O maior mal da sociedade

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Originalmente publicado na Revista Livre Pensamento, número 3.


Há diversos males em nossa sociedade, os quais são sempre (ou, ao menos, na grande maioria das vezes) resultado de escolhas pessoais. Como exemplos disto, eu poderia citar a religião, que gera preconceito, autoritarismo, sentimento anti-ciência (que pode prejudicar a muitos – vide o caso do estudo de células tronco, onde a religião quis se meter), etc. Poderia citar também as ideologias, sejam elas religiosas ou não, pelas quais as pessoas se dispõem a matar e morrer, que também geram preconceitos e assim por diante. Isto sem falar do egoísmo extremo e muitos outros.

Mas há um deles que, por mais que possa ser gerado por qualquer um dos itens que citei acima, funciona de forma independente: o preconceito.

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Sim, dogmas religiosos geram preconceito. Sim, dogmas ideológicos também o geram. O egoísmo, em si, também (“essa pessoa é pobre por não trabalhar”, por exemplo). Mas o preconceito também pode surgir mesmo sem isto tudo. Mesmo ateus têm preconceito. Mesmo livres pensadores, que formam suas opiniões a partir da ciência, da lógica e da razão (jamais se deixando influenciar por tradição, autoridade ou dogma), podem apresentar preconceitos.

Isto tudo porque preconceitos têm base, sempre, no medo. Principalmente o medo do desconhecido, mas também de punições no pós-morte, de reações em cascata (falácia da ladeira escorregadia), etc. E o preconceito gera um mal a toda a sociedade: a minoria alvo do preconceito tem seus direitos diminuídos, gera discussões intermináveis entre esta minoria e a maioria opressora, muitas vezes com participação daqueles que defendem esta minoria. Isto sem falar em casos de violência física, onde pessoas são hospitalizadas, enquanto outras acabam presas.

Isto prejudica a sociedade como um todo, não apenas a esta maioria, pois tais discussões servem apenas para atrasar o avanço da sociedade. Isto sem falar que a sociedade também perde membros (mortos, hospitalizados, presos, etc.) que, em outras circunstâncias, poderiam estar auxiliando o avanço da mesma.

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Alguns preconceitos já foram razoavelmente (não totalmente) superados, como o racismo, ou a ideia de que mulheres não devam trabalhar. Isto é, apesar de ainda existirem pessoas que carregam tais preconceitos, elas não são mais apoiadas por uma maioria da sociedade.

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Ainda acontecem crimes de ódio direcionado a negros e a mulheres (por trabalharem fora), mas acontecem em número muito menor. O que acontece muito é a violência contra mulheres, desferidas por seus próprios maridos, devido ao sexo: este ponto, infelizmente, ainda estamos longe de superar. A liberdade sexual feminina ainda não é totalmente respeitada, apesar de a coisa ter melhorado muito da década de 30 para cá, quando a decisão sobre com quem elas casariam ainda era dos pais. A criação da Lei Maria da Penha ajudou muito nestes casos, mas ainda está longe de resolver.

Pode parecer estranho eu colocar casos de violência doméstica como fruto do preconceito, contudo é isto mesmo. Eles são fruto do machismo, que faz com que homens vejam mulheres como inferiores e até mesmo como objeto de sua propriedade. Ainda podem haver casos de homens com a sexualidade mal resolvida: estes teriam preconceito contra si mesmos e bateriam em suas esposas por pura frustração.

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Hoje, o que está mais em evidência são crimes contra homossexuais. Não são poucos os casos de agressões (como os ocorridos na Av. Paulista) ou mesmo de assassinato, motivados exclusivamente pela sexualidade da vítima. Casos de agressões contra ateus ou pessoas de religiões mais exóticas, em nosso país, ao menos não são tão noticiados, caso ocorram (e não duvido que ocorram).

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O medo como causador

Sempre que falamos sobre preconceito aparecem palavras terminadas em “fobia”. Xenofobia, homofobia, bifobia, lesbofobia, ateofobia, etc. Mas, afinal, o que seria uma “fobia”? Segundo a Wikipedia:

Fobia (do Grego φόβος “medo”), em linguagem comum, é o temor ou aversão exagerada ante situações, objetos, animais ou lugares.

Assim, a associação entre preconceito e medo é evidente e é exatamente assim que estas fobias que citei acima são definidas. Veja o exemplo da xenofobia, da Wikipedia:

Xenofobia (do grego ξένος, translit. xénos: “estrangeiro”; e φόβος, translit. phóbos: “medo.”) é o medo irracional, aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros, a desconfiança em relação a pessoas estranhas ao meio daquele que as julga ou que vêm de fora do seu país.

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O próprio racismo, apesar de não ter o sufixo “fobia”, se encaixa perfeitamente nisto, pois é um medo ou aversão a pessoas negras. Isto inclui, até mesmo, aquele medo que muitas pessoas sentem ao estarem andando na rua à noite e ver um negro vindo pela mesma calçada: “droga, vou ser assaltado” (como se todo negro fosse assaltante, ou se apenas negros o fossem.)

Não posso afirmar que todo preconceito seja, necessariamente, uma fobia, nem que não seja, até porque não encontrei fontes afirmando um ou outro. Tão pouco que toda fobia seja um preconceito: diversas fobias são, na verdade, transtornos de ansiedade com a características especiais, que só se manifestam em situações particulares. Exemplo seria a acrofobia, que é o medo de altura.

Ainda assim, diria que o medo pode, no mínimo, ser um grave complicador dos preconceitos, sendo responsável por medos de reações em cascata (as quais, quando usadas como argumento, recaem na falácia da ladeira escorregadia). Exemplo disto vemos naqueles que lutam contra a conquista de direitos pelos LGBT, que usam argumentos como “se o PLC 122 for aprovado, cairemos numa ditadura gay”, o que, obviamente, é falso.

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Isto demonstra o tamanho do medo que as pessoas têm, ao ponto de despencarem em uma ladeira escorregadia, criando consequências absurdas para coisas tão simples quanto a conquista de direitos por uma minoria.

Como resolver este problema?

Muitas vezes, o preconceito é gerado pelo medo do desconhecido (no caso da xenofobia, por exemplo), em outros é devido simplesmente à ignorância (desconhecimento) das pessoas, o que faz com que elas adiram a ideias dogmáticas, sejam elas religiosas ou ideológicas, etc. Ou seja, o conhecimento (ou a falta dele) tem um grande papel.

“Quando se é alfabetizado cientificamente, o mundo parece diferente à sua vista, e essa compreensão lhe dá poder.”
— Neil deGrasse Tyson

Esta citação de Neil deGrasse Tyson diz muito aqui. O conhecimento científico inspira nas pessoas a curiosidade: ao invés de ter medo do desconhecido, a pessoa passa a procurá-lo exatamente para entendê-lo, conhecê-lo. Isto já elimina boa parte dos preconceitos. E, neste ponto, a educação de base tem um papel primordial, pois muitas vezes é na escola que temos nosso primeiro contato com este conhecimento,  além de muitos outros. E, como todos sabem, infelizmente a educação de base, pública, vai de mal a pior no Brasil.

“Apenas pense sobre a tragédia de ensinar as crianças a não duvidar!”
— Clarence Darrow

Assim, para resolver este problema teremos de trilhar por dois diferentes caminhos simultaneamente:

  1. Cobrar dos governantes que melhorem a qualidade da educação pública de base
  2. E lutar para conscientizar a população

É exatamente por isto que a militância (seja LGBT, feminista, atéia, etc.) é tão importante. Devemos militar para cobrar dos governantes, como dito no item 1, e militar para conscientizar a população. Sem isto a coisa não melhorará tão cedo.


Originalmente publicado na Revista Livre Pensamento, número 3.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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