Religião, fé e crente – separando as coisas

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Sempre que nós, medical ateus, criticamos a religião e/ou a fé aparecem aqueles alegando que estaríamos “atacando os seguidores daquela fé/religião”. Então, por exemplo, se criticamos a fé cristã, logo alguém alega que estaríamos “atacando os cristãos”. Ou, se criticamos o catolicismo, alegam que estaríamos “atacando os católicos”. O que, por óbvio, não poderia estar mais distante da realidade. É necessário que todos aprendam a diferenciar as coisas – e é exatamente para explicar isso que escrevo este texto.

Crentes (aqueles que têm uma fé e participam de uma religião) são pessoas. Seres humanos. Portanto têm direitos e liberdades, como qualquer um de nós. Um desses direitos é à dignidade humana, ou seja, pessoas deveriam ser tratadas como um fim em si mesmas, e não como um meio (objetos). Trocando em miúdos, toda pessoa merece respeito. Isso, em nosso país, é garantido tanto pela Constituição Federal de 1988 (Artigo 1, III) quanto pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário.

“No reino dos fins, tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem preço, pode ser substituída por algo equivalente; por outro lado, a coisa que se acha acima de todo preço, e por isso não admite qualquer equivalência, compreende uma dignidade.”

Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos – página 58

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É claro, há exceções: o respeito não pode ser simplesmente imposto, precisa ser conquistado e mantido, preservado. Caso contrário será perdido, como qualquer outro sentimento humano. Mas isso já é outra história.

Por isso pessoas não devem ser criticadas ou atacadas. Esse é um dos motivos pelos quais, por exemplo, o Argumentum ad hominem ser tido como uma falácia. Apenas ações, discursos, ideias, posições políticas, etc, de uma pessoa é que devem ser criticadas e/ou atacadas. Essas, ao contrário das pessoas em si, não gozam de qualquer proteção – seja constitucional, legal ou supralegal (caso da Declaração Universal dos Direitos Humanos).

A fé nada mais é do que a forte opinião de que algo seja verdade, apesar da total e absoluta ausência de formas que a verifiquem. É, assim, um conjunto de ideias (uma opinião nada mais é do que uma ideia) nas quais é colocada uma confiança absoluta. Confiança absolutamente cega, aliás. E, como qualquer outra ideia (ou conjunto de ideias) não merece qualquer respeito: merece apenas que as pessoas concordem, discordem, debatam, propaguem, etc. E aqui não entra apenas a fé religiosa, mas também a fé ideológica.

“Idéias não foram feitas para serem ‘respeitadas’. Idéias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos.”

— Idelber Avelar

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Religiões, por outro lado, são organizações criadas por humanos, exatamente como partidos políticos, times de futebol, escolas de samba, etc. O que difere as religiões das demais é que elas pregam determinado conjunto de ideias (fé), impõem um conjunto de dogmas e comportamentos, além de, normalmente, gozarem de mais respeito do que deveriam por boa parte da população mundial. Se assemelham, assim, à forma como alguns encaram determinados partidos políticos (guardadas as devidas proporções, claro).

Diferente da fé (das ideias, opiniões, etc), religiões, como instituições que são, gozam de alguns direitos e liberdades, conforme a legislação de cada país, que são inerentes à sua atuação. Alguns exemplos seriam o direito a existir e a liberdade de expressão para pregar a crença que representam, entre outros. Mas, ainda assim, também não têm direito à dignidade humana. Afinal, por mais que religiões sejam formadas por humanos, elas não são, de fato, humanas. Não são pessoas.

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Por isso as religiões também podem e devem ser criticadas. Seus erros e defeitos devem ser apontados. Não necessariamente para que desapareçam (até porque isso só acontece através da educação de um povo, como parece ser o caso em 9 países) , mas até para que melhorem. É, aparentemente, o que está ocorrendo na Igreja Católica (ICAR) com o Papa Francisco, ao menos em relação à comunidade LGBT.

É preciso lembrar ainda que nem toda crítica é destrutiva. Ao contrário, muitas vezes uma crítica pode ser construtiva, depende mais de como ela é encarada, do que como ela é feita. E nada está “acima de críticas” – mesmo pessoas em casos extremos (como o de serial killers,  por exemplo).

Assim, é preciso que todos nós – ateus, teístas, agnósticos, deístas, panteístas ou sejam o que for – aprendamos a lidar e a separar isso tudo. Só dessa forma é que o debate pode ir a diante, sem chororo de parte alguma. Precisamos nos focar nos argumentos, não em quem os profere; na razão, não na emoção; e, enfim, no debate em si.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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