Uma defesa do ceticismo na educação

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A palavra “disciplina” tem diversos significados: desde aqueles ligados à educação até aqueles ligados ao militarismo. A maioria desses sentidos têm, porém, se perdido com o passar do tempo em nosso país. Parece que o Brasil se apaixonou pela disciplina militar de um bom tempo pra cá – talvez desde a Guerra do Paraguai, não sei. Com a Ditadura Militar pela qual passamos, finalmente isso chegou a seu auge: a disciplina escolar se tornou militarizada.

militar

Apenas como exemplo (até porque isso não serviria de evidência, é apenas um “conto”, digamos), eu, que nasci em 1978, entrei na escola em 1985 (1º série do Primeiro Grau à época, atual Ensino Fundamental). Esse foi o ano em que o regime militar brasileiro chegou ao fim, com a eleição indireta de Tancredo Neves, e, ainda assim, enfrentei um “regime escolar” bem próximo do militar.

Lembro-me que quando um professor faltava e não havia um professor que pudesse substituí-lo (coisa que aconteceu diversas vezes), éramos obrigados a ficar em nossas carteiras, virados para frente sem dar um pio. Os inspetores de alunos (também conhecidos como bedéis em algumas regiões) ficavam nos vigiando e, caso vissem um aluno apenas olhando para o lado, o tirava da sala e levava para a diretoria, para tomar uma advertência – ou até mesmo uma suspensão.

Os professores variavam no que diz respeito à exigência de disciplina, claro. Afinal, são seres humanos. Uma de minhas professoras, chamada Carmélia, jamais esquecerei. Ela dava aulas de biologia e de forma quase teatral. Não tinha um aluno que não prestasse atenção às suas aulas. Outros, como o professor de geografia, do qual não lembro o nome, eram extremamente rígidos e não davam muita abertura para os alunos.

A questão que quero levantar com tudo isso é: escolas assim ensinam alguém a pensar, se o aluno não tem espaço sequer para questionar? E, afinal, qual é o papel da escola? Ensinar os alunos a obedecer ordens cegamente, ou a questionar, investigar e descobrir, aprendendo no processo?

sala de aula

Do Dicionário Michaelis online extraímos o seguinte sentido da palavra disciplina:

disciplina

dis.ci.pli.na

sf (lat disciplina) 1 obsol Ensino, instrução e educação. 2 Relação de submissão de quem é ensinado, para com aquele que ensina; observância de preceitos ou ordens escolares: Disciplina escolar. 3 Sujeição das atividades instintivas às refletidas. 4 Observância estrita das regras e regulamentos de uma organização civil ou estatal: Disciplina militar. 5 Conjunto de conhecimentos científicos, artísticos, linguísticos etc., que se professam em cada cadeira de um instituto escolar. 6 Obediência à autoridade. 7 Procedimento correto. 8 Castigo, mortificação.

Esses sentidos não podem mais ser confundidos. Em escolas os únicos sentidos de disciplina que podem entrar são 1 e 5. Todos os demais têm de ser substituídos por uma simples palavrinha, à qual muitos esquecem: respeito. É só isso. E é tão simples… E mesmo o sentido 2 está mais para militar do que para escolar.

cao ensinado

Escolas não têm de criar robôs, que apenas obedecem regras sem questionar; não têm de criar pessoas irresponsáveis/inconsequentes que sigam a ordens, pouco importando quais sejam; nem têm que criar pessoas que obedeçam a “autoridades”, afinal autoridades são humanos e também erram, pouco importando “em que” essa autoridade se aplica.

“O brilhantismo intelectual não é garantia contra… estar errado.”

– Carl Sagan

Escolas têm de formar cidadãos. Pessoas capazes de pensar por si mesmas, as quais estejam preparadas não apenas para a vida cotidiana, mas para ajudar a sociedade no futuro. Seja essa ajuda na forma de atuação profissional, seja na atuação política (tanto como possíveis candidatos, quanto como eleitores) e assim por diante.

Mais importante de tudo, acho, é o papel de ensinar a questionar. A dúvida é algo fundamental, que deve ser ensinado a todos. Afinal, se não houver a dúvida, nada jamais será investigado/estudado e, portanto, jamais avançaríamos cientifica e tecnologicamente. O questionamento é o segundo passo, que surge quando deixamos de ter medo 1) de reconhecer que temos dúvidas e 2) de procurar tirar essas dúvidas.

“Apenas pense sobre a tragédia de ensinar as crianças a não duvidar!”

— Clarence Darrow

Por exemplo, alunos que ficam com dúvidas em aula não podem ter medo de tirá-las com os professores. Ao mesmo tempo, é extremamente saudável que se duvide do conteúdo de aula e se tente, junto ao professor e demais alunos, debater isso. Quer dizer, se aquele conteúdo é realmente válido, que tipo de evidências o sustenta, etc. Porque, com isso, os alunos aprenderiam muito mais.

Da mesma forma, cidadãos devem, sempre, questionar (ou colocar em dúvida, se preferir) tudo aquilo que é afirmado e/ou prometido por aqueles em posições de autoridade. Políticos, por exemplo. O ceticismo deve, também, ser aplicado nessa área. É verdade, precisamos de pessoas partidárias, que se envolvam no jogo político mais diretamente. Contudo, o cidadão que decide (através do voto) não pode ser partidário: ele tem de ser racional.

“Se não formos capazes de fazer perguntas céticas e de ser céticos com aqueles ocupando posições de autoridade, então estaremos à mercê deles.”

— Carl Sagan

world

Assim, todos os demais sentidos de disciplina (2, 3, 4, 6, 7 e 8) devem ser restringidos às forças militares e ao serviço militar (que sequer deveria ser obrigatório – mas aí é outra história). E, talvez, ao esporte, no caso do item 3, não sei. Escolas não têm apenas que passar conteúdo e fazer com que os alunos o decorem. Ao contrário, têm principalmente de ensinar a pensar, raciocinar, duvidar e questionar. Assim é feito nos países mais avançados e com maior IDH do mundo e teremos de fazer o mesmo caso queiramos chegar nesse patamar.

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Autor(es):

Mário César

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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2 Comments

  1. Apreciei muito o seu texto: percebe-se um posicionamento forte e bem ponderado. É muito parecido com a forma que penso sobre o assunto, pensamento crítico na formação do indivíduo, porém, após perceber onde está a lacuna torna-se necessário um plano de ação. Com os valores atuais tidos como prioritários no Brasil e com o pensamento vigente da maior fatia de nossos cidadãos (não mencionando a corrupção nas esferas do poder e da mídia), não consigo visualizar ações concretas para que possamos mudar nossa realidade! Isso me entristece. Como podemos unir minorias em prol da maioria? Como divulgar ciência, ceticismo e livre pensamento ao nosso povo? São questões que gostaria de ir mais a fundo.

    Parabéns novamente pele texto. Um abraço,

    -Márcio P. B. Jr.

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    • Olá, Márcio. Tudo bem?

      Você colocou ótimas questões. Não tenho todas as respostas, mas tenho algumas ideias.

      Acho que o primeiro passo já foi dado: nos grandes protestos que tivemos em Junho passado uma das exigências que mais víamos era de uma “educação padrão FIFA”. Lembra?

      O segundo passo é votar em candidatos comprometidos com a educação. Como o Cristóvão Buarque, embora ache que, infelizmente, ele não será candidato a presidente.

      Sobre a divulgação da ciência, ceticismo, livre pensamento, filosofia, etc, por hora o máximo que podemos fazer é escrever textos como esse e publicar em blogs. Agora, se houvesse dinheiro disponível, poderíamos fazer muito mais. Imagine só: criar uma revista e distribui-la em todo o país; criar um canal de TV sério… O céu é o limite. 😉

      Mas, enfim, é um debate interessante. E muitas outras ideias poderiam ser sugeridas. 😉

      Abraços!

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