O problema da política brasileira

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A palavra “política” comporta diversos sentidos, desde o mais comumente conhecido, da luta por poder e organização do Estado, até a mera interrelação entre pessoas. Nesse texto, contudo, me focarei apenas no primeiro sentido que citei acima, não por mero reducionismo, mas porque quero analisar a situação atual brasileira.

A política foi, ao longo dos séculos, sendo subvertida. Na Grécia Antiga, “politikós” significava “dos cidadãos” ou “pertencente aos cidadãos”. Quer dizer, a organização de suas cidades Estado era algo que vinha do próprio povo – que “emanava do povo”, como alguns juristas gostam de dizer. E povo era envolvido em todas as decisões.

O auge disso aconteceu em Atenas e algumas outras cidades Estado gregas, onde as primeiras democracias diretas nasceram. Nelas, o povo se reunia nas praças e ali tomava todas as decisões políticas, uma a uma. Debatia, votava, etc.

“O homem é um animal político.”

– Aristóteles

Aristóteles como representado no afresco 'Escola de Atenas", de Rafael Sanzio. Fica no Palácio Apostólico, Vaticano.

Aristóteles como representado no afresco ‘Escola de Atenas”, de Rafael Sanzio. Fica no Palácio Apostólico, Vaticano.

É verdade, de lá para cá tivemos um período de interrupção dessa forma de política, que poderíamos dizer que começou no nascimento do Império Romano e só foi terminar na Revolução Francesa. Mas esse período terminou e o povo retomou seu poder. Essa forma absolutista de governo caiu junto à Bastilha.

Tomada da Bastilha, de Jean-Pierre Houël.

Tomada da Bastilha, de Jean-Pierre Houël.

Contudo, hoje a coisa está bem diferente, ao ponto nascerem ditados entre legisladores brasileiros que dizem “não se pode legislar sobre pressão da opinião pública”, como se eles não ocupassem os cargos que ocupam para nos representar. Chegamos a um ponto em que temos de nos manifestar, aos milhares, pelas ruas para que determinadas aberrações legislativas, como a PEC 37 ou o projeto da “cura” gay, sejam engavetados ou derrubados. Mas como e porque as coisas chegaram a isso?

Para chegar a uma resposta, temos de começar a analisar pela ditadura militar brasileira e ver o que aconteceu durante esse período:

  • Muitos foram perseguidos, presos, torturados e mortos, apenas em nome de um “inimigo oculto” que se combatia (o comunismo).
  • Políticos, principalmente aqueles que ocupavam o poder legislativo, também foram muito perseguidos, caçados e impedidos de realizar seu trabalho.
  • Nem mesmo manifestar-se contra o regime daquela época era permitido, já que havia censura institucionalizada.

Assim, durante a Assembleia Constituinte de 1987 a 88, que terminou por promulgar a Constituição de 1988, tentou-se transformar o poder legislativo num “super poder”. Para alguns legisladores, o poder legislativo federal atual está acima até mesmo do Supremo Tribunal Federal, que é a mais alta instância do Poder Judiciário brasileiro. Ou seja, eles realmente se veem acima do bem e do mal.

Como disse John Emerich Edward Dalberg-Acton…

“O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente.”

―John Emerich Edward Dalberg-Acton

Por outro lado, se o poder corrompesse a todos, assim, pura e simplesmente, então estaríamos perdidos. Afinal, estaríamos sempre nas mãos de monstros corrompidos. Mas isso não acontece e a história demonstra isso: muitos líderes não foram mordidos pela chamada “mosca azul”, picada da qual inocularia doses concentradas de ambição pelo poder.

Um exemplo foi o ex-presidente norte-americano John F. Kennedy, o qual apesar de não ter sido santo algum, tentou evitar a participação direta de tropas americanas na Guerras do Vietnã. Seu vice e sucessor, Lyndon B. Johnson, contudo, entrou de cabeça nessa guerra. Kennedy foi também quem lançou, em 1961, o desafio de “pousar um homem na Lua e trazê-lo de volta a Terra a salvo”.

Constituição-1

Assim, talvez fosse Ulysses Guimarães quem estivesse correto.

“O poder não corrompe o homem; é o homem que corrompe o poder. O homem é o grande poluidor, da natureza, do próprio homem, do poder. Se o poder fosse corruptor, seria maldito e proscrito, o que acarretaria a anarquia.”

– Ulysses Guimarães

De qualquer forma, acho que hoje podemos dizer que é um fato que os poderes políticos brasileiros, tanto executivo quanto legislativo, se distanciaram demais do povo. Isso tem que mudar, caso eles não queiram que o povo faça uma nova revolução, pouco importa para que lado.

Discordo com o que muitos analistas dizem, de que o que falta aos partidos políticos seja ideologia. Primeiro, porque o povo, com exceção de uma pequena parcela, pouco se importa com ideologias. Segundo, porque ideologias só criam problemas, pois cegam nossas vistas para a realidade, fazendo com que vivamos numa mera fantasia. O que precisamos, de verdade, é de políticos de verdade: que respeite as minorias, é claro, mas que atenda ao que o povo quer da melhor forma possível.

Não precisamos, necessariamente, de “pessoas do povo” como políticos. Precisamos de políticos que ouçam o povo, que preste atenção e que atenda seus anseios. Para isso, os políticos precisam, realmente, se lixar para ideologias. Porque é só assim que os políticos voltarão a, de fato, representar o povo.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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2 Comments

  1. Nunca imaginei que em um artigo tão curto se poderia dizer tanta bobagem. Da primeira até a última alegação, nada do que é dito se sustenta. Na Grécia a democracia excluía mulheres, escravos e estrangeiros (aimensa maioria). No Brasil, o voto censitário excluía quase todos. Ideologia sim é necessário para os partidos. Se só uma minoria se interessa por isso é porque assim quis quem nos governa desde sempre, as elites. Os políticos não podem mesmo legislar sob pressão da opinião pública. Se assim o fizessem a união civil de pessoas do mesmo sexo, por exemplo, não existiria entre nós e a pena de morte sim. Não haveria pesquisas com células tronco, mas sim o rebaixamento da maioridade penal Os líderes evangélicos e os Datenas da vida manipulam a opinião pública. O ataque às ideologias é coisa de liberal. É filho do mesmo discurso que diz que já não existe direita e esquerda.

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  2. Apenas lembrando que Aristóteles defendia que a filosofia era apenas para os aristocratas, diferente de Epicuro por exemplo, (cuidado com a Wikipedia!) e a democracia grega também não era pra todos os cidadãos não, mesmo porque, os gregos tinham uma definição dúbia do que era ‘cidadão’. Seria o mesmo que eu dizer que somente brancos de classe média ou superior é que são cidadãos, e a partir aí, eu defendo que “todo cidadão” pode opinar.

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