escrita e nem observavam a Lua aparecer de dia”, seja a expressão absoluta ou inquestionável de uma tola “verdade”.

 

Mas abandonemos arremedos de Filosofia da Ciência e nos concentremos novamente nos “nossos amigos”…

 

Claro que aqui, poderíamos trazer o tolo conceito de “baramim”, e nos perguntaríamos por qual motivo eles não aceitam nossos intermediários mais óbvios, na mesma medida em qu temos de aceitar que seus ancestrais mais ferozmente defendidos não permitem ter como ancestrais os claramente aproximados na anatomia ancestrais que lhes apresentamos?

 

Para “nós”, todo o fixismo, para “eles”, evolução extremamente acelerada, porém, insustentavelmente limitada nas formas.

 

Sabemos que aqui, é a peça quadrada que insistem em martelar para fazer entrar na casa quadrada, tal criança birrenta e ainda irracional. Sendo a peça a variedade “em enxame” de espécies do presente e do passado, e a casa onde tal monstruosidade deve se encaixar, o insustentável canoão do bêbado mais notório da Bíblia.

 

Para os criacionistas não propriamente bíblicos, o conjunto básico de questões se mantém, e só retiram-se os detalhes específicos.

 

A questão é quando inverteremos este ônus da prova sobre eles, para que nos apresentem como raios surgiu, e por quais para nós exigidos processos físico-químicos, esqueçamos o biológico, todas as na pratica incontáveis espécies que nos cobram numa continuidade de tempo e até espaço*?

 

* Pois camelos da Ásia, por exemplo, guardam continuidade clara com lhamas da América.

camelos 1

 

 

getouterspace.tumblr.com

 

Em suma, quando apresentarão, pelo menos, resposta a minha banal e limitada pergunta, sobre mais que destacado e simpático animal:

 

Como “PUF!” um elefante?

 

Esta é minha luz, criacionista beligerante,

este é meu luminoso e assustador archote!

Mostre-me na savana como pufou o elefante,

e nos mares, baleias, o cabeçudo cachalote?

Notas

 

1. Explicações dos motivos pelos quais “não temos de ter” todos os passos do processo evolutivo no registro fóssil:

Competing Hypotheses About the Pace of Evolution – evolution.berkeley.edu

 

The Pace of Evolution – evolution.berkeley.edu
Recomendações de leitura

 

 

Anexos

Ah, a girafa…

Quando criacionistas amolarem com a evolução da girafa, um dos casos mais renitentes a que se apegam, não tenham pena de expor em público sua ignorância.

 

girafideos 1

 

getouterspace.tumblr.com

 

E o site que sempre sito: www.girafamania.com.br

 

Da Origem de Determinados Argumentos Tolos - III, 10.0 out of 10 based on 3 ratings

Autor(es):

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

ChatClick here to chat!+