Graças a Deus

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Artigo submetido por um leitor do Livres Pensadores.


Sempre vi minha descrença em deus como a mais insignificante das minhas qualidades. Não me importo com religiões e com a crença alheia. Se esta não me for imposta, viagra approved não me incomodo com aqueles que a praticam, o problema é do crente – ou talvez seja meu -, descobriremos após a morte, ou, se eu estiver certo, tudo chegará ao fim e não descobriremos nada, o que não irá importar, pois não terei consciência nem mesmo disso.

Infelizmente, ou felizmente, não vivi cercado de pessoas que concordassem com esse modo de vida. Ateus são, como todos sabem, uma grande minoria no Brasil, portanto estes têm que aprender desde cedo a conviver com certa intolerância, ou simplesmente não manifestar suas ideias. No meu antigo emprego, repartia uma sala com duas mulheres. Ambas jovens, com algo em torno de vinte e cinco anos. Uma delas casada e a outra pensando em se casar. Em geral, elas eram pessoas de fácil convivência, mesmo sendo uma delas católica e a outra evangélica – ambas praticantes de suas crenças. Respeitavam-se entre si, na verdade, nas poucas vezes que as ouvi falando sobre religião, a discussão se dava sempre de forma neutra, como se suas crenças fossem iguais. Ignoravam o fato de que, de acordo com seus líderes religiosos, dependendo de qual delas estivesse certa, uma veria a outra sofrer eternamente no fogo do inferno.

Como já disse, meu ateísmo é discreto, não por vergonha ou medo, mas por falta de motivo para exibi-lo. Quando surge a necessidade ele aparece, e foi o que aconteceu quando elas decidiram discutir sobre a evolução das espécies – não sei como isso se tornou o assunto em uma firma de despacho aduaneiro, mas aconteceu. A frase que liberou o ateu dentro de mim foi:

– Dá pra acreditar que tem gente que diz que o ser humano veio do macaco?

De imediato parei o que estava fazendo e lhes perguntei quem dizia que o homem veio do macaco. Para isso, a resposta foi  – “a ciência”.

Poderia ter simplesmente ignorado aquilo, mas senti que esclarecer-lhes do engano técnico era uma obrigação moral. Não lhes diria que deus não existe, pois nem sei se isso é verdade, mas tentaria lhes explicar porque afirmar algo assim era um engano, mesmo eu sendo um leigo biológico completo. Queria tentar compartilhar o mínimo de conhecimento que eu tinha sobre o assunto, tentando, da forma mais tolerante possível, explicar porque a ciência não dizia que o homem veio do macaco. Elas poderiam acreditar em mim, ou não, pouco importava, independentemente, aquele mal-entendido teria de ser resolvido.

Expliquei sobre como não era um que tinha vindo do outro e sim, que ambos tinham um ancestral comum e evoluíram de formas separadas. Nada muito profundo ou técnico, só o mínimo para fazer meu discurso claro, compreensível e correto. “Elas eram tolerantes e inteligentes, iam entender” – pensava.

Obviamente, a resposta que recebi não foi positiva, do contrário essa crônica não existiria. Recebi em reação a minha explicação, uma enxurrada de passagens bíblicas, indo de Adão e Eva a Arca de Noé.  Já tinha escutado sobre tanto fundamentalismo, mas era a primeira vez que o presenciava ao vivo. Era cético quanto a sua existência entre pessoas com um mínimo de estudo em uma sociedade moderna, mas estava errado. Todas as minhas tentativas de manter uma discussão racional terminaram após o comentário:

– E como a ciência explica a arca de Noé?

– Ela não explica – respondi -, pois, historicamente, esse evento nunca aconteceu. É só um mito antigo, como vários outros. Você trabalha com exportação, entende bem de logística, certo? – ela confirmou – Então sabe como é difícil organizar tantos contêineres em um navio moderno? – ela continuava a afirmar – Então como você espera que todas as espécies de animais tenham sido acondicionadas (decidi usar um termo aduaneiro na conversar, para reforçar a comparação), em pares, em uma embarcação de madeira feita por um senhor embriagado de quinhentos anos de idade?

– Esse é o poder de Deus, ora! – ela exclamou indignada – Você acredita em Deus, não?

Pensei nas consequências da verdade ao ouvir essa pergunta. Não afetaria meu emprego de forma alguma, pois elas não possuíam a autoridade para tanto, mas afetaria de algum modo a convivência naquela sala e quem já trabalhou nessa situação sabe que, se for brigar em um escritório pequeno, que seja com alguém de outro departamento. Contudo, não poderia ser desonesto e respondi que não, adicionando a minha resposta uma nova pergunta.

– Mas e o coala? Como ele foi da Austrália até o Oriente Médio para chegar à arca.

– Já disse. Um milagre de Deus. Você pode não acreditar, mas se Deus quiser, ele enche essa sala toda de coalas.

Depois disso, todas as portas do inferno se abriram. Com comentários de decepção, tentativas de conversão e toda uma série de coisas, que eu não esperava das duas. Culminando com a pergunta:

– Mas eu já te ouvi dizer “graças a Deus”, não?

– Provavelmente. – respondi, esperando a conclusão do raciocínio que, pelo que pude perceber pela expressão satírica em seu rosto, como um gato encurralando sua presa, seria algo surpreendente e profundo.

– Então você acredita! – ela proclamou vitoriosamente.

Isso me perturbou um pouco. A essa altura na discussão, esperar coerência seria absurdo da minha parte, mas a pouca esperança que ainda me restava foi destruída após aquela brilhante observação.

“Graças a deus”, é apenas uma expressão sem real significado, além de um agradecimento ao acaso. Não é, necessariamente, indicado a divindade, pois isso nem seria apropriado ao crente. Afinal, para tudo se é usado o “graças a deus”, de viagens bem-sucedidas, até um funcionamento intestinal adequado. Situações que não interessariam a um deus criador, onipotente, onisciente e onipresente, mesmo que este existisse. Poderia até dizer que, esse exagero de gratidão, poderia até tornar-se ofensivo a sua poderosa e temperamental figura.

Por um milênio ou mais, o cristianismo dominou a cultura Ocidental. Talvez, em seus primórdios, a expressão “graças a deus”, fosse literal, como a expressão “deus é grande” o é na cultura islâmica atual (não direi moderna, pois este é um salto ao adjetivo, em se tratando da civilização islâmica) – frase gritada antes de todo o ataque suicida. Hoje, a expressão perdeu seu caráter sagrado e tornou-se popular. O deus do agradecimento, não é nada além de um alvo para um agradecimento sem destino definido. Quando não se sabe a quem agradecer, agradece-se a deus. A divindade alvo pode até ser trocada de quando-em-quando, para evitar o tédio, formando assim as expressões “graças a Shiva”, “graças a Zeus”, “graças a Odin”, “graças ao meu primo Osmundo” e assim por diante. Além do mais, citar um nome, ainda mais um tão vago quanto “Deus” (que é realmente um adjetivo e não um substantivo), não é indicação de existência ou crença. Afinal quem nunca proferiu o nome de Noel (o papai), entre outras criaturas míticas de nossa fértil imaginação e vasta história.

Finalizando, quem tinha entre seus mandamentos “não falar o nome de deus em vão” eram elas e, portanto, quem eram as verdadeiras pecadoras por dizerem o tal “graças a deus”, eram elas. Eu estava apenas cumprindo minha obrigação, como anticristo, de proferir uma heresia diária. Foi isso que disse a elas e foi isso que fez que elas chamassem reforços. Entrou na sala outra crente, dessa vez de outro departamento e denominação desconhecida. Que me deu o golpe de misericórdia ao dizer:

– Quero ver continuar ateu em um avião caindo. A primeira coisa que ia fazer era gritar: “Ai meu Deus!”.

– Pode ser que grite, embora um “Agora fodeu!” seja mais apropriado para minha personalidade. O problema é que mesmo gritando, deus não iria impedir a queda. – respondi, mas não recebi resposta quanto a essa minha observação.

A discussão se prolongou um pouco, tendo mudado de assunto por completo e passado para as injustiças e danos causados pela igreja. Os roubos da igreja evangélica foram os primeiros a serem atacados, no entanto, não tardou para que a evangélica atacasse o Papa, o Vaticano e todo o ouro que lá se encontra. Isso gerou uma longa e intensa discussão entre as duas. Eu, aproveitando a briga, desisti, pois tinha trabalho a fazer.


Artigo submetido por um leitor do Livres Pensadores.

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Autor(es):

Raphael Dias

Meu nome é Raphael. Não sou nenhum cientista, nem tenho grandes títulos acadêmicos ou a intensão de um dia ter. Sou um aspirante a escritor (aspirante, apenas) que depois de passar anos acreditando e estudando o espiritismo, percebeu que era tudo uma grande bobagem, assim como as outras religiões e deus em si. Todos os meus textos podem ser encontrados no blog - www.delirandoeescrevendo.blogspot.com.br - Não tenho visitantes assíduos, mas o mantenho atualizado mesmo assim, com contos e opiniões relacionadas ao que me vier na cabeça.

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4 Comments

  1. Muito bom o texto, Raphael!

    Sobre a quantia de criacionistas, é maior do que você pode imaginar. Para você ter ideia, na minha sala do cursinho (vou prestar vestibular pra astronomia no fim do ano), apesar de ter pelo menos eu e mais 4 ateus entre os estudantes, a maioria é criacionista… Estudam numa escola Adventista, então já viu… :/

    A respeito desse tipo de aberração, assim como quanto a pseudociências (como a homeopatia, astrologia, etc), gosto muito desta frase:

    “Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados.”
    – Edmund Burke

    Enfim… Se a gente se calar, a irracionalidade, infelizmente, vai dominar… Afinal, a irracionalidade é extremamente lucrativa, tanto para clérigos, quanto para políticos.

    Abraços!

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  2. entendo a sua posição, é deploravel este tipo de conduta vindo de um teista que teoricamente deveria ser tolerante, é dose ter que ocultar sua crença ou descrença para ter aceitação social e financeira, mais a questão criacionista não é abraçada por todos os teistas, eu por exemplo apesar de não ser um especialista gosto de ciencia e sou teista, os ateus no geral tem seus motivos para descrença bem embasados não vejo motivo para este tipo de atrito. contudo mesmo o texto não indo a fundo neste topico que vou levantar ser ateu significa apenas não crer em deus ou deuses, o cara pode acreditar em horoscopo, fenomenos sobrenaturais e coisas do genero mesmo descrente de deuses. no meu caso sendo teista acho criacionismo uma bobagem sem tamanho e a outros teistas assim mesmo que talvez sendo que minoria. os ateus são tão capacitados e falhos como qualquer ser humano, tanto que tem ateus em destaque no mundo ajudando o proximo bem mais que certos teistas. em todo caso parabens pelo trabalho.

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    • Pois é, E. Nigma, eu até mencionei que, pra mim foi uma surpresa tamanho fundamentalismo em meio a pessoas com um mínimo de educação. A crença em deus é compreensível, qualquer um que diga o contrário nunca parou para pensar na existência, seu fim e o nada que segue, mas ainda assim não me convence. Na minha concepção, essa visão de deus é uma fuga, e a eternidade é mais aterradora que o nada. O problema surge quando o crente decide que é bonito ignorar a ciência, por causa de deus.

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  3. “Isso gerou uma longa e intensa discussão entre as duas. Eu, aproveitando a briga, desisti, pois tinha trabalho a fazer.”

    Você é o anticristo cara, provocou o desentendimento entre as duas e saiu de fininho… kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    (brincadeira)

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