Em que mundo você vive?

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A realidade é algo bastante subjetiva às percepções de cada um. O humor, as crenças, o efeito de drogas, o estado de sobriedade ou embriaguez de cada um alteram essas percepções. Algumas pessoas, principalmente crianças, vivem num mundo de fantasias cheio de fadas, duendes, Papai Noel, entre outros. Isso para não falar na crença em todo um conjunto de deidades – ou mesmo em uma só. A questão é: como definir qual realidade é a verdadeira, já que cada uma delas é, ou ao menos parece ser, verdadeira para cada pessoa?

A realidade está sujeita às escolhas que fazemos: ao menos parte daquilo que consideramos ser real (fatos, possibilidades, etc) é determinado por nossos sentidos e pelo conhecimento que adquirimos ao longo de nossas vidas. Assim, a construção de nossa realidade depende do que vamos aceitar como real, isto é, a realidade é construída pelo sujeito e não dada pronta para ser descoberta.

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Apenas como exemplo disso, vejamos o caso (ufológico) do Voo 169 da VASP. No dia 8 de fevereiro de 1982, um avião da VASP decolou de Fortaleza com mais de 100 passageiros, tendo como destino São Paulo, com escala no Rio de Janeiro. Depois de cerca de 1 hora de voo, segundo o comandante do avião, o mesmo passou a ser acompanhado por um OVNI (objeto voador não identificado), que o acompanhou até o pouso no Rio.

Quando o avião estava próximo da região de Belo Horizonte, o comandante teria informado os passageiros sobre o OVNI e todos os passageiros – com excessão de dois deles – teriam observado o objeto. Os passageiros que se recusaram a observar o objeto? O bispo auxiliar de Fortaleza, Dom José Teixeira, e Dom Aloísio Lorscheider, então cardeal arcebispo de Fortaleza. Na ocasião, quando Dom Aloísio Lorscheider foi questionado sobre o porquê de não ir até a janela do avião ver o objeto, respondeu que não queria saber dessas coisas”. Não queria saber dessas coisas, ou não queria ter sua fé e realidade abaladas?

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Sobre a observação de tal objeto, não pode ser explicada por histeria coletiva, já que o mesmo objeto teria sido avistado por dois outros aviões. Uma possível explicação racional foi levantada pelo já falecido astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão: Vênus. O que, claro, não foi muito bem recebido pela comunidade ufológica. Mas para aqueles que acreditam que ETs nos visitam, sem dúvida alguma esse caso é uma “prova” – mesmo sem ter qualquer evidência de que tal objeto tinha origem extraterrestre. (Se bem que, se realmente fosse Vênus… Bem, Vênus é um objeto extraterrestre, enfim.)

Nossa própria mente também é sempre um fator importante. Um exemplo disso são as alucinações, que parecem extremamente reais para quem as têm, mas inexistentes – ou irreais – para todos os demais. Bom exemplo disso são casos de relatos de abdução extraterrestre que, no fim, são causados por alucinações geradas por paralisia do sono. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, essas mesmas alucinações geravam uma “abdução” por nazistas – não por ETs. Em outras épocas, como na Idade Média, talvez as abduções fossem por demônios ou bruxas. De qualquer forma, tais alucinações são extremamente reais para quem as tem.

Relativity

Drogas também criam alucinações. O famoso “eu vi duendes” ou os “elefantinhos cor-de-rosa”, de fato, podem ser vistos. E tão reais como o computador, notebook, tablet ou celular pelo qual você está lendo este texto. (Aliás, espero que meu tablet seja real e eu realmente esteja digitando esse texto, pois seria horrível ter de recomeçá-lo do zero.)

Mas, então, como definir o que realmente é real, de verdade? Afinal, segundo René Descartes, certeza você só pode ter que você existe, exatamente por você ser capaz de pensar. (Apesar de que, para alguns, até isso é questionável.)

“Dubito, ergo cogito, ergo sum.” (“Duvido, logo penso, logo existo.”)

– René Descartes

A melhor definição que nós, como humanidade, encontramos é de que “realidade” é tudo aquilo que existe por si mesmo, independente da crença de cada um. Isto é, é aquilo que é real independente de você ser cristão, ateu, agnóstico, muçulmano, hindu, etc e também existe para os demais. Por isso mesmo que a filosofia e a ciência são as melhores ferramentas para se estudar a realidade, em todos os seus componentes (isto é, a física, química, biologia, geologia, etc).

É a partir dessas ferramentas, também, que definimos o que são alucinações, que as percepções que temos quando estamos embriagados ou sob o efeito de drogas não são reais, assim como o porquê de não podermos afirmar que ETs nos visitam. São elas, também, que nos permitem entender como nosso mundo funciona, porque ficamos presos na superfície do planeta e não saímos voando, entre outros.

Mas tudo, sempre, com uma boa reserva de dúvida. Afinal, certezas absolutas jamais teremos.

“Os seres humanos podem ansiar pela certeza absoluta; podem aspirar a alcançá-la; podem fingir, como fazem os partidários de certas religiões, que a atingiram. Mas a história da ciência ensina que o máximo que podemos esperar é um aperfeiçoamento sucessivo de nosso entendimento, um aprendizado por meio de nossos erros, uma abordagem assintóica do Universo, mas com a condição de que a certeza absoluta sempre nos escapará.”

— Carl Sagan

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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One Comment

  1. Ótimo texto! Ainda mais quando ele foi encerrado com um pensamento do inesquecível Sagan (autor de: “O mundo assombrado pelos demônios”). Pena que a maioria das pessoas não tenha este espírito crítico da realidade e prefira acreditar no que é dito sem provas racionais ou objetivas. Pensar dá trabalho.

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