Deus não é necessário para explicar o universo

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No Brasil, buy more about o nível de ignorância das pessoas em termos de conceitos e teorias científicas é tão alarmante, que, discuti-los até mesmo nas universidades pode gerar as reações mais inesperadas. Isso decorre, em grande parte, do fato de a nossa educação básica não cumprir os requisitos mínimos para a formação dos estudantes; prova disso são as baixíssimas notas no último Ideb que revelaram as deficiências gritantes de nosso sistema educacional.

Em um contexto educacional de tão baixa qualidade, falar sobre o Big Bang, o processo de formação da Terra e explicar a Evolução das Espécies pode ser motivo para que um professor de ciências ou biologia seja demitido de uma instituição escolar ou coagido a simplesmente não ensinar esses conteúdos. Em algumas escolas particulares de orientação confessional, isso é praticamente tabu. Nas universidades, recebemos alunos como uma tabula rasa e com as mentes completamente bloqueadas para receber qualquer coisa que vá de encontro aos dogmas religiosos que lhes foram inculcados desde a primeira infância. Quantos alunos saem do ensino médio compreendendo a importância de Copérnico e Galileu, as leis de Newton ou em que consiste a relatividade?

A frase do título desse texto fora dita a Napoleão por Simon Laplace (1749-1827) e retomada por Stephen Hawking em seu livro mais recente, “O Grande Projeto”. No início de sua obra, escrita em parceria com Leonard Mlodinow, Hawking deixa claro que para explicar a origem do universo não é necessário recorrer à intervenção de nenhum ser sobrenatural ou Deus.

Embora isso seja óbvio desde a época de Laplace, é preciso ser repetido inúmeras vezes para que os fraudadores da ciência de plantão não vejam em tudo a justificação de suas crenças religiosas. Assim fazem, por exemplo, os espíritas, alguns cristãos fundamentalistas e várias outras seitas espalhadas pelo mundo.

Claro que os grandes representantes da ciência ao longo da história foram pessoas profundamente envolvidas em crenças religiosas, como Galileu, Pascal, Newton, Einstein, mas esses homens devem ser compreendidos pelo tempo em que estavam inseridos e a nós cabe compreender que uma coisa eram suas convicções pessoais e outra as leis da natureza que descobriram.

Na modernidade, o método científico foi desenvolvido como resultado dos esforços de diversos pesquisadores para compreender a natureza. Naquele contexto, para muitas pessoas a ciência era uma forma de compreensão da natureza e, consequentemente, da obra divina. Não havia uma clara separação entre as duas áreas. Foi somente na segunda metade do século XIX e especialmente no XX que o conhecimento científico ganhou autonomia com a divisão das áreas de conhecimento e o fim de sua dependência da Teologia. Einstein, por exemplo, embora fosse bastante espirituoso, era um grande crítico das religiões institucionalizadas, especialmente o monoteísmo. Sua espiritualidade, no entanto, não era no sentido religioso, o que o tornava um ateu.

Um fato importante que o avanço da ciência nos últimos séculos demonstra é que quanto mais conhecemos de menos Deus(es) precisamos, ou seja, quanto mais explicamos o universo, menos precisamos recorrer à intervenção de qualquer ser ou força sobrenatural. Como dizia Carl Sagan, há mais de quinhentos anos não se apresenta novos argumentos a favor da existência de Deus, permanecendo ainda as questões colocadas por Tomás de Aquino e os demais teólogos da Escolástica. O que geralmente os religiosos argumentam é que a ordem no universo aponta para um criador, uma visão mecanicista hoje superada, conforme demonstrou o físico Marcelo Gleiser em seu livro Criação Imperfeita.

Muitas pessoas que ignoram a forma como se faz ciência dizem que o fato de ela não postular verdades absolutas a torna vulnerável perante a religião. Mas é justamente aí que resulta o mérito do conhecimento científico. O conhecimento que temos de um fenômeno só pode ser chamado de científico pela nossa capacidade de medi-lo e qualquer pesquisa pode demonstrar equívocos em uma teoria anterior. Isso é o mais elementar da ciência que sequer é ensinado em muitas de nossas escolas de educação básica.

O avanço da ciência nos últimos cinco séculos colocou Deus em um espaço cada vez mais reduzido e hoje ele se confina à vida particular, a ser uma alternativa para a morte, uma explicação ou consolo para o caos, mas não mais a causa incriada de tudo o que existe. Considerar Deus eterno daria o mesmo resultado que considerar o universo eterno: de toda forma nos depararemos com o problema da origem, no caso de Deus, a questão é como algo pode não ter princípio e, no caso do universo, o que desencadeou o Big Bang.

Mas quando determinados interesses religiosos são usados para manter as pessoas na ignorância, para impor determinada visão de mundo como a única legítima, para impedir o avanço de pesquisas e a divulgação das mesmas, se torna necessário colocar a religião no seu devido lugar e deixar que a educação e a pesquisa caminhem de forma independente. Certamente o conhecimento científico não invalida a religião e ambos não estão, necessariamente, em polos opostos. Mas quando a segunda intervém no primeiro, aí poderemos ter grandes problemas.

Hoje a ciência não é mais um conhecimento hermético tão distante do grande público. Frequentemente, tem sido lançados livros e mais livros de divulgação científica para os não especialistas em astrofísica ou astronomia. Os livros de Carl Sagan, do próprio Hawking, Brian Greene, e no Brasil, de Marcelo Gleiser, são apenas alguns exemplos.

Um bom entendimento da história do pensamento científico já seria um passo importante para que nossa juventude veja a ciência como uma aventura estimulante, e não uma atividade de pessoas loucas e distantes. Infelizmente, com o tipo de religião que tem crescido no Brasil, esse ideal tende a ficar mais distante. Com determinados parlamentares legislando para tornar obrigatórios o ensino do criacionismo e a leitura da Bíblia nas escolas, não formaremos bons alunos nem bons pesquisadores. Como a religião está fundamentada em dogmas, verdades eternas tidas como reveladas, é embaraçoso para os teólogos abrir mão de alguns deles, o que representaria a possível deserção de muitos fiéis.

Mas o que é preciso esclarecer às pessoas é que a Bíblia é um livro normativo e não explicativo, ou seja, foi escrita com o objetivo de estabelecer normas de conduta e não descrever o funcionamento do cosmos. Suas narrativas são alegorias e não eventos históricos. Se não as considerarmos alegóricas, teremos que perguntar, por exemplo, por que Deus teve receio de que os homens que construíram a Torre de Babel pudessem chegar aos céus se eles nem mesmo podiam atravessar a atmosfera? Como Deus poderia não saber disso? Quantas explicações esdrúxulas os teólogos têm dado para justificar a passagem do livro de Josué de que o sol parou apenas para não abrir mão do princípio de que um livro divinamente inspirado não pode errar. Nem todos os teólogos pensam assim, mas os fundamentalistas ainda insistem na postura tacanha de transformar a Bíblia em um manual de ciência.

Por enquanto temos que ficar repetindo que crenças religiosas devem ficar fora dos portões das escolas e que a crença em Deus não é necessária para explicar a origem do universo e dos seres vivos. A religião pode ser um importante meio cultural para se ensinar as pessoas a se tornar melhores, ajudá-las a recuperar-se de vícios e adquirir autoestima para construir uma nova vida, fornecendo-lhes motivação e esperança. A ciência, por outro lado, não pode fazer o mesmo, porque não é normativa, mas explicativa. Reconhecer essa diferença e as limitações de cada uma dessas áreas é o primeiro passo para não cometermos erros como fez a religião com Miguel Servet, Giordano Bruno e Galileu e alguns regimes políticos que tentaram abolir a religião em nome do que entendiam como ciência.

Texto da autoria de Bertone de Oliveira Sousa, originalmente publicado em http://goo.gl/Wfyf8i

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Autor(es):

Daniel

Sou desenvolvedor de softwares, ateu, cético, gamer, fã de Star Wars, mochileiro das galáxias, lutador de Hapkido, jogador e mestre de D&D. Converso sozinho e disfarço quando as pessoas percebem, defendo tudo aquilo que acredito estar certo, critico tudo aquilo que acredito estar errado, acredito que um mundo melhor é possível se cada um fizer a sua parte e observo o mundo ao meu redor para melhor entendê-lo, sempre em busca de novos e eternos aprendizados.

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9 Comments

  1. “Para as leis da física (= da natureza) não é necessário Deus” frase cientificamente válida; mas também cientificamente válida estoutra frase “para as leis da natureza não é necessário vida”; ambas as frases do tipo “non sequitur”: “… não é necessário vida” mas “non sequitur vitam non esse”; “… não é necessário Deus” mas “non sequitur Deum non esse”.

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    • Non sequitur é uma falácia, logo, se uma frase caracteriza non sequitur, ela não é válida. Assim sendo, sou obrigado e pedir que vc se decida… ou a frase é válida, ou ela é non sequitur… é impossível que seja as duas coisas (válida e non sequitur) simultaneamente!

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  2. De acordo. Mas permanece o incômodo: embora – como diz o texto – a crença em Deus não seja necessária para explicar a origem do universo e dos seres vivos, não se segue daí não existir Deus. O problema é que o artigo “Deus não é necessário para explicar o universo” não diz mas sugere “Deus não existe”, pois desenvolve argumentos científicos nesses sentido; deveria então consequentemente apresentar também argumentos científicos a favor da existência de Deus, mesmo que eventualmente para mostrá-los fracos e superáveis pelos argumentos contrários. Em vez de seguir essa maneira de raciocinar, o artigo apresenta favorável às existência de Deus toda uma argumentação religiosa. Ora religião não é ciência, e até os religiosos sabem disso. Se se quer cientificamente sugerir a inexistência ou existência de Deus, deve-se seguir sempre a linha científica. Nada de religião. Pensamento científico de ambos os lados, contra ou a favor.

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    • Eu juro que a intensão não é a de ser ofensivo, mas vc bebeu?
      O único objetivo é demonstrar que o universo pode existir sem ter sido criado por deus. Ele não tem que argumentar sobre a existência de deus pq isto já está subentendido no título. O texto é dirigido para quem acredita que deus existe e criou o universo. Para estas pessoas não é necessário argumentar a possível existência de deus, mas ao demonstrá-las que o universo pode existir sem ele, planta-se a dúvida.
      Sacou?

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  3. Demonstrar poder o universo existir sem Deus; plantar nos crentes a dúvida: de acordo; inoportunos então nossos comentários anteriores. Discussão desnecessária. Assunto encerrado. Mas aproveitamos para uma última observação: deve incomodar a alguns leitores o fato – não observado no artigo – de que Laplace e Hawking, conforme argumentos posteriores de Hawking em programa televisivo, tenham imaginado a ideia de Deus como a de um ser sobrenatural, um “criador” exterior ao mundo e que vá criar o mundo. Ora esse pode ser conceito religioso, baseado em fé, não em raciocínio, não em conhecimento, não em ciência portanto. Conceito infantil, com todo respeito pelos religiosos (válida a religião, mas outro “departamento”, distinto da ciência, como o próprio artigo reconhece). Enfim os citados pensadores não pensam bem, misturam estupidamente conhecimento e fé religiosa, e daí evitam o mais difícil: a possibilidade de considerar Deus apenas em ciência, como possível força criadora implícita nas leis da natureza.

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  4. A Síndrome que todo Ateu sofre é a de achar que tudo que faz mal a ele faz mal a todo mundo, o autor do texto no apogeu do egocentrismo simplesmente escreve “Deus não é necessário para explicar o Universo” talvez viva no espaço ou numa nave em outra dimensão, pq existem 2 bilhões de Cristãos e 1.5 Bilhões de Muçulmanos e alguns milhões de Judeus que acreditam eu Deus, isso pra não falar das religiões orientais Chinesas e Indianas. Pra não falar da ignorância no assunto científico ao ridicularmente afirmar ” Einstein, por exemplo, embora fosse bastante espirituoso, era um grande crítico das religiões institucionalizadas, especialmente o monoteísmo. Sua espiritualidade, no entanto, não era no sentido religioso, o que o tornava um ateu.” Einstein pelo que eu sei era Teísta e disse que era melhor ter crença do que não ter, e a propósito Newton era Unitrinitarianista e Galileo, Copernicus, Darwin não eram ateus. O cúmulo do absurdo dizer que a Igreja impedia o conhecimento científico, a ciência do renascimento foi possível graças aos textos que permaneceram por mais de 1.000 sob a tutela da Igreja, Vamos nos informar mais ae!

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    • Indique alguma fonte para corroborar essa afirmação de que Einstein era teísta.

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    • Sobre bilhões e milhões que são teístas mundo afora, pergunto: e daí? Isso prova que existe deus ou deuses? Isso é uma falácia.

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  5. Deus não é necessário para explicar o universo

    Mas o Universo explica um ” pouquinho” Quem É Deus!

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