Condição humana e as ferramentas que criamos

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Imagine um plano infinito. Sendo infinito, qualquer um de seus pontos é o centro, afinal há um infinito para qualquer lado que se olhe. Imagine ainda que, em uma das 360 direções possíveis, esteja “a verdade”. Verdade absoluta, verdade “verdadeira”, chame como quiser. Portanto, todas as outras 359 direções seriam falsas.

Agora coloque uma pessoa com os olhos vendados num ponto qualquer do plano. Essa pessoa teria, então, que caminhar na direção do conhecimento. Mas como ela poderia fazer isso? Ela sequer enxerga e, mesmo que enxergasse, não há qualquer sinal no horizonte dizendo “aqui está a verdade”.

Bem, essa é a condição humana, pura e simples. É como Platão demonstrou em sua Alegoria da Caverna, mas achei minha metáfora do plano mais simples de ser compreendida.

olhos vendados

O ser humano é um animal extremamente curioso. Ele tem o desejo de saber a verdade das coisas. Suas primeiras perguntas provavelmente foram menos específicas (como “o que causa a chuva?”) e mais profundas. Quem sou eu? O que eu sou? Como passei a existir? Alguém me colocou aqui? Onde é aqui? E assim por diante. E, por isso mesmo, passou a tentar crir formas para melhor entender o mundo, para encontrar respostas a tais perguntas.

A primeira tentativa foi a religião, que até hoje é adotada por uns e repugnada por outros. Nela, basicamente, as respostas foram sendo criadas com o passar do tempo e, depois, sendo passada através da tradição. Essas respostas poderiam tanto ser realmente inventadas, quanto encontradas na natureza através do senso comum. Hoje são uma colcha de retalhos de mitologia, ensinamentos, leis (dogmas) e até expressões artísticas como a poesia (vide o Corão).

Mas a religião nunca foi suficiente, nem deu todas as respostas. Assim, criamos a filosofia. Esta, por sua vez, se baseou no racional e, antes de qualquer coisa, reconheceu a condição humana. Filósofos passaram, então, a criar ferramentas preciosas e usadas até hoje, como a lógica, que é fundamental até mesmo na computação. E há outras ferramentas, como o ceticismo, a argumentação, premissas, dedução, indução e assim por diante.

A mais recente e promissora, digamos, ferramenta é a ciência. Ela foi criada e definida por filósofos, poderíamos até dizer que é “filha da filosofia”. E, como boa filha, pegou para si várias das ferramentas da filosofia, para seu uso diário. Ele nos permitiu criar toda essa maravilhosa tecnologia que temos hoje, que nos permite até mesmo ler este texto na palma de nossas mãos. Mas não é essa sua principal importância.

Voltando à metáfora do plano, a filosofia nos ajudou a entender melhor o plano e como nos direcionar melhor, para que possamos andar na direção da verdade. Mas a ciência, com toda sua metodologia, nos ajudou a encontrar “provas”, as evidências, de que realmente estamos na direção correta – ou não – , além de como fazer pequenos ajustes sempre que necessário. De certo modo, essas ferramentas nos fazem aproximar da verdade sem, contudo, jamais chegar nela.

Lembre-se: a verdade é a direção em que se caminha. Não um lugar.

“Os seres humanos podem ansiar pela certeza absoluta; podem aspirar a alcançá-la; podem fingir, como fazem os partidários de certas religiões, que a atingiram. Mas a história da ciência ensina que o máximo que podemos esperar é um aperfeiçoamento sucessivo de nosso entendimento, um aprendizado por meio de nossos erros, uma abordagem assintóica do Universo, mas com a condição de que a certeza absoluta sempre nos escapará.”

— Carl Sagan

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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One Comment

  1. E se a “Verdade Absoluta” for um elemento dinâmico, que se move junto das 360 possibilidades de escolha? Eu penso que o ser humano é como uma criança bem pequena vivendo em seu “chiqueirinho” particular, onde ele pensa ser livre, mas tem quem o alimente, o limpe, cuide dele, ainda que ele não perceba ou compreenda muito bem isso. Ou ainda, a vida seria uma jogo de carta marcadas. Haveria alguma ganhar esse jogo se as nossas cartas estivem marcadas para perder?

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