O Paradoxo da Filosofia

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A filosofia nasceu na Grécia Antiga com o significado literal de “amor à sabedoria”. Ela é o estudo de problemas fundamentais como a existência, o conhecimento, a verdade, valores morais e estéticos, etc. A filosofia não pode ser confundida com a mitologia ou religião, exatamente por dar ênfase em argumentos racionais. Ao mesmo tempo, não pode ser confundida com a ciência, porque ela não buscar evidências em suas investigações, para suportar suas alegações.

Contudo, definir o que é a filosofia é algo praticamente impossível e que vem sendo tentado, ou melhor, procurado pelos filósofos há séculos. Gosto de dizer que ela é o exercício do conhecimento, ou o conhecimento em exercício.

“Definir filosofia é o que os filósofos têm procurado fazer até hoje! Em grego, queria dizer amor ao saber. Mas aí foram saindo algumas ciências e a filosofia tem que ficar o tempo todo se questionando – o que sou? Se redefinindo.”

– João Augusto Mattar Neto

Além disto, a filosofia discute vários temas que a ciência nem chega a tocar, como o que é real: seria o que percebemos com nossos cinco sentidos? Mas uma pessoa embriagada e/ou entorpecida percebe uma realidade totalmente diferente, então quem está correto? Alguns sonhos também parecem extremamente reais, mas são eles a realidade? E o mundo particular onde vivem autistas, por exemplo? Como definir o que é real? Poderíamos estar vivendo numa matrix de algum maluco, num projeto de mestrado?

“Penso, logo existo”

– René Descartes

descartes

A filosofia já criou várias ciências (ou elas saíram da filosofia, como preferir) e possivelmente continuará as criando. Além disto, ela é extremamente importante principalmente para ciências humanas e biológicas, isso sem falar na própria filosofia da ciência e na ética científica. E o problema deste paradoxo começa justamente na filosofia da ciência e em algo que chamamos de demarcação: que é o que nos ajuda a distinguir entre ciência e pseudociência.

As primeiras tentativas de separar o conhecimento científico do mitológico vem justamente da Grécia Antiga. Basicamente, afirmava-se que o conhecimento científico lidava com as causas dos fenômenos, que deveria usar-se da demonstração lógica, entre outras. Para Aristóteles, deveria ter-se o que ele chamava de certeza apodítica (que seria uma certeza de “grau mais elevado”, uma “certeza indubitável” ou “certeza incorrigível”).

Depois, veio o positivismo lógico, que afirmava que apenas declarações sobre observações empíricas e proposições lógicas formais seriam significativas. Para esta visão, toda declaração que fuja desse formato seria simplesmente sem sentido. O que incluiria, por exemplo, as declarações religiosas e metafísicas.

Após a Segunda Guerra mundial, contudo, o positivismo lógico começou a desabar. Ao ponto que, na década de 70, um de seus principais defensores, Alfred Jules Ayer, chegou a afirmar:

“Acho que o mais importante [defeito]… era que quase tudo era falso.”

– Alfred Jules Ayer

O último prego no caixão do positivismo lógico foi colocado por Karl Popper, que propôs já na década de 30 a falseabilidade como critério de demarcação. A ideia é que todo cientista deve criar uma hipótese e testá-la procurando não apenas evidências de que ela está correta, mas principalmente evidências de que ela está errada. Então, se a hipótese não resistir ao teste, diz-se que ela foi falseada, caso contrário, diz-se que foi corroborada.

“Conhecimento é busca da verdade — a busca de teorias explanatórias, objetivamente verdadeiras. Ele não é busca por certeza. Errar é humano: todo conhecimento humano é falível e, portanto, incerto. Disso se segue que devemos fazer clara distinção entre verdade e certeza.”

— Karl R. Popper

Karl Raimund Popper (1902 - 1994).

Karl Raimund Popper (1902 – 1994).

Em outras palavras, para uma afirmação ser falseável (ou refutável, como preferir), deverá ser possível, de alguma forma, mostrar que ela é falsa. O que não significa que toda afirmação falseável seja, necessariamente, falsa. Quer dizer, deve ser possível fazer uma observação ou uma experiência que tente mostrar que essa afirmação é falsa.

A falseabilidade foi, mais tarde, criticada por Thomas Kuhn com sua teoria das Revoluções Científicas. Kuhn enuncia o conceito de “paradigma”, conceito sob o qual os cientistas trabalhariam. Ele influenciaria muito a maneira como os cientistas veriam os dados, fazendo com que eles chegassem ao ponto de adicionar hipóteses Ad Hoc, que são hipóteses totalmente estranhas às teorias, apenas para defender seu paradigma contra a falsificação.

Thomas Samuel Kuhn (1922 - 1996).

Thomas Samuel Kuhn (1922 – 1996).

E a coisa não para por aí. Paul Feyerabend e Imre Lakatos criticaram duramente a teoria das Revoluções Científicas de Kuhn e outros, como Paul R. Thagard e Larry Laudan continuam pensando o tema. E, provavelmente, o chamado “problema da demarcação” continuará sendo repensado, refinado e melhorado.

No que diz respeito à filosofia, o problema que a demarcação trás é que, se analisado sob esse prisma, muitas das afirmações da filosofia poderiam ser classificadas como meras pseudociências. Isto é, a filosofia acabou criando algo para ajudar, ou até controlar, a ciência, mas que acaba atingindo fortemente a própria filosofia.

Claro, isto não inclui conceitos criados e definidos pela filosofia, como o da própria falseabilidade. Afinal, conceitos são ideias, ideais, formas de procedimento, etc. Coisas que não têm sequer como serem testadas empiricamente. O que isso atinge são afirmações a respeito da realidade e da natureza.

Um bom exemplo é a Abiogênese Aristotélica, ou Geração Espontânea, que apesar de não ter sido criada por Aristóteles, acabou sendo conhecida assim por ele ser seu defensor mais famoso. Ela consiste basicamente na suposição de que organismos complexos, como os animais modernos, podem não só se originar de seus pais, mas também diretamente do “barro”, ou seja, da “matéria bruta”. Assim, por exemplo, moscas brotariam espontaneamente de matéria orgânica em decomposição. Assim, do nada mesmo.

“Há, entre os animais, um aspecto em comum com as plantas: estas tanto provêm de uma semente fornecida por outras plantas como nascem espontaneamente, pela formação de um princípio gerador. Entre estas últimas, umas recebem alimento do solo, enquanto algumas se desenvolvem sobre outras plantas, como se afirma no meu tratado Sobre as Plantas.

Assim também entre os animais, uns nascem de outros animais, com os quais apresentam afinidade de forma; outros são de geração espontânea e não provêm dos que lhes são congéneres. Destes últimos há os que nascem da terra putrefacta ou das plantas 4, como acontece com uma grande quantidade de insectos, outros formam-se dentro dos próprios animais, a partir de dejectos que se lhes acumulam nos órgãos.”

– Aristóteles, História dos Animais, Livro V, A reprodução, página 202.

Aristóteles (384 a.C. - Atenas, 322 a.C.) como representado no afresco "Escola de Atenas", de Rafael Sanzio, no Palácio Apostólico, Vaticano.

Aristóteles (384 a.C. – Atenas, 322 a.C.) como representado no afresco “Escola de Atenas”, de Rafael Sanzio, no Palácio Apostólico, Vaticano.

As duas principais refutações científicas a esta ideia são a de Francesco Redi, que demonstrou em 1668 que larvas não nasciam a partir de carne que ficasse protegida das moscas usando-se telas; e a de Louis Pasteur, em 1862, com seus famosos experimentos. A ideia foi abandonada após a primeira refutação, mas a invenção e aperfeiçoamento do microscópio fizeram com que a Geração Espontânea voltasse a ser aceita. Contudo, após a refutação de Pasteur, a ideia foi abandonada – ao menos até agora, claro.

O problema da Geração Espontânea é que nenhuma refutação, por melhor que seja, conseguirá demonstrar, cabalmente, que ela é falsa. Isto porque a própria afirmação de que “organismos complexos podem se originar de seus pais, mas também diretamente da matéria bruta” não é falseável. A toda e qualquer observação que, em teoria, a refute, pode-se dizer que “ela não aconteceu dessa vez, mas pode acontecer em outra oportunidade”.

Assim, a Geração Espontânea cai na mesma vala da ufologia: não é possível provar que ela é falsa da mesma forma que não é possível provar que ETs não visitem a Terra.

Sobre a origem da vida, apenas como parênteses, é bom que se diga que os experimentos de Pasteur também foram parcialmente refutados pela síntese de ureia a partir de elementos inorgânicos, em 1828, por Friedrich Wöhler. Hoje, a teoria mais aceita é a chamada Biopoese (ou Abiogênese Química). Você pode ler mais sobre isso no artigo “Vida, um produto do universo, não um milagre”.

Representação 3D do RNA.

Representação 3D do RNA.

Devido a tudo isso, afirmações filosóficas (ou pseudofilosóficas, como prefiro chamar), como a Geração Espontânea/Abiogênese Aristotélica, deveriam ser excluídas do corpo do conhecimento filosófico e passar a figurar, senão como pseudociência, como mera curiosidade da história do pensamento humano. Afinal, como Bertrand Russell afirmou certa vez:

“Quando você estiver estudando qualquer assunto ou considerando qualquer filosofia, pergunte-se somente isto: quais são os fatos, e qual é a verdade que os fatos sustentam.”

— Bertrand Russell

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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